De onde vem o amor de Madlib pelo Brasil?

-


A história da música brasileira sempre atravessou fronteiras de maneiras diferentes. Em alguns momentos pela bossa nova diplomática dos anos 60, em outros pelo interesse de DJs, colecionadores e produtores estrangeiros que passaram décadas procurando discos obscuros em sebos de São Paulo, Rio de Janeiro ou Belo Horizonte. Dentro dessa linhagem, poucos produtores americanos criaram uma relação tão profunda com o Brasil quanto Madlib. Muito antes da redescoberta internacional de artistas brasileiros virar tendência em playlists, campanhas de moda ou reedições caras em vinil, Madlib já tratava discos brasileiros como parte central da sua linguagem musical.

Otis Jackson Jr., nome real de Madlib, cresceu em Los Angeles dentro de uma família profundamente ligada à música negra americana. Seu pai tocava em bandas de soul e jazz, enquanto o tio circulava entre músicos da cena jazzística americana. Desde cedo, ele cresce cercado por discos, rádios, fitas e sessões improvisadas. Mas diferente de boa parte dos produtores da geração boom bap dos anos 90, sua pesquisa nunca ficou restrita ao soul americano clássico. Conforme mergulhava cada vez mais fundo no “digging”, ou então na curadoria de novas músicas, Madlib começou a procurar jazz africano, música europeia, psicodelia turca e principalmente discos brasileiros dos anos 60 e 70.

O Brasil aparece para ele como um território quase infinito de possibilidades sonoras. Enquanto parte do hip hop americano buscava loops de maneira "seca” , Madlib encontrava na música brasileira texturas muito mais fluidas e imprevisíveis.

Entre os artistas brasileiros mais importantes para sua discografia aparecem nomes como Gal Costa, Osmar Milito, Waldir Calmon, Quarteto em Cy e artistas obscuros da música instrumental brasileira dos anos 70. O modo como ele utilizava esses samples também era muito diferente, onde em vez de transformar a música brasileira em simples loop, Madlib seguia seu estilo único de produção preservando as imperfeições, com ruídos escapando na mixagem e mantendo a sensação humana das gravações originais.

Outra faixa central de Madvillainy, “Curls”, nasce a partir de “Airport Love Theme”, composição de Waldir Calmon lançada em 1970.

Existe ainda uma camada menos conhecida da relação dele com o país: as beat tapes inspiradas diretamente pelas cidades brasileiras. Durante passagens pelo Brasil no início dos anos 2000, Madlib produz uma série de instrumentais batizados com nomes de cidades do país, transformando experiências de viagem em música. A faixa “Sao Paulo”, por exemplo, mistura fragmentos de “Opanigê”, de Eduardo Araújo e Silvinha Santana, com “Tamanco No Samba”, do Trio 3D, e “Na Boca da Estrada”, do grupo Assim Assado.

Já “Porto Alegre” utiliza recortes de “Não Identificado”, clássico de Gal Costa lançado em 1969.

Existe inclusive uma história que conta sobre parte da criação de Madvillainy. Durante uma dessas passagens pelo Brasil, mais especificamente São Paulo, Madlib teria perdido uma quantidade enorme de fitas e beats produzidos aqui após a curadoria realizada no país. Parte desse material desapareceu sem qualquer parecer, e segundo relatos próximos ao produtor, existiam dezenas de instrumentais nunca lançados feitos naquele período, muitos deles carregando influências brasileiras ainda mais explícitas.

Sua relação com a música brasileira parece muito mais intuitiva e obsessiva, uma relação que expõe sua leitura com vinis e uma relação de colecionador, que comprava pilhas de discos sem necessariamente conhecer os artistas, guiado apenas por capas, músicos envolvidos ou pequenos detalhes de arranjo.

Durante décadas, boa parte da música brasileira dos anos 60 e 70 ficou relativamente esquecida até mesmo dentro do próprio Brasil. Muitos discos tiveram tiragens pequenas, circularam pouco por aqui ou desapareceram após mudanças da indústria fonográfica, e parte desses discos chegou a mercados no exterior, criando esse interesse de produtores como Madlib ajudou a construir uma nova leitura internacional sobre essa produção.

Madlib ajudou a inserir a música brasileira dentro de uma nova genealogia do hip hop mundial. Uma genealogia que conecta jazz americano, MPB, psicodelia brasileira, soul e experimentação lo-fi dentro de uma mesma linha contínua.