O que aconteceu com a economia do futebol brasileiro?

Jan 29, 2026

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Da desorganização histórica ao maior fluxo financeiro da era moderna.

O ano é 2026: a Copa do Mundo que ocorrerá nos Estados Unidos, México e Canadá está para chegar, e por mais que a seleção brasileira não tenha ganhado nenhuma das últimas cinco Copas, marcando um dos maiores jejuns do país, o futebol brasileiro local tem vivido um momento singular no crescimento, profissionalização e posicionamento da liga nacional, equipes, jogadores e etc. O dinheiro que circula hoje por aqui, é talvez o de maior momento em poderio financeiro dos clubes. O texto de hoje visa questionar o que aconteceu com a economia do futebol brasileiro.

Nos acostumamos com as SAF’s, as cifras milionárias, clubes atraindo jogadores da segunda prateleira do futebol europeu, competindo com salários mensais, mas, sempre foi assim? Para entender, é necessário voltar no tempo alguns anos.

Nascido no momento que Charles Miller aterrissou ao Brasil e disseminou o esporte por aqui, as primeiras décadas do século XX marcaram o desenvolvimento e proliferação do futebol em todas as capitais, indo aos locais mais periféricos e distantes. Durante o desenvolvimento, podemos notar um modelo que inicia a análise sobre o formato econômico aqui estabelecido, os clubes associativos.

Fator resultante da necessidade do crescimento sociocultural das cidades, criar um clube associativo de esportes era o caminho mais fácil a ser tomado para investidores, interessados, e todos aqueles que gostariam de fazer futebol. Esse formato foi replicado Brasil a fora, criando a cultura proveniente dos clubes, com quadro de sócios, conselheiros, e assim por diante.

Os problemas? Teríamos vislumbres a cada década que se passasse, cartolas que tomavam conta de clubes e tornavam-se capazes de criar uma relação de dependência entre investimentos fora de esquadro, ou afundarem economicamente as equipes.

A revista Placar em julho de 1978 iniciava uma série de reportagens que expôs parte desse problema. Levando a frase “Os cartolas estão matando o futebol”, a reportagem focava na má gestão, amadorismo e interesses pessoais dos dirigentes esportivos brasileiros na época. A matéria denunciava como os "cartolas" (dirigentes) da época prejudicavam o desenvolvimento do futebol com decisões centralizadoras, falta de profissionalismo e interesses políticos, muitas vezes ignorando o bem do esporte.

Esse recorte apresenta um certo padrão repetido no futebol brasileiro em todas as escalas até após a virada do milênio. Não como se não houvessem coisas boas e apontamentos a serem ditos, porém, a falta de profissionalismo de um país representante de safras e safras de melhores jogadores do mundo em suas posições; por anos a existência de duas ligas nacionais em certos anos; campeonatos estaduais com mais valência do que a própria competição em nível nacional; a não importância e controle para a disputa de competições internacionais; representava um país que emergia mas não se organizava.

Os anos 90 já marcariam o que conhecemos bem hoje como o êxodo de jovens estrelas ao exterior. A maioria dos jogadores convocados para Copas do Mundo passou a ser de clubes de fora do Brasil, o que economicamente apresentava mais dinheiro, entretanto, é aí onde mora a virada de chave. O futebol que acontecia fora do Brasil até então, olhava para cá na mesma altura, tanto competitivamente, quanto de entrega. Porém, a Europa passou a sistematizar seu modelo de jogo e produção do esporte, profissionalizar arbitragem, ligas, modelos de transmissão, base, e tudo além das quatro linhas. Enquanto aqui, vivíamos ainda os modelos associativos, onde clubes eram montados pensados apenas em vendas e desmanches de um ano para o outro.

E por um lado, estava tudo certo. Uma geração que muitos consideram injustiçadas pelo acaso nas copas de 78 e década de 80, os campeões de 94, finalistas na França em 98 com uma das nossas melhores gerações no papel, o penta em 2002… O caminho parecia não contar com intercorrências.

