Cansado da Internet e suas concepções sobre a rua, influência e expressão em “Sonhando alto com os pés no chão”
Nascido e criado no Rio de Janeiro, Brunet transpôs as vivências acumuladas ao longo dos anos para uma produção artística que se recusa a ser vazia. Para ele, as calçadas, os campos de barro e as contradições urbanas do subúrbio carioca não são apenas cenários de passagem, mas sim a matéria-prima de um trabalho movido pela ironia, pelo protesto e pelo senso de comunidade.
A essência do projeto do artista reside em documentar narrativas que historicamente foram ignoradas. Através de frases como a "Tu tá no RJ, não é Disney", ele joga luz sobre a dualidade violenta de uma cidade que é cartão-postal global, mas que impõe um cotidiano de sobrevivência aos seus moradores. Sua pesquisa artística também atua na defesa e preservação de linguagens marginalizadas, reivindicando expressões como o xarpi (a tradicional pichação carioca) enquanto patrimônio cultural e identidade visual legítima da cidade.

Entre a moda, gráficos, lambes, bandeiras e instalações, suas criações expandiram fronteiras para além do asfalto carioca, ocupando espaços como o Museu de Arte do Rio (MAR), o evento Rio2C e realizando intervenções internacionais em Nova York, Inglaterra e Lisboa. Nas próximas semanas essas intervenções chegam no NOTTHESAMO ANEXO, com datas que serão anunciadas nos próximos dias. Enquanto isso, conversamos com Raphael para compreender onde nasceu sua visão para arte e as compreensões acerca do assunto. Confira a entrevista completa abaixo:
NOTTHESAMO: Para quem ainda não conhece o Cansado da Internet: quem é o Raphael Brunet e em que momento a rua deixou de ser apenas um lugar de passagem para virar o principal suporte da sua arte?
Cansado da Internet: Costumo dizer que eu sou um resultado direto do lugar de onde eu vim, das pessoas que eu convivo e das histórias que eu vejo e vivo no dia a dia. É na rua onde tudo isso acontece, é na rua onde tem vida, onde você aprende sobre o perigo, onde você se conecta com as pessoas, onde você cria suas histórias.
A rua é minha principal referência. Os códigos, a estética, gírias, as contradições… Tudo isso acaba virando suporte pra minha arte de forma natural. Treino meu olhar pra ele sempre ver através da vivência e não de fora.

NTS: Você costuma dizer que suas obras são um reflexo de tudo o que viu, viveu e ouviu nas ruas do Rio. Existe alguma memória ou cena específica que você sente que definiu sua forma de criar?
CdI: Eu diria que existem muitas memórias que ajudaram a moldar a minha forma de criar. Mas, se tem uma coisa que realmente me move, são as injustiças que presenciei ao longo desses 38 anos e algumas que vivi na pele. Tenho uma regra no meu trabalho: nunca deixar uma obra ser vazia. Mesmo nas brincadeiras mais simples, quase sempre existe um protesto, uma ironia ou uma crítica a algo que eu acredito que precisa ser questionado. E muitas vezes, isso acontece até de forma inconsciente.
NTS: O seu trabalho parte muito da ideia de contar histórias que normalmente não chegam aos livros, museus ou galerias. O que você acha que a periferia sabe sobre o Brasil que o restante do país ainda não aprendeu a enxergar?
CdI: A periferia conhece um Brasil que muitas vezes a maioria das pessoas só vê de longe. Nós sabemos bem que a criatividade não nasce da abundância, nasce, na maioria das vezes, do caos e da necessidade. Sabemos levantar o próximo e cuidar dos nossos como ninguém. Esse senso de comunidade é típico de quem sabe a dificuldade que é vencer. Isso não é um discurso bonito, chega até ser estratégia de sobrevivência. A periferia sabe muito bem que a cultura não começa quando entramos num museu. Ela já existe na rua, no campo de barro da pracinha, no nosso jeito de falar e de se vestir.
Eu acho que o Brasil ainda aprende muito pouco com quem construiu grande parte da sua identidade cultural… Meu trabalho vai sempre tentar registrar essas histórias antes que alguém diga que elas nunca existiram. Meu trabalho não precisa dar voz à periferia, porque ela sempre falou. Meu trabalho é sobre fazer com que cada vez mais gente esteja disposta à escutar!

