O boné do Senna pode ser considerado o nosso boné do Yankees?
Esses dias, estava vendo um vlog no YouTube de um canal gringo quando, no meio da multidão, vi um boné azul familiar. E, pra mim, estava na cara que só podia ser um brasileiro! O boné era uma releitura do icônico boné do Banco Nacional, eternizado por Ayrton Senna.
Foi aí que me veio um ponto que quero trazer aqui. Acho que todo mundo, em algum momento, já viu um boné do New York Yankees, o famoso NY. Seja azul-marinho ou em uma de suas várias combinações de cores, que está presente no mundo inteiro, inclusive usado por pessoas que nunca assistiram a uma partida de beisebol.

Um boné pode representar grupos, culturas, estilos ou até passar uma mensagem ou algum código de moda. Pensando em peças de roupa que ultrapassaram suas funções originais e viraram símbolos culturais, o boné dos Yankees provavelmente é um dos exemplos. Como um grande fã de bonés, me peguei pensando: será que existe algum modelo por aqui capaz de representar a gente da mesma forma? Será que o boné do Senna poderia ocupar um lugar parecido para nós, brasileiros?
Nosso país é enorme, com diferentes culturas, estilos, gostos e posições políticas. Uma diversidade de estilos embaralhados. Nesse cenário, será que o boné azul do Senna é um dos poucos objetos capazes de circular entre grupos tão diferentes?
Agora, pensa em uma situação talvez meio maluca: você tendo que escolher um boné para representar o Brasil para um gringo. Qual seria? Um boné da CBF? (risos) A ideia é pensar em um objeto que comunique um pouco da nossa cultura para quem olha de fora, mas ao mesmo tempo, seja um item reconhecido como brasileiro. O boné do Senna talvez seja essa escolha perfeita?
Tanto o boné do Senna quanto o dos Yankees nasceram no esporte, mas acabaram virando peças de moda e símbolos culturais, reconhecidos até por pessoas que não acompanham a Fórmula 1 ou o beisebol.

O boné como símbolo cultural
O boné dos Yankees deixou de ser só um boné de beisebol. Para muita gente fora dos EUA, o monograma “NY” já funciona quase como um emblema oficial de Nova York, assim como uma camiseta ou uma xícara com a frase “I LOVE NY”.
O time Yankees sempre esteve associado à moda de alguma maneira, seja por personalidades famosas, sempre aparecendo usando um boné do time no dia a dia. Um dos grandes responsáveis por essa popularização foi Spike Lee, que ajudou a mudar a forma como os bonés passaram a ser produzidos. Em 1996, ele pediu à New Era um boné vermelho dos Yankees para combinar com sua jaqueta e assistir a um dos jogos das finais daquele ano. Algo simples, só que incomum para a época, já que os bonés eram tradicionalmente produzidos nas cores das equipes. O pedido foi aprovado, e Spike Lee usando um boné do NY em uma cor fora do padrão ajudou a abrir caminho para as versões e personalizações que vemos hoje.
O Yankees representa bem a cultura nova-iorquina e é facilmente associado ao hip-hop e à cultura negra americana. Uma das franquias esportivas mais valiosas do mundo, o time também foi um dos primeiros a transitar tão bem entre o streetwear e a moda de luxo, com colaborações com marcas como Ralph Lauren, Gucci, BAPE e Supreme.
Outra curiosidade é que o boné do NY, que a gente vê por toda parte, tem uma conexão inusitada com uma das joalherias de luxo mais famosas do mundo. Voltando no tempo, chegamos à Tiffany & Co. Em 1877, Edward C. Moore, designer-chefe da marca na época, criou um monograma “NY” para uma medalha de honra entregue a John McDowell, um policial de Nova York baleado em serviço. Anos depois, em 1909, o monograma da medalha serviu de inspiração para aquele que passou a fazer parte dos uniformes dos Yankees.

Medalha concedida ao policial John McDowell por bravura, em cumprimento à resolução do Conselho de Polícia de Nova York, datada de 12 de janeiro de 1877.
Já no caso do boné do Senna, ele carrega uma memória afetiva e uma associação com a nossa cultura brasileira. O boné azul com o nome “Nacional” estampado fazia referência ao Banco Nacional, uma instituição bastante conhecida nos anos 80. Em 1984, o banco decidiu patrocinar o jovem Ayrton Senna, que estava começando sua trajetória na F1. A parceria durou até o fim de sua carreira, interrompida tragicamente em 1994. Mesmo quando o Banco Nacional já enfrentava dificuldades financeiras e não conseguia acompanhar os valores envolvidos no patrocínio de um tricampeão mundial, Senna fez questão de manter a marca por perto.
Essa associação segue aparecendo até hoje. Em 2023, o Itaú Personnalité usou Lewis Hamilton em uma campanha na qual presenteava o piloto com um boné azul, em referência ao acessório que marcou a imagem de Senna. Havia ainda uma conexão histórica por trás da ação: o Unibanco, que adquiriu ativos do Banco Nacional após sua falência, se fundiu ao Itaú em 2008. De certa forma, a iniciativa resgatava essa memória e mostrava como o boné continua presente.

