Oh Polêmico: a voz soteropolitana por trás do pagotrap

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Deivison Nascimento Santos cresceu em Tancredo Neves, periferia de Salvador, e aprendeu a ler o mundo antes de aprender a descrevê-lo em versos. O pagodão dos paredões, as festas de bairro e o futebol da rua foram escola para ele. Foi nesses campos de terra que apareceu o nome que ele carregaria para o resto da vida: sempre questionando as marcações, os amigos do bairro falavam: "Você é polêmico, viu?".

Aos 15 anos, Deivison já era cantor, dançarino e backing vocal. A trajetória foi construída por etapas: foi pro funk, montou o grupo Playboy Hits em Guarajuba como MC Playboy, entendeu a lógica do palco, da performance, da conexão com o público. Quando voltou, foi com um projeto próprio. Com uma fusão que não existia antes dele nomear: o pagotrap — a mistura do pagodão baiano com o funk e a estética do trap, feita como um manifesto de quem é e de onde veio.

Esse manifesto virou hit, jingle de campanha política na Bahia e alcançou um dançarino na Coreia do Sul. "Samba do Polly" e "Pitbull Enraivado" — com mais de 120 milhões de streams no YouTube — são provas de algo que Oh Polêmico já sabia que, quando a música é verdadeira, ela não tem barreira de língua nem de lugar.

Conversamos com Oh Polêmico sobre origens, identidade, os hits que atravessaram fronteiras e o que significa, depois de tudo, colocar sua história em imagem e movimento pela primeira vez. Confira abaixo:

NOTTHESAMO: Como você explica o que é o "pagotrap"? Como surgiu a ideia de juntar a malemolência do pagodão baiano com o peso do funk e a estética do trap?

OH POLÊMICO: O pagotrap é onde eu encontrei muito da minha identidade. É a mistura do pagode, funk e do trap. Tudo dentro da minha experiência, da minha realidade, e de um jeito único e que representa muito da minha vivência em Salvador. Eu cresci ouvindo o pagode, vendo o paredão, vivência na rua, mas também acompanhando o funk, que foi onde eu comecei, e a estética do trap, né, que estava dominando o mundo. Então eu acho que é isso. Por que não juntar tudo isso e criar algo que me represente? O pagotrap vem disso aí. Dessa mistura que representa quem sou eu e de onde eu vim.


NTS: Você nasceu e cresceu em Tancredo Neves, uma periferia de Salvador conhecida por sua forte identidade cultural. De que forma o ambiente do seu bairro moldou o seu jeito de cantar, de dançar e de se vestir logo no começo de tudo?

OP: Tancredo Neves é a minha casa. Moldou meu jeito de cantar, dançar, me vestir e minha postura. Tudo tem um pouco das minhas áreas. Lá eu aprendi a viver a cultura da rua, pagodão, das festas de bairro e do futebol. As favelas de Salvador tem muita personalidade, muita criatividade. Eu cresci vendo isso de perto e observando tudo. Minha música carrega exatamente essa energia.


NTS: Antes de se consolidar como Oh Polêmico, você passou uma temporada em Guarajuba e liderou o grupo Playboy Hits como MC Playboy. Qual foi a importância desse período cantando funk para entender o mundo da música?

OP: Esse período foi fundamental pra minha caminhada. Quando eu fui pra Guarajuba e montei a Playboy Hits, comecei a entender mais sobre palco, público, performance e sobre como fazer música pra galera sentir. O funk me ensinou muita coisa sobre presença, ritmo, conexão com as pessoas. Foi uma escola pra mim.


NTS: "Samba do Polly" foi parar na Coreia do Sul na mão de um dançarino asiático e virou jingle de campanha política na Bahia. Como a sua cabeça processa o fato de que uma música feita na comunidade de Salvador consegue ter uma linguagem tão universal de forma natural?

OP: Essa música tem uma energia tão verdadeira que atravessou o mundo. Quando eu vi o dançarino lá na Coreia dançando, curtindo, pensei: "Caramba, a favela da Bahia tá chegando em outro continente". Isso mostra que quando a música é verdadeira, ela não tem nem barreira de língua e nem de lugar.

NTS: A música "Pitbull Enraivado" explodiu com mais de 120 milhões de acessos no YouTube e virou febre de dancinha. Como é criar um hit que domina o algoritmo do TikTok, mas que ao mesmo tempo mantém o respeito e a verdade das caixas de som dos paredões das comunidades?

OP: Pra mim, o mais importante é nunca perder a essência. O Pitbull Enraivado virou fenômeno na internet, dominou tudo; mas antes disso já batia forte nos paredões e nas comunidades. Acredito que o segredo é esse: fazer música pensando primeiro no povo, na rua, na energia da galera. Quando a música é real, o algoritmo só potencializa o que já é forte e natural.


NTS: O que é o projeto V!be do Polly e qual é a principal mensagem que você quis passar para o público ao registrar esse primeiro audiovisual da sua carreira?

OP: A Vibe do Polly é um marco na minha carreira, porque é meu primeiro audiovisual e chegou justamente pra celebrar meus 11 anos de caminhada. Eu quis mostrar minha evolução, versatilidade e, principalmente, minha verdade artística. A principal mensagem é mostrar que dá pra transitar entre vários estilos sem perder a identidade.


NTS: O que você quis buscar ao unir J. Eskine, Pocah, GW, Rodrigo do CN e Psirico na gravação de V!be do Polly?

OP: Quis juntar artistas que representam diferentes estilos e públicos, porque isso mostra exatamente quem eu sou artisticamente. Sempre transitei em pagode, o funk, o trap, então trazer J. Eskine, Pocah, MC GW Rodrigo do CN e Psirico foi uma forma de mostrar essa mistura acontecendo de verdade. Cada um trouxe sua energia, fortalecendo ainda mais o projeto.


NTS: Gravar um DVD para celebrar 11 anos de estrada é um marco muito grande. Quando você olha para a sua trajetória, qual é o principal sentimento de colocar esse trabalho no mundo agora?

OP: O sentimento é de gratidão e vitória. Quando eu olho para trás e lembro de onde saí, de tudo que vivi até aqui, lançando DVDs, celebrando 11 anos de carreira, é muito forte. É como olhar para a minha história e perceber que valeu a pena acreditar. Esse trabalho representa a resistência, a evolução e também um sonho realizado.

NTS: Se você pudesse voltar dez anos no tempo e conversar com o MC Playboy, lá na época do grupo Playboy Hits em Guarajuba, o que você diria para ele sobre o tamanho do movimento que Oh Polêmico  ia virar no Brasil?

OP: Diria pra ele continuar acreditando, mesmo quando ninguém entendesse a visão. Falaria pra ele aproveitar cada corre e dificuldade, porque tudo isso ia construir o artista e o homem que eu sou hoje. Também contaria que aquele pagodão que muita gente desacreditava ia atravessar bairros, cidades, estados… Ia tocar o Brasil inteiro.


Editorial:

Direção Criativa - Kemilly Serimaht

Fotógrafo - Rezzende

Stylist - João Caldas

Beauty - Lilian Sena

Assessoria - bpmcom