NTS: A frase "Tu tá no RJ, não é Disney" se tornou quase um manifesto. Como surgiu essa linguagem tão direta e por que você acredita que uma frase pode ter tanta força quanto uma imagem?
CdI: Acho que essa frase ganhou muita força por ser um espelho da dualidade que define o Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo que a cidade se mantém como um dos destinos turísticos mais desejados do mundo, as ruas do Rio acabam revelando uma outra realidade, especialmente no subúrbio. Confrontos armados diários, escolas interrompendo aulas por falta de segurança, e a falta de paz que nos rodeia 24h do dia. A frase não se trata de romantizar o caos. Ela provoca a reflexão sobre o caos. E mais que tudo, a frase vem pra lembrar que a arte não só pode, como deve servir como ferramenta para expressar, protestar, denunciar e reconstruir.
NTS: Você costuma dizer que "o maior museu do mundo é a rua". O que a rua ensina sobre arte que uma instituição dificilmente consegue ensinar?
CdI: Acho que a rua e o museu não competem. Eles ensinam coisas diferentes. Posso explicar isso com uma analogia. Um aluno pode decorar todas as leis de trânsito, passar em todas as provas e virar um especialista na teoria. Mas enquanto ele não colocar o carro na rua, enfrentar o trânsito sob pressão e sentir a responsabilidade de dirigir, ele ainda não aprendeu de verdade.
Mesma coisa com a arte. O museu sabe organizar, preserva e ajuda a contextualizar a arte. A rua nos ensina a viver a arte. É nela que aprendemos a observar as pessoas, entender os códigos visuais da cidade. A rua nos dá referência viva e real e um repertório novo todos os dias. Na rua é onde toda teoria é provada todos os dias.

NTS: Seu trabalho reivindica o xarpi e outras linguagens urbanas como patrimônio cultural. Você sente que ainda existe uma dificuldade de separar essas expressões do estigma que elas carregam?
CdI: Acho que ainda existe, sim. Muitas vezes as pessoas olham primeiro para o lugar de onde aquela linguagem veio e só depois pro que ela está dizendo. Isso não acontece só com o xarpi. Acho que quase toda manifestação cultural que nasce na rua passa por esse processo. O que hoje é considerado patrimônio cultural, muitas vezes já foi visto como desordem, mau gosto ou coisa de uma minoria. Mas a cultura está sempre em movimento. Não to tentando dizer que todo mundo precisa gostar ou praticar. O que me interessa é que reconheçam que ele faz parte da história visual da cidade. É linguagem das ruas que influenciou uma geração. Muito mais que estética, o xarpi criou códigos e gerou uma identidade.
NTS: Nos últimos anos você levou sua produção para espaços como o MAR, Rio2C e até intervenções em Nova York e recentemente, Lisboa. Como é fazer uma arte que nasce na periferia ocupar instituições e outros países sem perder sua essência?
CdI: Penso que o que me levou até esses lugares foi justamente a verdade que carrego na forma como vejo a vida. Meu trabalho fala muito sobre território, pertencimento e aceitar de onde eu vim. Histórias reais conectam com pessoas reais. Hoje em dia ninguém se interessa mais por uma narrativa vazia. Precisamos contar a nossa própria história, ou alguém vai contar por nós. Espero poder chegar muito mais longe. Porque quanto mais longe eu chego, mais eu carrego o lugar de onde vim.
NTS: Moda, arte, design gráfico, lambe, bandeira, mural, instalação... você transita por muitos suportes. Na sua visão, o que determina a forma de uma obra: a mensagem ou o espaço onde ela vai existir?
CdI: Acho que a partir do momento que tiramos algo da nossa mente e materializamos isso, essa ideia já virou uma obra. O mais importante é a mensagem. A forma que ela vai ser exposta só varia de acordo com as condições, o tempo e os recursos que você tem e o local que você vai expor. Se a mensagem foi passada pro mundo, o trabalho tá feito!
NTS: Você fala muito sobre dar voz a quem foi silenciado. Existe alguma responsabilidade que você sente ao transformar vivências coletivas em trabalhos assinados por você?
CdI: Para ser sincero, eu não acredito que eu dou voz a ninguém, porque essas vozes sempre existiram. O que eu tento fazer é usar o espaço que a arte me proporcionou para criar pontes e conexões e fazer com que essas histórias cheguem a lugares onde talvez nunca chegassem.
Sempre tomei muito cuidado pra não falar por ninguém. Eu falo à partir da minha vivência, das coisas que eu conheço e das pessoas que cruzaram o meu caminho. Se isso acaba representando outras pessoas, fico muito feliz, porque significa que elas também se enxergam ali.
No fim do dia, meu maior objetivo é mostrar que existe uma riqueza, beleza e muita criatividade em lugares que durante muito tempo foram vistos apenas quando convinha. Se meu trabalho ajuda a ampliar esse olhar e inspira outras pessoas a contarem as próprias histórias, acho que ele já cumpriu o papel mais importante…
NTS: Agora você chega ao ANEXO para apresentar seu trabalho a um público que talvez esteja tendo esse primeiro contato com o Cansado da Internet. O que você espera que as pessoas levem da exposição quando saírem dali?
CdI: Minha maior expectativa é que as pessoas olhem pro meu trabalho e entendam que toda forma de arte é válida. Que elas se sintam encorajadas a abraçar a própria história e contar elas, por mais difícil que ela seja. Quero aproximar a arte do cotidiano e diminuir esse abismo que existe entre as pessoas e as instituições. Quero que elas percebam que viver é arte, que a rua é arte, que escrever um pensamento num papel é arte, que a forma como expressamos nossos sentimentos também é arte. Sem diminuir o valor dos museus. Aquilo também é arte. Mas acredito que a nossa história pode ser tão valiosa quanto a que está pendurada na parede de um grande museu. A diferença é que algumas histórias tiveram a voz ampliada, enquanto outras ainda estão esperando para serem ouvidas.



