A vida analógica está voltando?

Jan 15, 2026

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Consumo físico, fadiga digital e o deslocamento da experiência no começo dos anos 2020.

A ideia de que a vida analógica estaria voltando merece ser examinada com precisão, como um fenômeno material dos hábitos de consumo ao longo da última década. O que se observa não é exatamente uma rejeição total do digital, mas um deslocamento na forma como dispositivos, mídias e experiências físicas reconquistam espaços que foram rapidamente ocupados pela tecnologia digital, sem, no entanto, substituí-la.

Para entender esse fenômeno é preciso voltar um pouco no tempo e mapear o processo de saturação digital. Ao longo dos anos 2010, o ecossistema digital consolidou-se como plataforma hegemônica de consumo cultural, comunicação e trabalho. Serviços de streaming passaram a dominar a distribuição de música, vídeo e jogos, as redes sociais e dispositivos móveis tornaram-se o principal meio de interação social, ferramentas baseadas em nuvem substituíram progressivamente mídias físicas. No entanto, essa transformação produziu efeitos secundários que se acumulam e que só se tornaram visíveis de forma ampla a partir da segunda metade da década passada.

Durante os anos 2000 e 2010, o discurso dominante foi o da digitalização total. Música, fotografia, leitura, trabalho, comunicação e memória passaram a ser mediadas por telas, plataformas e dispositivos conectados. A promessa era eficiência, democratização e acesso ilimitado. Em parte, isso se concretizou. Ao mesmo tempo, criou-se uma dependência estrutural de ambientes digitais que passaram a concentrar poder econômico, controle de atenção e dados pessoais. A partir do final da década de 2010, esse modelo começa a mostrar sinais claros de desgaste, tanto do ponto de vista psicológico quanto cultural e econômico.

Pesquisas em diferentes países passaram a apontar aumento de ansiedade, déficit de atenção, esgotamento mental e sensação de aceleração constante associados ao uso intensivo de redes sociais e dispositivos móveis. O conceito de fadiga digital deixa de ser restrito a ambientes corporativos e passa a fazer parte do vocabulário cotidiano. Ao mesmo tempo, escândalos envolvendo vazamento de dados, manipulação algorítmica e dependência de plataformas reforçam uma percepção de perda de controle sobre a própria experiência cotidiana.

O cálculo econômico confirma parte dessa tendência. Enquanto as plataformas digitais capturam parcelas cada vez maiores do gasto em entretenimento, exemplo disso foi o momento em que gasto com serviços como Netflix, Spotify e jogos online ultrapassou o gasto com mídias físicas básicas no Reino Unido em 2017, certas categorias analógicas começaram a recuperar relevância. Dados de mercado mostram que mídias físicas específicas, como os discos de vinil, têm crescido de forma consistente, em 2023 por exemplo, os Estados Unidos registraram a venda de quase 43 milhões de vinis, com aumento relevante ano após ano e receita significativa para o setor.

Esse crescimento não se limita apenas ao universo musical. Há registros de setores segmentados que capturam comportamento de consumo analógico de forma consistente como vendas de livros físicos que continuam estáveis ou em leve crescimento, apesar da digitalização dos conteúdos e da popularidade de e-books e audiolivros. Equipamentos de fotografia e dispositivos como câmeras descartáveis ou de filme também passaram por retomadas, especialmente entre públicos mais jovens, com incremento nas vendas e maior engajamento em comunidades especializadas.

O retorno de formatos como vinis, filmes fotográficos e impressões físicas têm, por isso, duas dimensões distintas, mas interligadas, o mercado e a experiência cultural. No primeiro caso, os relatórios de faturamento mostram que, apesar do domínio do streaming e do digital, mídias físicas específicas, vinil, discos, livros impressos, CDs, fecharam ciclos recentes com crescimento ou estabilidade de receita. Em 2024, a receita de mídias físicas nos Estados Unidos alcançou quase US$ 1 bilhão na primeira metade do ano, impulsionada pelo crescimento de formatos tradicionais mesmo diante do crescimento do streaming.