Até que chegamos no período pós 2006, sem uma grande renovação de craques mundiais brasileiros. Mas, acima de tudo, com uma organização nacional que apesar de garantir alguns campeonatos mundiais de clubes, via a Europa se descolando dos padrões a cada temporada, com cada vez mais dinheiro e com todos os talentos mundiais. Os modelos associativos mostravam agora suas inconsistências, e o sistema do futebol brasileiro no geral, mostrava suas brechas.

O ápice - não possível escapar de comentários - é o 7x1 na semifinal da Copa do Mundo de 2014, para a Alemanha. Fora do placar, além do que aconteceu no gramado, mostrou para o mundo inteiro a fragilidade que passava o Brasil sobre o futebol. Indo de encontro ao ponto, esse ‘momentum’ abriu as portas para mudanças drásticas que estariam para acontecer.

Partindo de divisões de acesso e projetos de longo prazo, instituições como o Retrô FC, Ibrachina FC, entre tantos outros clubes empresa, passaram a tomar local nas discussões sobre o futuro do futebol por aqui e sua organização. Além disso, gestões como a de Flamengo e Palmeiras, que enxergaram como uma gestão organizada e controlada financeiramente, poderia causar um impacto tamanho, capaz de dominar as ligas e copas nacionais, além de serem presenças marcadas em fases finais de competições internacionais. Isso abriu os olhos, ou ao menos forçou a discussão para mudanças em todos os outros grandes clubes brasileiros. Alguns desses inclusive que caíram para a segunda divisão e se depararam com um futebol muito mais alinhado de equipes que hoje controlam seus gastos e investem da maneira certa.

Um exemplo? O Cruzeiro, tradicional clube mineiro, campeão de Libertadores e carta marcada nacionalmente, passou três anos na Série B e flertou com queda para Série C e desaparecimento no cenário competitivo nacional. Isso explica a decadência de Santo André, São Caetano, Grêmio Barueri, e assim por diante.

De Portuguesas a Flamengos, o futebol brasileiro precisava mudar.

E por bem ou por mal, as SAF’s chegaram. Assim como os cartolas que dominaram anos passados, agora as Sociedades Anônimas de Futebol passaram a se tornar não uma opção em meio a decisões administrativas, mas única solução possível para diversos times centenários, tradicionais e que quebraram economicamente.

Se tratando de futebol brasileiro, a atração de grupos milionários foi rápida e fácil. O interesse? Promover-se empresarialmente através do futebol, além de um mundo de investimento que movimenta bilhões no ano. O próprio Cruzeiro citado anteriormente, foi comprado por Pedro Lourenço, dono da rede Supermercados BH, que adquiriu os 90% das ações da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) que pertenciam a Ronaldo Nazário - o Fenômeno - por cerca de R$ 400 milhões, com valores investidos ao longo do tempo.

A partir desse ponto, hoje os clubes conseguem disputar e fazer frente com equipes tradicionais da Europa em troca de jogadores, em salários para jogadores de clubes médios e até mesmo em campo, com disputas e vitórias na Copa do Mundo de Clubes em 2025.

Os números mostram que o modelo de receitas que hoje sustenta os clubes é mais diversificado e robusto do que em qualquer outra fase da história do país. Em 2024, dados consolidados indicam que direitos de transmissão responderam por cerca de 30% das receitas totais dos clubes brasileiros, com R$3,3 bilhões arrecadados nessa rubrica, um salto significativo em relação às décadas anteriores, quando a receita televisiva era fragmentada e mal distribuída. As transferências de jogadores foram responsáveis por cerca de 26%, com R$2,9 bilhões movimentados, enquanto marketing, patrocínios e bilheterias também cresceram de forma sustentada, refletindo um padrão de receita que não depende exclusivamente de vendas de atletas ou de receitas pontuais. Esses números mostram que o futebol brasileiro conseguiu, em pouco tempo, construir um mix de receitas mais complexo e menos vulnerável a choques isolados do que em décadas passadas.

Dados provenientes de publicação da Lance! sobre pesquisa divulgada pela SportsValue.

