Os caminhos de A$AP Rocky até o álbum Don't Be Dumb.
O intervalo entre Testing, a reconstrução pública do artista e o álbum que levou anos para existir.
Quando A$AP Rocky lançou Testing em 2018, já era evidente que sua relação com o formato tradicional de carreira no rap havia mudado. O disco não foi pensado para responder às expectativas comerciais que ele mesmo havia criado com Long.Live.A$AP e At.Long.Last.A$AP. A recepção foi dividida, o desempenho comercial ficou abaixo dos trabalhos anteriores e a crítica se fragmentou entre quem via ali um artista tentando expandir sua linguagem e quem interpretou o álbum como disperso. O mais importante, porém, não está na reação imediata, mas no que veio depois. A partir daquele momento, Rocky deixa de funcionar dentro de um ciclo previsível de lançamentos e passa a construir sua presença pública de outra forma.

Entre 2018 e 2026, A$AP Rocky não desaparece do espaço cultural, mas sua produção fonográfica entra em suspensão prolongada. Com um intervalo preenchido por uma série de eventos objetivos que interferem diretamente no ritmo, no formato e na lógica de construção do álbum que viria a se tornar Don’t Be Dumb. Em 2019, sua prisão na Suécia durante uma turnê europeia interrompe agendas, paralisa compromissos e reposiciona Rocky no debate público internacional. O episódio impacta prazos, contratos e o próprio controle que o artista passa a exercer sobre sua carreira.
Nesse mesmo período, Rocky começa a mencionar um novo álbum em entrevistas, inicialmente sob outros títulos. All Smiles surge como um projeto em desenvolvimento, citado de forma recorrente entre 2019 e 2021. Algumas faixas são tocadas em shows, outras aparecem de forma fragmentada em eventos ligados à AWGE, plataforma criativa que Rocky utiliza como extensão de sua atuação artística. Não há um rollout estruturado, datas confirmadas, o processo é marcado por anúncios interrompidos, músicas apresentadas fora do circuito tradicional e um controle rígido do que é oficialmente lançado.

Sobre a mob, a morte de A$AP Yams, em 2015, já havia alterado estruturalmente o funcionamento da Mob e o papel de Rocky dentro dela. Nos anos seguintes, ele passa a ocupar uma posição menos coletiva e mais individual, ainda que carregando o peso simbólico do grupo, mas que já não existia como antes.

A relação de Rocky com a indústria fonográfica sempre foi distinta da média de sua geração, mas esse distanciamento se torna mais claro a partir dos anos 2020. Enquanto seus contemporâneos mantêm alta frequência de lançamentos, ciclos de singles, Rocky investia em outro tipo de capital cultural. Ele intensifica sua atuação na moda, participa de desfiles, colabora com marcas de luxo e consolida a AWGE como um núcleo que cruza sua música com design, performance e imagem. O disco passou a ser uma consequência de um processo mais amplo, algo como, ficaria pronto quando tivesse que estar.
Esse deslocamento ajuda a entender porque Don’t Be Dumb levou tanto tempo para ser finalizado. Ao longo desses anos, Rocky passa por mudanças pessoais que também afetam sua dinâmica de trabalho. A relação com Rihanna, tornada pública e consolidada, altera sua exposição midiática e sua rotina, em decorrência sua paternidade adiciona outra camada de responsabilidade e reorganização do tempo. Esses fatores não são tratados aqui como elementos sentimentais, mas como dados concretos que interferem na capacidade de um artista manter o mesmo ritmo produtivo de quando tinha vinte e poucos anos e operava em outro estágio de carreira.

Quando o título Don’t Be Dumb começa a ser utilizado de forma consistente, já é possível identificar uma mudança de postura em relação às promessas públicas. Rocky reduz entrevistas, evita datas específicas e passa a apresentar o álbum como algo que será lançado quando estiver pronto. Essa decisão contrasta com a lógica atual da indústria, marcada por cronogramas rígidos e estratégias de antecipação contínua, e assim se vai o rollout do disco, que quando finalmente começa a se consolidar, foge do modelo tradicional. Esse momento foi marcado por sua apresentação no Rolling Loud 2024, extremamente dopado por sua essência criativa desse álbum, que ainda não sabíamos mas, demoraria mais alguns meses até ser finalmente divulgado e lançado.

Do ponto de vista sonoro, Don’t Be Dumb reflete esse processo fragmentado. O álbum reúne faixas produzidas ao longo de vários anos, com produtores diferentes e contextos distintos de criação. Ele registra um artista em movimento, testando abordagens, descartando caminhos e retomando ideias em momentos distintos de sua vida. Essa característica ajuda a explicar por que o álbum não se encaixa facilmente em uma narrativa linear de evolução estética.
Rocky não disputa mais o centro do mercado fonográfico em termos de volume de lançamentos ou presença em charts semanais, esse posicionamento não é novo em sua trajetória, mas se torna mais explícito neste trabalho. Desde o início da carreira, Rocky demonstrou interesse em romper com padrões regionais, estéticos e comerciais.
Ao olhar para o álbum dentro dessa linha do tempo, fica claro que seu valor não está apenas nas faixas individualmente, mas na forma como ele sintetiza quase uma década de transformações pessoais, profissionais e industriais. Rocky entrega um trabalho que não tenta recuperar um momento passado nem simular uma juventude criativa.
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