Gerald Genta: O designer que revolucionou o mundo dos relógios
Até os anos 60, a relojoaria operava com uma estabilidade rara. Produção concentrada, domínio técnico reconhecido e um mercado que aceitava pagar caro por um objeto que combinava precisão e tradição. Marcas como Patek Philippe, Audemars Piguet e Vacheron Constantin mantinham uma lógica de continuidade, com pouca necessidade de ruptura formal, onde os consumidores estavam sempre dispostos a pagar e faziam parte de um seleto grupo que não crescia muito.

Esse cenário começa a mudar no fim dos anos 60 com a introdução do quartzo, liderada pela Seiko. Em 1969, com o lançamento do Astron, a Seiko coloca no mercado um relógio mais preciso do que qualquer mecânico e com potencial de produção em escala muito maior. O impacto disso alterou a base da indústria onde a precisão deixou de ser um diferencial dos suíços, e colocando os mecânicos em situação de perder sua objetividade.
Nos anos seguintes, essa mudança se acelera. A produção suíça entra em queda, diversas manufaturas fecham ou são incorporadas por grupos maiores e o setor passa a lidar com um tipo de concorrência que não existia antes. então se o relógio mecânico já não era o mais preciso, por que ele deveria continuar sendo o mais valorizado?

É dentro desse contexto que o trabalho de Geald Genta. Ele já atuava desde os anos 50 desenhando para diferentes marcas, mas é nos anos 70 que suas decisões passam a ter impacto para as grandes líderes do mercado.
Quando a Audemars Piguet o procura em 1971, a marca ainda operava dentro de um modelo tradicional de relojoaria de luxo, com produção limitada e foco em metais preciosos. O projeto que ele desenvolve resulta no Royal Oak, lançado em 1972, com uma série de elementos que não eram comuns naquele segmento. Caixa octogonal, parafusos visíveis, acabamento de alto nível aplicado ao aço e uma pulseira integrada que elimina a separação tradicional entre caixa e bracelete.

Até então, o material estava associado a relógios de uso cotidiano ou esportivo, com preços mais baixos como borracha ou um plástico que fosse justo custear para ter um relógio voltado a “gastá-lo”. Ao aplicar acabamento refinado e posicionar o produto na faixa mais alta de preço, a Audemars Piguet com Genta criaram um nicho que por ora não existia ainda.
A recepção inicial do Royal Oak foi marcada por resistência. O público tradicional não reconhecia aquele objeto dentro do repertório conhecido e ao mesmo tempo, o preço afastava um consumidor que poderia se interessar por um relógio em aço.
Com o passar dos anos, o modelo começa a ser absorvido por um grupo que não estava no centro da relojoaria até então, que passam a adotar o relógio como parte de uma rotina menos formal, porém ainda segmentada ao luxo. O Royal Oak acompanha um movimento mais amplo de mudança no comportamento de consumo, onde a separação rígida entre formal e informal começa a se diluir.
Em 1976, Genta desenvolve o Nautilus para a Patek Philippe. A marca possuía uma relação ainda mais consolidada com o modelo clássico de relojoaria, o que torna o projeto mais sensível. O Nautilus mantém o uso do aço e a proposta de um relógio esportivo de alto padrão, mas apresenta uma forma diferente, inspirada em estruturas navais, com laterais que sugerem dobradiças e uma construção mais horizontal.

A introdução desse tipo de produto dentro da Patek Philippe indica que a mudança não estava restrita a uma única marca. Havia uma necessidade mais ampla de adaptação, e as marcas buscaram diretamente na fonte do design, em quem desenhou aquela evolução visual.
Ao longo dos anos 70 e 80, outras manufaturas passam a explorar esse território e querer contar com o trabalho de Genta. O Ingenieur SL da IWC, também desenhado por ele, reforça uma estética mais técnica, ligada à engenharia e ao ambiente industrial. Posteriormente, linhas como o Overseas surgem dentro dessa mesma lógica, consolidando o segmento de relógios esportivos de luxo.

Paralelamente, Genta desenvolve sua própria marca, onde trabalha com complicações de alta relojoaria e explora caminhos visuais menos convencionais. Mostradores com personagens e referências externas ao universo tradicional aparecem em algumas peças, ampliando o campo de possibilidades dentro de um setor historicamente conservador.
O impacto do trabalho do Genta pode ser observado na forma como a relojoaria suíça se reorganiza após a crise do quartzo. Em vez de competir diretamente com a produção industrial em larga escala, o setor passa a enfatizar aspectos como design, construção e narrativa. O trabalho do Genta participa diretamente dessa transição, como parte de uma mudança maior na forma de entender o produto e utilizar dos mesmo signos de um relógio de luxo, fino e exclusivo, em outros usos e aplicações do cotidiano.