No campo da experiência cultural, há dados e relatos suficientes para apontar que comunidades significativas de usuários têm buscado deliberadamente atividades analógicas, seja fotografia em filme, escrita manual, diário em papel, jogos de tabuleiro ou manuseio de mídias físicas, como formas de delimitar o tempo, reduzir a dependência de telas e encontrar práticas que exigem envolvimento contínuo e atenção plena. Grupos organizados em torno de câmeras analógicas ou discos de vinil contam com participação crescente de públicos jovens que, curiosamente, cresceram com acesso irrestrito à tecnologia digital. Isso sugere que a adoção de experiências analógicas não é simplesmente uma memória de infância ou um gesto nostálgico, mas uma escolha ativa diante de um modelo digital saturado.

Nesse contexto, práticas analógicas funcionam como mecanismos de desaceleração, onde escrever uma página à mão, ouvir um vinil sem pular faixas, aguardar o desenvolvimento de uma fotografia em filme ou folhear um livro impresso exigem ritmo próprio, deliberado e não mediado pelo design instantâneo do digital.

É importante ressaltar que essa “volta do analógico” não se traduz em uma substituição do digital, mas em uma coexistência híbrida. Em muitos casos, usuários combinam as práticas entre o digital e o que é analógico. O analógico ocupa espaços que o digital não preenche completamente em tangibilidade, materialidade, limitação de tempo e experiência contínua.

Também é preciso olhar para quem está conduzindo esse retorno. Ao contrário do que se poderia esperar, não são apenas gerações que vivenciaram o auge analógico originalmente. Há evidências consistentes de que a chamada geração Z, nascida já totalmente imersa no digital, tem sido um vetor significativo desse movimento. Dados de vendas e pesquisas de comportamento indicam que consumidores entre 16 e 27 anos são responsáveis por grande parte do consumo de câmeras descartáveis, filmes e mídias físicas emergentes. O que isso sugere não é reencontro com a própria infância, mas uma resposta pragmática ao modo como o digital molda atenção, estética e relações sociais.

Essa retomada de práticas analógicas também pode ser vista em relação mais ampla à maneira como marcas e mercados estão respondendo. Há pesquisas que mostram que consumidores valorizam experiências “offline” e interações físicas com produtos. Isso não significa que o digital esteja em declínio, ele é dominante em muitos patamares, mas que o valor percebido do analógico está sendo reavaliado dentro da cadeia do consumo cultural e simbólico.

Esse movimento, no entanto, não é homogêneo nem universal. Enquanto categorias como vinil, impressos e fotografia têm crescimentos mensuráveis, outras mídias analógicas continuam minoritárias ou nichadas. O caso das câmeras de filme, por exemplo, revela um crescimento real em participação de mercado, mas ainda limitado frente ao volume total de fotografias produzidas em smartphones. Por isso, falar em “volta total” do analógico seria equívoco, trata-se de um ajuste estrutural no ecossistema tecnológico e cultural, não de uma substituição.

É igualmente equivocado reduzir esse fenômeno à mera nostalgia. O que explica boa parte desse retorno é a experiência concreta de prática repetida em contextos que o digital mediado por algoritmos e dispositivos não oferece como limites materiais, tempo de espera e a impossibilidade de edição imediata. Esses elementos criam uma diferença clara de ritmo, atenção e envolvimento.

Em resumo, a vida analógica não está voltando como um paradigma dominante, o digital continua sendo a base estrutural do cotidiano. O que se observa é um ajuste de equilíbrio, uma reintrodução de práticas físicas e concretas em resposta à saturação digital, apoiada por dados de consumo e mudanças culturais. Esse fenômeno é sintoma de uma economia cultural que se reorganiza, não de uma regressão histórica.

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