“Beisser Project”, a experimentação autoral de Vitor Cipriano
“Beisser Project”, a experimentação autoral de Vitor Cipriano.
Desconstruindo a imagem comercial tradicional dos calçados para tratá-lo como um artefato artístico, Vitor Cipriano apresentoa "Beisser Project", a sua leitura sobre a silhueta da Puma em relação a textura, pele e o instinto humano. A narrativa investiga os polos entre o selvagem e o vulnerável, substituindo a publicidade convencional por uma atmosfera densa influenciada pela dança contemporânea e pelo teatro Butoh. O projeto expande o produto físico para um ecossistema visual completo que reúne design gráfico, fotografia de still e estudo semiótico.
A produção do material levou seis meses de pesquisa interna e teve o corpo humano centralizado como principal elemento de linguagem. Para traduzir as linhas do calçado em texturas de camuflagem na tela, Cipriano contou com a direção de figurino de Pedro DDN, o styling de Luisa Luca o trabalho de caracterização com perucas e lentes desenvolvido por Holland. Interpretados inteiramente pela atriz Belinda sobre um fundo preto absoluto, os dois personagens simulam a pele e o pelo animal na natureza em um processo de gravação cru focado na vulnerabilidade da equipe.

Batemos um papo com Vitor acerca das reflexões sobre o mercado criativo e a criação do estudo que originou o projeto autoral. Confira a entrevista completa abaixo:
NOTTHESAMO: O projeto traz o Puma Beisser de forma quase subliminar, como você mesmo diz, transformando o design do tênis no precursor da atmosfera. Qual foi a parte mais difícil de desmembrar o objeto físico e traduzir suas linhas, cores e estrutura em sentimentos e texturas?
Vitor Cipriano: A maior dificuldade, a princípio, foi não ficar refém do universo "tênis", do que antecipadamente a peça já carrega, representa e do que é esperado que ela comunique. Sinto que uma chave virou quando eu consegui enxergar o tênis como um artefato, através de um processo de pesquisa interno meu: estudar a história dele, de quem o criou, fotografá-lo… Todo esse caminho que percorremos me fez sintonizar com o tanto de códigos e histórias que ele abordava. Isso me inspirou a construir algo a partir da união desses pontos que se apresentavam e, no processo, a não me tornar refém novamente dessas ideias, deixando que elas se transformassem até que eu quase me esquecesse do lugar inicial de onde surgiram. No geral, o filme é sobre o tênis porque ele foi o precursor de tudo, mas não fizemos disso o seu fim. Acredito que foi através desse parâmetro que se tornou possível criar algo original, que contasse uma história própria.
NTS: Em que momento da pesquisa vocês perceberam que, para honrar a essência do tênis como um artefato cultural, a imagem comercial tradicional precisava morrer para dar lugar a essa estética?
VC: Internamente isso já vinha me permeando de maneira intuitiva, mas quando me conectei de verdade com o tênis nos meus processos de fotografia, compreendi que eu estava trabalhando com um objeto artístico, que tinha uma narrativa própria, e que era possível contar uma história para além de alguém usando ele. Não diria que a imagem comercial morreu no projeto, mas com certeza passei a investigar pessoalmente maneiras menos tradicionais de falar sobre peças, marcas e streetwear.
NTS: No roteiro original, a narrativa de caça e proteção seria contada por duas pessoas. Pelo limite físico e de tempo, você teve que adaptar o projeto para apenas uma pessoa interpretar os dois personagens. Como essa limitação técnica transformou o conceito do filme?
VC: Acho que a narrativa em si foi transformada. Idealizamos dois personagens interpretados por duas pessoas diferentes e a história se conduziria a um lugar mais romântico; tínhamos escolhido falar mais sobre obsessão, vícios… Centralizar o filme em uma pessoa só, atuando como dois personagens, nos trouxe essa segunda direção, que conversa mais com dois polos de uma mesma face: a integração entre o lado mais selvagem e o mais vulnerável. Por mais que agora, olhando todo o macro que o projeto percorreu e se tornou, eu enxergue claramente tudo isso que descrevi, ainda consigo encontrar aspectos de uma história romântica. Porém, sim, a nível de estrutura e construção da linguagem houve mudanças, mas que foram muito bem recebidas e desenvolvidas pela Belinda, que interpreta os personagens.

