A moda funcional em The Bear e a estética do fazer

Jan 28, 2026

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Desde o início, The Bear constrói sua identidade visual sem recorrer à moda como ornamento. O vestir não aparece como elemento aspiracional nem como atalho para tornar seus personagens interessantes. Ele surge de forma natural, quase inevitável, como extensão direta de personagens submetidos a ambientes intensos, ritmos rígidos e altos níveis de exigência. As roupas se repetem, envelhecem, acumulam marcas, e é nesse desgaste que a série encontra coerência visual e narrativa.

O realismo do figurino é resultado do trabalho de Courtney Wheeler, que observa ambientes reais, conversa com atores e pesquisa chefs e cozinhas para que cada peça funcione de maneira prática e narrativa. Ela descreve que, ao se aprofundar nos detalhes da cozinha e nas lojas de Chicago, tudo começa a se encaixar de forma natural, permitindo que o figurino conte a história sem exageros. “Você começa a se tornar obcecada pelos detalhes do restaurante quando está trabalhando na série […] Depois que você entra nas lojas, tudo realmente se encaixa”, diz Wheeler sobre seu processo.

Essa abordagem aproxima The Bear de uma compreensão mais essencial do vestir. Antes de ser linguagem ou expressão pessoal, vestimentas ligadas ao trabalho industrial, militar e técnico nasceram para responder a necessidades concretas, oferecendo proteção, mobilidade e resistência. Tecidos densos, cortes precisos e construção reforçada não tinham intenção estética declarada, mas acabaram formando um vocabulário visual próprio. A série se apropria desse repertório sem transformá-lo em fetiche, tratando a roupa como parte do cotidiano.

Carmy Berzatto encarna essa ideia com precisão. Seu guarda-roupa é restrito e quase repetitivo, composto por peças que priorizam conforto, durabilidade e neutralidade visual, suéteres da J.Crew, calças Thom Browne, Birkenstocks já gastas. O conjunto funciona como um uniforme silencioso, que elimina distrações e reduz decisões. Segundo Wheeler, “Ele não precisa pensar na roupa; a rotina já é suficiente para orientar suas decisões.”

As marcas escolhidas reforçam essa leitura. A J.Crew carrega um imaginário de funcionalidade clássica americana, enquanto a alfaiataria da Thom Browne aparece aqui despida de teatralidade, reduzida ao essencial, com cortes limpos e funcionais. As Birkenstocks deixam claro que conforto e suporte não são concessões, mas prioridades. Em The Bear, o calçado não completa o visual, ele sustenta o corpo.

A jaqueta Náutica da Double RL amplia essa narrativa. A linha RRL da Ralph Lauren funciona como um arquivo vivo de vestuário utilitário, reunindo referências marítimas, militares e rurais com atenção rigorosa à construção e aos materiais. São peças pensadas para atravessar o tempo, envelhecer com dignidade e carregar história, representando um luxo que se revela no uso contínuo, próximo da lógica contemporânea que valoriza permanência em vez de exibição.

As T-shirts usadas por Carmy são um dos exemplos mais claros da estética do fazer. Produzidas pela alemã Merz b. Schwannen, elas utilizam o método Loopwheel, um processo fabril do início do século XX que privilegia lentidão e precisão, formando um tecido tubular estável, macio e resistente. A escolha mostra outro tipo de valor, onde tempo e técnica fazem parte do produto final.

Sydney acrescenta uma dimensão mais subjetiva ao visual da série. Camisetas vintage e bandanas funcionam como pequenas declarações silenciosas, compondo uma identidade visual que evolui junto com sua trajetória profissional. Muitas dessas bandanas são da japonesa Kapital, que reinterpretam referências do workwear americano a partir de técnicas artesanais. Para a figurinista, Sydney usa a roupa como um espaço de respiração dentro da pressão da cozinha, “uma maneira de se expressar sem perder foco.”

Marcus representa o lado mais direto dessa estética. Carhartt e New Balance aparecem como escolhas naturais, coerentes com sua rotina e com a função das peças. Ambas as marcas nasceram fora do circuito da moda, pensadas para uso prático, e só depois foram absorvidas pelo imaginário fashion. Wheeler observa que Marcus se veste para trabalhar e comunicar rotina, movimento e foco, “sem intenção estética adicional.”

A afinidade entre cozinha e moda não é casual. Cozinheiros, designers e artesãos compartilham atenção à matéria-prima, ao corte, à proporção e ao acabamento. Existe uma lógica comum entre esses campos, baseada em técnica, repetição consciente e domínio do tempo. Não por acaso, a gastronomia se tornou uma fonte recorrente de inspiração para o design contemporâneo.

Na vida real, a estética do fazer vem se consolidando como resposta ao excesso de imagem e velocidade que marcou a moda recente. Em vez do impacto imediato, cresce o interesse por roupas pensadas para o uso contínuo, capazes de atravessar estações e contextos sem perder sentido. Marcas que trabalham com construção, materialidade e ritmo próprio ajudam a sustentar esse movimento, seja no minimalismo funcional de Lemaire, na disciplina silenciosa da Margaret Howell ou na precisão japonesa de Auralee.

Fora da ficção, The Bear encontra ressonância no modo como seus protagonistas circulam entre cultura e moda. Jeremy Allen White aparece em campanhas que exploram uma masculinidade descomplicada, enquanto Ayo Edebiri se afirma como referência justamente por sua autenticidade e leitura pessoal do vestir. Mais do que nomes ou direções criativas específicas, o que se reflete fora da série é a valorização da materialidade, do processo e da verdade estética.

No fim, The Bear não propõe um novo estilo nem dita tendências. A série reafirma algo mais fundamental: a roupa ganha força quando nasce da função, acompanha o corpo e faz parte da vida real. É nessa simplicidade bem construída que sua estética se sustenta.

Fonte das informações sobre Courtney Wheeler: Complex, “Meet the Woman Making ‘The Bear’ One of the Most Stylish Shows on Television”, 30 de junho de 2023.

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