Outro ponto decisivo é a transformação dos direitos de transmissão em eixo central da estabilidade financeira. Diferente de décadas anteriores, quando acordos eram negociados de forma individual, pouco transparente e com forte assimetria entre clubes, o futebol brasileiro passou a discutir blocos, ligas e modelos coletivos de negociação. Mesmo ainda fragmentado, o aumento do valor pago pelos direitos nacionais, aliado ao crescimento do streaming e de novas plataformas, ampliou a previsibilidade de receita. Essa previsibilidade permite planejamento plurianual, algo que sempre faltou ao futebol brasileiro. Não se trata apenas de ganhar mais dinheiro, mas de saber quanto se terá nos próximos anos, o que muda completamente a lógica de gestão.

No entanto, esse crescimento escancara desigualdades internas profundas. Enquanto clubes com gestão estruturada acumulam receitas recordes, boa parte das equipes de médio e pequeno porte permanece dependente de cotas estaduais, patrocínios locais e vendas emergenciais de jogadores. O resultado é uma liga economicamente mais rica, porém mais desigual. O abismo entre Série A e Série B aumenta, assim como entre os próprios clubes da elite. Isso cria um campeonato mais competitivo no topo, mas fragiliza o ecossistema como um todo, especialmente nas divisões inferiores.

Os clubes que foram bem geridos e conseguiram instaurar boas práticas e culturas de controle financeiro, criaram uma pressão em todo o restante que ainda não se tornou SAF, ou passou por medidas drásticas como recuperação judicial ou intervenção no modelo associativo. O dinheiro não surgiu do nada, ainda que quando o clube se torna empresa e receba um aporte financeiro. Isso é resultado de anos com modelos que não priorizavam a saúde financeira.

Como exemplo, o Palmeiras é rebaixado em 2012, ao voltar para a primeira divisão em 2014, flertou novamente com a queda. Desde então, a Crefisa chegou com investimentos fundamentais para o clube, vencendo a Copa do Brasil de 2015, Brasileirão em 2016 e 2018 e colocando duas Libertadores em sequência em 2021/21. Esse movimento acelerou a necessidade do Flamengo montar um super time, e dos rivais do clube palestrino em tentarem se corrigir, ainda que seja um mundo que permanece distante. Corinthians, São Paulo e Santos passam por crises históricas, vendo o rival direto da cidade despontar e destoar.

Esses formatos não estão imunes a críticas e problemas estruturais também. Um bom momento pode transformar-se em poder excessivo, ou então uma gestão para promoção própria da empresa. O Flamengo, no início de 2026, anunciou o encerramento das atividades das equipes de canoagem e remo paralímpico. A decisão, classificada como uma mudança estratégica pela nova gestão, resultou na dispensa de atletas de alto nível, incluindo o campeão olímpico Isaquias Queiroz, marcando o fim do único esporte paralímpico do clube. Tudo isso visando evitar gastos com outra coisa que não o desenvolvimento do futebol masculino.

É válido citar também que, apesar do futebol masculino hoje estar marcado por altos custos, o futebol feminino segue encontrando dificuldades e limitações em investimentos, espaços e valores vezes menor.

Isso tendo em vista que, após pandemia, em poucos anos o nível de disparidade escalonou para níveis que não vimos na história do futebol brasileiro, apesar de sempre existirem times em momentos com dinheiro e vice-versa. Para continuar competindo e não cair em possíveis desastres, as equipes devem se organizar e visar o bem econômico para que funcione por completo.

O momento atual do futebol brasileiro não é um milagre, nem uma ruptura total com o passado. Ele é resultado de um acúmulo de erros que se tornaram insustentáveis e forçaram mudanças. O dinheiro que hoje circula pelos clubes não surgiu do nada: ele vem de uma reorganização tardia, pressionada por crises, vexames esportivos, colapsos financeiros e perda de relevância internacional.

O desafio agora não é crescer, isso já está acontecendo. O desafio é entender o que se faz com esse crescimento. Se ele será concentrado em poucos clubes, se produzirá novas desigualdades, se reforçará um futebol voltado apenas ao masculino e ao espetáculo, ou se será capaz de estruturar o esporte como indústria e como instituição social.

O futebol brasileiro entrou, finalmente, na lógica econômica do século XXI. O dinheiro que hoje circula é resultado direto de mudanças profundas, mas também carrega o risco de repetir erros históricos sob outra lógica, agora corporativa.

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