Babylon, o retrato cru do racismo estrutural britânico nos anos 80

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O clássico Babylon (1980) é um registro cinematográfico preciso do Reino Unido sob as amarras do Thatcherismo nascente. Dirigido por Franco Rosso e coescrito por Martin Stellman, o longa registrou o cotidiano sufocante da comunidade afro-caribenha. Em 1979, ano das filmagens, a recém-eleita Primeira-Ministra Margaret Thatcher acenava para o eleitorado conservador validando o medo xenofóbico de que o país seria "inundado por pessoas de uma cultura diferente". Babylon captura esse exato momento de virada política, onde o declínio industrial, o desemprego em massa e o racismo institucionalizado transformaram bairros operários como Brixton e Deptford em autênticos barris de pólvora.

A narrativa do longa se desenvolve através da rotina de Blue, vivido por Brinsley Forde, vocalista da banda Aswad. No centro de sua existência estão os Sound Systems, que funcionavam como templos de preservação cultural e o coração pulsante da diáspora jamaicana em Londres. A rotina dos jovens do coletivo Ital Lion girava em torno da preparação para uma competição de música contra o lendário Jah Shaka. No entanto, a efervescência da música divide espaço com uma realidade material violenta. À medida que a competição se aproxima, a barreira do preconceito se fecha sobre eles por meio de demissões sumárias, assédio de vizinhos brancos e pichações agressivas da Frente Nacional (National Front), grupo neonazista que operava livremente nas ruas.

Analiticamente, o grande estopim do sofrimento retratado no longa é o uso sistemático das famosas Sus Laws (leis de suspeita) pela Polícia Metropolitana. Essa legislação de 1824 permitia que policiais parassem, revistassem e prendessem qualquer indivíduo baseando-se puramente na "suspeita" de que ele cometeria um crime. Na Londres de 1980, estatísticas apontavam que mais de 40% dos detidos sob essa lei eram jovens negros, embora eles representassem menos de 6% da população da cidade. O termo "Babilônia", empregado na tradição Rastafári para definir a engrenagem estatal colonialista e opressora, falava aqui sobrearquitetura cinzenta de Londres e no uniforme das patrulhas policiais.

Apenas um ano após o lançamento do longa, em abril de 1981, as tensões geradas pela truculência policial sob a controversa Operation Swamp 81 (Operação Pântano) culminaram nas históricas Revoltas de Brixton (Brixton Riots). Por três dias, o sul de Londres ardeu em confrontos violentos que deixaram centenas de feridos e destruição em massa, forçando o governo britânico a encomendar o famoso Relatório Scarman, que reconheceu pela primeira vez as falhas profundas no policiamento comunitário.

Por conta desse teor altamente incendiário e de sua recusa em oferecer uma mensagem de conciliação artificial, o filme sofreu censura e pânico moral por parte dos distribuidores. No Reino Unido, recebeu a restritiva classificação "X", que minou seu desempenho comercial nas salas de cinema convencionais. Nos Estados Unidos, o Festival de Cinema de Nova York vetou sua exibição sob a justificativa explícita de que a produção poderia insuflar revoltas raciais nas metrópoles americanas. Esse embargo fez com que o longa passasse quase quarenta anos circulando de forma marginal, em fitas VHS contrabandeadas entre entusiastas do reggae. Apenas em 2019, com sua restauração e lançamento tardio na América do Norte, Babylon assumiu seu papel de protagonismo na história do cinema.