NTS: Com essa mudança, a beleza e o figurino ganharam um espaço para camuflar e diferenciar essas duas personas em um fundo preto absoluto. Como foi construir essa caracterização?
VC: O figurino em si já existia dessa maneira antes das mudanças que ocorreram. Queríamos desde o início uma moda que fosse muito bem estabelecida e pensada, mas que não dispersasse da história. Nossas escolhas sempre envolveram camuflagem para relacionar com a pele e o pelo do animal na natureza, camadas e tons dos respectivos tênis. Para isso, tivemos o Pedro DDN centralizando e dirigindo o figurino e a Luisa Luca trabalhando juntamente no styling. O maior divisor de personas entrou com o Holland na beleza; tivemos perucas e lentes que intensificaram a energia e a personalidade de cada personagem.
NTS: Para dar vida aos movimentos teatrais, vocês mergulharam no universo da dança contemporânea de Pina Bausch e no Butoh japonês (Kazuo Ohno e Tatsumi Hijikata), linguagens que lidam muito com o grotesco, o onírico e a dor. De onde surgiu essa ideia e esses locais de aprofundamento?
VC: A Leticia e a soma da direção dela são o ponto principal que caracteriza esse fator no projeto. O movimento no filme surge com a escolha de centralizar o corpo como uma identidade própria, como uma das linguagens. No processo de fotografia do tênis, começamos a identificar padrões que se assemelhavam a estruturas corporais e, a partir desse olhar, entendemos que o corpo se destacaria na nossa história. A Leticia já vem de um lugar de repertório teatral; ela desenterrou das suas pesquisas identidades que construíram e constroem narrativas com corpos, coreografias e movimentos. As citações de Pina Bausch, Kazuo Ohno e Tatsumi Hijikata surgem dela.

NTS: Você mencionou que dirigir esse projeto exigiu encontrar a própria relação primitiva e usar até a "raiva" como combustível para construir no mundo. Como foi o processo de desarmar a equipe e o elenco para que todos ficassem vulneráveis o suficiente para colocar essa energia crua na tela?
VC: Acredito que tudo se inicia na concepção. Não posso escrever algo que não estou sentindo, assim como quem irá interpretar este papel não pode dar vida a algo que ele mesmo não sente. Então, foi um processo de entender a existência desse lugar dentro de nós e repetir muitas vezes, até que finalmente estivéssemos sentindo juntos essa sinergia. Não posso falar sobre todos, mas acredito que a equipe em si encara esse local já pela escolha de ter embarcado nesse projeto. Para fazer audiovisual no Brasil é necessário um pouco de raiva por si só; fazer isso de maneira independente, somar cartas e forças é usar essa energia para dizer que estamos aqui.
NTS: O projeto levou 6 meses de desenvolvimento, mas tudo se alinhou e aconteceu em apenas uma semana, graças a um coletivo muito engajado. Diante de um mercado de trabalho tão saturado por campanhas comerciais engessadas, esse projeto funcionou mais como um grito de liberdade ou como uma prova de conceito do potencial do audiovisual brasileiro?
VC: O potencial do audiovisual brasileiro já é provado, já existe, já consolidamos o quanto somos bons, profissionais e criativos. Então, pode-se dizer que o projeto vai mais para um lugar de liberdade. Nos sentimos saturados com o que nos é condicionado e, nessa, acabamos tentando diariamente alcançar métricas, briefs e paredes do mercado. Aqui construímos algo nosso, por nós, mas, junto a isso, também mostramos que estamos prontos para elevar as narrativas, as publicidades e as campanhas visuais que estão sendo feitas aqui.

NTS: O material de vocês é um ecossistema 360 completo: tem filme, still, design gráfico, estudo semiótico e BTS. O que você espera que a mente dos jovens criativos sinta ao absorver esse projeto? Qual é o recado principal que a união desse coletivo deixa para quem quer se juntar e fazer arte de forma independente hoje no Brasil?
VC: Acreditem e enxerguem as pessoas que estão ao seu redor. Que possamos aliviar o cenário que às vezes é escasso de recursos colaborando e nos organizando uns com os outros. Estudem, levem seus projetos com muita seriedade — é independente, mas não é amador —, posicionem-se. O conhecimento das pessoas é valioso, as estruturas que já existem são valiosas. Acreditem até nas suas ideias ruins e persigam-nas.




