O fascínio de Jorge Ben Jor por futebol

Jan 13, 2026

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A relação de Jorge Ben Jor com o futebol começa bem antes das músicas dedicadas ao Flamengo ou então a jogadores de sua época. Ela atravessa sua formação pessoal, sua vivência urbana no Rio de Janeiro, sua obra musical e sua forma de compreender o Brasil como experiência cotidiana.

Nascido Jorge Duílio Lima Menezes em 1942, no bairro da Tijuca, Jorge Ben cresce em uma cidade onde o futebol já havia se consolidado como fenômeno de massas. O Rio de Janeiro das décadas de 1940 e 1950 era um espaço em que rádio, música e futebol formavam um ecossistema cultural integrado. Os jogos eram narrados como acontecimentos épicos, os jogadores se tornavam figuras míticas e os clubes funcionavam como polos de pertencimento social, os jornais e meios de comunicação estavam no auge dos contos crônicos, que transformaram esses jogadores e as partidas em divindades, acontecimentos heróicos, um dos principais organizadores do entretenimento popular urbano.

Além disso, Jorge era só mais um menino, que sonhava em ser jogador de futebol e integrava a escolinha do seu clube de coração. O artista chegou a jogar pelas categorias de base do Flamengo, jogando futebol de salão e categorias de juniores, mas a música acabou prevalecendo.

Jorge Ben sempre declarou sua ligação afetiva com o Flamengo, clube que simboliza, para muitos cariocas, uma identidade popular, expansiva e profundamente ligada às camadas mais amplas da população. O Flamengo, desde meados do século XX, constrói sua imagem como clube de massa, associado à ideia de povo, rua e improviso, elementos que dialogam diretamente com a estética musical que Jorge Ben desenvolveria ao longo da carreira.

Essa relação se torna explícita em 1976, com o lançamento do álbum "África Brasil", que traz a canção Ponta de Lança Africano (Umbabarauma). O desenvolvimento dessa música guarda alguns mistérios nunca revelados por Jorge. A música fala sobre um atacante, um ponta de lança, tido como o homem gol do time. Foi produzida em uma viagem que Jorge havia feito para a França com sua banda, onde teve a oportunidade de assistir um jogo de uma equipe local, e lá havia um ponta de lança, negro, camisa 10, que garantia as vitórias para o time, assim Jorge Ben volta ao estúdio e realiza a primeira faixa do álbum. Porém, essa é apenas uma das versões contadas sobre. Outra versão diz que o som de abertura é inspirado no jogador Jairzinho, artilheiro na conquista do tricampeonato mundial e um tributo para a seleção brasileira de 1970.

Entre tantas histórias, isso ajuda a entender como Jorge Ben era capaz de transformar as figuras e histórias que talvez nem tenham de fato ocorrido em marcos emblemáticos, míticos, músicas e elementos que atravessaram gerações e foram reapropriadas em contextos esportivos, publicitários e culturais.

É importante observar que Jorge Ben não se limita a exaltar vitórias ou ídolos específicos. Sua relação com o futebol está mais ligada à experiência do jogo do que aos resultados.

A relação com jogadores específicos se mantém ao longo da carreira. Jorge Ben fez músicas dedicadas a Pelé e a Zico, dois dos maiores ídolos do futebol brasileiro em momentos distintos. No caso de Pelé, o reconhecimento é direto e explícito. Pelé aparece como figura máxima do futebol mundial, símbolo de excelência técnica e projeção internacional do Brasil. Já Zico, ídolo maior do Flamengo nos anos 1970 e 1980, representa uma continuidade geracional dessa relação entre clube, torcida e identidade popular.

Além das músicas, Jorge Ben manteve presença constante no ambiente esportivo. Frequentador assíduo do Maracanã, amigo de jogadores e figura recorrente em eventos ligados ao futebol, ele circulava com naturalidade nesse universo. Suas canções foram apropriadas por torcidas, transmissões esportivas e campanhas, justamente porque nasciam de dentro desse circuito cultura.

Ao longo de mais de seis décadas de carreira, Jorge Ben Jor construiu uma obra que se mantém conectada à experiência popular brasileira sem recorrer a idealizações artificiais, nascidos do intrínseco e dos encontros culturais que o moveram durante a vida toda.

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