O boné azul e branco, com o nome Nacional estampado na frente, se tornou uma das marcas visuais mais reconhecíveis de Senna. Era o acessório sempre presente em entrevistas e nos contatos com a imprensa, a ponto de muitos hoje em dia nem sequer saberem que era um boné de um banco. Desassociar Senna do Banco Nacional é como separar Michael Jordan da Nike. São associações que ultrapassam a relação comercial entre marcas e atletas e passam a fazer parte da própria imagem de cada um.
Hoje, é fácil encontrar algumas releituras oficiais do boné à venda, por volta de 160 reais, Porém na época, ele era basicamente um brinde do Banco Nacional, distribuído em ações promocionais para divulgar a instituição.

Só que, como dizem, quando um produto faz sucesso e vira objeto de desejo, não demora muito para aparecerem as versões piratas. E foi o que aconteceu com o boné do Senna. A popularidade dele fez com que surgissem várias versões não oficiais, inclusive em outras cores, como vermelho, verde e por aí vai.
Eu sei bem disso porque tenho uma foto de quando era pequeno usando um boné laranja do Nacional. Oficial, obviamente, não era, hahaha.
A construção do Senna como piloto e também como produto publicitário daria um estudo à parte, pois sua carreira era trabalhada não só para o público adulto como também para o infantil. Vocês se lembram do personagem Senninha? Ele foi criado para circular entre as crianças, por meio de quadrinhos, brinquedos e produtos licenciados. Ali, por volta de 1994, as revistas do Senninha começaram a ser distribuídas gratuitamente em escolas e agências do Banco Nacional, até chegarem às bancas de jornal. Se pensarmos bem, muitos adultos de hoje tiveram algum contato com o universo do Senninha durante a infância.

Senna esteve presente em diferentes gerações da sua época: das crianças, com roupas, mochilas ou a famosa papete do Senninha (lendária), até os adultos que acordavam cedo aos domingos para vê-lo correr.
E é interessante pensar que essa história não ficou restrita às gerações que acompanharam Senna nas pistas. O boné virou um objeto histórico, que pode ganhar novos significados para quem também não viveu o auge do piloto. Uma pessoa pode reconhecer a peça hoje sem ter acompanhado suas corridas, seja por saber que o item carrega a história de um ídolo da F1, seja como uma forma de pertencimento mais purista e entusiasmada com o esporte. Algo como ter a camisa mais recente da Nike lançada para a Seleção Brasileira de futebol ou uma camisa retrô da Umbro de 1994. Ambas têm a mesma finalidade, porém uma delas pode transmitir uma relação diferente com a história e a profundidade da conexão com o esporte.
Acho que o boné do Banco Nacional voltou com força não só pelo resgate de uma peça antiga, mas por toda a história que existe por trás dela. A nostalgia de quem acompanhou o piloto se mistura ao interesse de novas gerações, que também se conectam com essa história. Acredito que vai além da nostalgia. No fim, é um boné que carrega a imagem de um dos maiores atletas brasileiros de todos os tempos. E acho que tem algo de representatividade nisso, seja para quem acompanha a F1 ou para quem quer mostrar a força de ser brasileiro para o mundo.
E não é só o boné do Senna que ganhou esse significado. A Havaianas, por exemplo, que faz parte do nosso dia a dia, também virou um produto que representa o Brasil para muita gente de fora.
Claro que são histórias diferentes. A Havaianas não está ligada a uma única pessoa, mas a uma estética brasileira que apresentamos para quem é de fora. Já o boné do Senna carrega a imagem e a trajetória de um atleta brasileiro que virou ídolo global. Será que o boné também pode ocupar esse lugar de símbolo da identidade brasileira? Eu acredito que sim.
Em um paralelo, o boné dos Yankees está presente em pessoas que talvez nunca tenham assistido a uma partida de beisebol. O boné azul do Senna também continua sendo reconhecido décadas depois do auge do piloto, não apenas por brasileiros, mas por pessoas ao redor do mundo. É brasileiro, é Nacional.




