A proximidade cultural entre as periferias brasileiras e magrebinas

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Nos últimos anos, com o aumento das conexões feitas pelas redes sociais, passamos a poder observar pessoas de lugares diversos do planeta consumindo o mesmo que nós. E as periferias não escapam disso. Seja em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e toda periferia brasileira, observamos um apego com marcas, cortes de cabelo, modelos de óculos, tênis e todo esse modelo de afirmação social por meio de se sentir atrelado a um estilo de consumo que se refere à uma certa elite, tida como dona dos capitais culturais.

O fato é que, ao passar a reparar esses códigos presentes aqui como símbolo de uma certa “brasilidade”, olhamos para o outro lado do oceano, em uma região próxima da Europa, utilizada como território de exploração, que emerge os mesmos signos que nós.

Lacoste, Air Max, roupas de time, o respeito e pertencimento pelas origens, as coincidências são tamanhas, especialmente sobre a região do Marrocos.

A aproximação entre periferias brasileiras e magrebinas não começa na música, nem na moda, nem na imagem que circula hoje nas redes. Ela começa muito antes, na forma como esses territórios foram ocupados, explorados e reorganizados ao longo dos séculos, e o que hoje aparece como semelhança cultural visível é, na prática, a superfície de processos históricos mais profundos que atravessam colonização, formação racial, urbanização desigual e reorganização constante da vida nas margens da cidade.

No caso do Magrebe, a formação social é resultado de uma sobreposição contínua de camadas. Povos berberes originários, presenças fenícias e romanas, a expansão árabe e, mais tarde, a colonização europeia, especialmente francesa, criam uma estrutura onde cultura e poder sempre estiveram organizados em níveis distintos. A colonização não apenas extrai recursos, mas realiza alterações claras no espaço urbano, separando áreas planejadas, voltadas para europeus, de zonas onde a população local é concentrada. Essa divisão não desaparece com a independência, ela permanece como base da cidade contemporânea.

No Brasil, a lógica segue outro percurso, mas chega a um resultado próximo. A colonização portuguesa, sustentada pela escravidão africana, estabelece desde o início uma estrutura baseada em hierarquia racial e econômica. Ao longo do tempo, com a abolição e a chegada de novas ondas migratórias, essa estrutura se reorganiza, mas não se dissolve, realizando uma certa transferência para o espaço urbano, onde a expansão das cidades, principalmente a partir da metade do século XX, passa a refletir diretamente essas desigualdades.

Tanto no Brasil quanto no Magrebe, essas áreas surgem a partir de urbanização acelerada, migração interna massiva e ausência ou seletividade de planejamento estatal. A cidade cresce de forma desigual, absorvendo mão de obra sem oferecer infraestrutura proporcional, e empurra parte da população para zonas onde o estado chega depois ou de forma incompleta.

No Magrebe, esse processo se intensifica após as independências entre as décadas de 1950 e 1970. Cidades como Casablanca, Argel e Túnis recebem grandes fluxos populacionais vindos do campo, criando bairros informais que crescem sem planejamento inicial. No Brasil, entre 1950 e 1980, o mesmo movimento acontece em escala massiva, com a formação de favelas e periferias urbanas nas grandes capitais.

A juventude, majoritária nesses territórios, cresce dentro desse cenário e passa a desenvolver suas próprias formas de leitura do mundo. Sem acesso pleno às instituições formais, ela cria linguagens próprias para organizar experiência, identidade e pertencimento.

No Brasil, existe uma construção histórica que coloca Europa e Estados Unidos como centros de referência cultural e econômica. Isso se reflete na forma como marcas e produtos são percebidos dentro da periferia. O acesso a determinados itens passa a funcionar como sinalização de pertencimento e mobilidade, mesmo que dentro de um sistema limitado.

No Magrebe, essa referência é ainda mais direta. A proximidade geográfica e histórica com a Europa, principalmente França, Espanha e Itália, cria um fluxo constante de pessoas, trabalho e cultura. Isso estabelece um eixo onde o que vem do outro lado do Mediterrâneo é visto como padrão de valor. Marcas como Lacoste, Sergio Tacchini e Nike deixam de ser apenas produtos e passaram a se tornar sinônimo de acesso, circulação e reconhecimento social.

A semelhança estética entre jovens periféricos brasileiros e magrebinos, incluindo aqueles que vivem em diáspora na Europa, se constrói a partir dessa mesma lógica, um processo paralelo de apropriação e ressignificação de códigos globais. A roupa, o corte de cabelo, o tênis, a forma de vestir o corpo, o jeito revel de ser sob os tradicionalismos, tudo isso passa a comunicar posição dentro de um sistema desigual, que acaba conectando essas juventudes.

Em cidades europeias, jovens de origem magrebina crescem em bairros periféricos marcados por exclusão social, tensão racial e acesso limitado a oportunidades. Artistas como Morad, Maes e BabyGang traduzem essas experiências em música e imagem, construindo uma estética que, em muitos aspectos, se aproxima do que é produzido nas periferias brasileiras.

O ponto de convergência não está na troca direta entre esses territórios, que falam línguas distintas, mas na semelhança das condições que os produzem. Formação histórica marcada por dominação externa, cidades organizadas de forma desigual, juventude numerosa e acesso fragmentado à cultura global criam ambientes onde respostas culturais semelhantes surgem.

E é justamente essa base que permite entender por que, mesmo separados por um oceano, jovens em bairros periféricos de São Paulo, Casablanca ou até mesmo em outros países constroem códigos que, quando colocados lado a lado, parecem dialogar diretamente. Não porque estejam conectados entre si, mas porque respondem a problemas estruturais semelhantes com ferramentas culturais parecidas, emergindo de uma mesma maneira.

Quando a cidade se organiza de forma desigual, a cultura deixa de ser apenas expressão e passa a ser também estratégia. E é nesse ponto que essas periferias, mesmo distantes, começam a se aproximar.