Artacho Jurado: O arquiteto autodidata
João Artacho Jurado nasce em 1907 no bairro do Brás, em São Paulo, filho de imigrantes espanhóis em uma cidade que ainda se organizava entre indústria, ferrovia e expansão urbana desordenada. Seu ponto de partida não é a arquitetura acadêmica nem o debate intelectual que dominava o campo no início do século XX. Jurado se forma profissionalmente a partir do desenho, da publicidade, da comunicação visual e da construção prática. Trabalha ainda jovem com letreiros, fachadas comerciais, painéis decorativos, iluminação em neon e cenografia para feiras industriais. Esse início ajuda a entender um traço central de sua obra futura: a arquitetura como experiência visual direta, pensada para ser vista, usada e reconhecida no cotidiano, não como exercício teórico.
Nos anos 1930 e 1940, São Paulo passa por um crescimento acelerado impulsionado pela industrialização e pela migração interna e externa. A cidade se verticaliza rapidamente, e o setor imobiliário encontra espaço para expansão em bairros próximos ao centro e em áreas de valorização emergente. É nesse contexto que Artacho Jurado entra definitivamente no ramo da construção civil. Ao lado do irmão Aurélio, funda a Construtora Anhanguera, depois rebatizada como Construtora e Imobiliária Monções. A partir desse momento, Jurado passa a atuar como empreendedor, idealizador e autor conceitual de seus edifícios, ainda que legalmente as plantas precisassem ser assinadas por engenheiros ou arquitetos registrados.

Esse arranjo institucional gera atrito constante com o Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura e com a elite profissional da época. Jurado é visto como um intruso, alguém que produz arquitetura sem passar pelos ritos acadêmicos e sem aderir aos códigos dominantes do modernismo brasileiro. Enquanto o modernismo defendia a contenção formal, a funcionalidade estrita e a rejeição da ornamentação, Jurado seguia na direção oposta. Seus prédios assumem cor, excesso visual, elementos decorativos marcantes e uma composição espacial que privilegia o impacto imediato.
A São Paulo das décadas de 1950 e 1960 é marcada por nomes como Vilanova Artigas, Lina Bo Bardi, Rino Levi e Oswaldo Bratke. A arquitetura moderna se consolida como linguagem oficial da cidade, associada a progresso, racionalidade e projeto de nação. A obra de Artacho Jurado surge como um corpo estranho nesse cenário. Ele não dialoga com a estética da máquina nem com a ideia de arquitetura como manifesto político ou social abstrato. Seus edifícios dialogam com o desejo, com a fantasia, com a vida cotidiana e com uma noção de conforto e prazer urbano pouco discutida à época.

Um dos aspectos centrais de sua produção é a incorporação sistemática de áreas comuns como parte estruturante do projeto. Piscinas, salões de festas, terraços, jardins elevados e espaços de convivência não aparecem como adereços, mas como núcleo da experiência residencial. Em edifícios como o Bretagne, o Cinderela, o Saint Honoré e o Piauí, morar deixa de ser apenas ocupar um apartamento e passa a envolver circulação social, lazer e uso coletivo do espaço. Essa lógica antecipa em décadas práticas que se tornariam padrão no mercado imobiliário brasileiro apenas a partir dos anos 1980 e 1990.
A estética de Jurado é marcada por pastilhas coloridas, gradis ornamentados, formas curvas, painéis decorativos, iluminação trabalhada e referências que passam por art déco tardio, cinema, feiras internacionais e uma leitura pessoal do modernismo. Não há uma filiação clara a uma escola específica. Seu trabalho se constrói por acumulação visual, por contraste e por uma relação direta com o olhar do usuário.

Essa abordagem gera rejeição crítica. Durante décadas, a obra de Artacho Jurado é classificada como excessiva ou de mau gosto por parte da crítica especializada. Esse julgamento carrega também uma dimensão de classe e de legitimidade profissional. Jurado não vinha da universidade, não escrevia manifestos e não participava dos círculos intelectuais que moldavam o discurso arquitetônico da época. Sua atuação como construtor e incorporador reforçava a leitura de que seus edifícios seriam apenas produtos comerciais, desprovidos de valor cultural.
Apesar disso, seus prédios são rapidamente absorvidos pela cidade. Moradores se apropriam dos espaços, as áreas comuns se tornam pontos de encontro e os edifícios passam a integrar o imaginário urbano paulistano. O impacto de Jurado não se dá pelo discurso, mas pelo uso, seus projetos funcionam, são habitados, circulados e mantidos ao longo do tempo. Muitos deles permanecem em bom estado de conservação décadas depois, contrariando a ideia de que seriam construções superficiais ou descartáveis.
A partir dos anos 1990, ocorre uma reavaliação crítica de sua obra. Pesquisadores, historiadores e arquitetos passam a olhar para Artacho Jurado fora da lógica binária modernismo versus anti-modernismo. Seus edifícios começam a ser entendidos como expressão legítima de um momento urbano específico, ligado à expansão da classe média, ao lazer como valor e à construção de uma identidade visual própria para a cidade. A ideia de arquitetura como experiência sensorial e social ganha espaço no debate contemporâneo, o que contribui para a revalorização de sua produção.

Exposições, livros e pesquisas acadêmicas passam a situar Jurado como figura central para entender São Paulo do pós-guerra. A Ocupação Artacho Jurado, realizada pelo Itaú Cultural, reúne documentos, plantas, fotografias e depoimentos que ajudam a reconstruir seu processo de trabalho e sua visão de cidade. Fica evidente que sua arquitetura não é fruto de improviso, mas de um método próprio, baseado em repetição, adaptação e leitura do uso real dos espaços.
Artacho Jurado morre em 1983, sem ver o reconhecimento institucional pleno de sua obra. Ainda assim, seus edifícios permanecem ativos, habitados e integrados ao cotidiano da cidade. Hoje, são referências para debates sobre patrimônio, memória urbana e diversidade estética na arquitetura brasileira. Sua trajetória expõe os limites de um campo profissional fechado e mostra como a cidade é construída também por agentes que operam fora do sistema formal, mas profundamente conectados à vida urbana.
Entender a vida e a obra de Artacho Jurado é entender uma São Paulo que não cabe apenas nos livros de arquitetura moderna. É observar como o desejo, o lazer, a cor e a convivência também moldam a cidade, mesmo quando ignorados pelo discurso oficial.
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