Patek Philippe Gondolo, o Patek Carioca

Jan 22, 2026

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A história da linha Gondolo dentro da Patek Philippe não pode ser entendida como um simples capítulo de design. Ela nasce de uma relação comercial específica, geograficamente localizada, e de uma estratégia de mercado que antecede em décadas a ideia contemporânea de produtos pensados para públicos regionais. O que hoje é visto como uma coleção de relógios de formato, ligada à tradição art déco da marca, começa como uma resposta direta a um dos mercados mais importantes da Patek Philippe no início do século XX: o Brasil.

No final do século XIX e início do século XX, o Brasil ocupava uma posição econômica central no comércio internacional de luxo. A elite cafeeira, especialmente no Rio de Janeiro, concentrava poder econômico, influência política e forte ligação cultural com a Europa. Esse grupo social consumia joias, relógios e objetos de prestígio não apenas como bens utilitários, mas como instrumentos de distinção social. É nesse contexto que surge a parceria entre a Patek Philippe e a casa Gondolo & Labouriau, joalheria e relojoaria fundada no Rio de Janeiro em 1872 por Louis Gondolo e George Labouriau.

A Gondolo & Labouriau operava como representante exclusiva da Patek Philippe no Brasil e se tornou, por décadas, o maior comprador individual da manufatura suíça. Estima-se que entre 1872 e 1927 cerca de um terço da produção total da Patek Philippe foi destinada ao mercado brasileiro, número que ajuda a dimensionar a importância estratégica dessa relação. A partir dessa parceria, nasce um acordo incomum para a época, a venda de relógios Patek Philippe exclusivamente com a assinatura Gondolo & Labouriau no mostrador, muitas vezes sem o nome Patek visível.

Esses relógios, conhecidos como “Chronometro Gondolo”, eram vendidos sob um sistema de clube de assinatura. Os clientes pagavam mensalidades e, ao final do plano, recebiam um relógio de alta precisão certificado. Esse modelo não apenas garantia fidelização, mas também reforçava a ideia de relógio como patrimônio pessoal, algo a ser conquistado ao longo do tempo. Tecnicamente, esses relógios eram de altíssimo nível, com movimentos certificados por observatórios europeus, o que reforçava a reputação da Gondolo & Labouriau como fornecedora de instrumentos de precisão e não apenas de luxo ornamental. Os participantes dessa assinatura eram chamados de "Gondolo Gang”, representantes e considerados parte de uma elite brasileira exclusiva daquele espaço.

Ser sócio do clube no início do século 20 era a expressão máxima de ter ‘chegado’ à sociedade brasileira. A Gangue Gondolo ficou famosa pelos chapéus de palha Patek Philippe dos membros, passeios luxuosos e obsessão compartilhada de possuir os melhores relógios já feitos.” Segundo o site da casa de leilões paulista D’Argent,

Seguindo o modelo do Chronomètre Gondolo, cada comprador era inscrito em um sistema numerado de 1 a 180. Ao longo de 79 semanas consecutivas, um cliente diferente era contemplado semanalmente com um relógio Patek Philippe. O funcionamento financeiro desse sistema era particular, o primeiro contemplado pagava apenas 10 francos suíços pelo relógio, enquanto os pagamentos semanais seguiam até o 79º cliente, que arcava inicialmente com o valor integral da peça, mas recebia o reembolso total posteriormente. O modelo operava como uma combinação entre assinatura, sorteio e financiamento coletivo, permitindo o acesso progressivo a um relógio de alto valor e garantindo à Patek Philippe uma base estável de clientes ao longo do tempo.

A estética desses primeiros modelos ainda seguia padrões clássicos do final do século XIX, com caixas redondas e linguagem tradicional. A transformação formal acontece nas décadas seguintes, especialmente entre os anos 1920 e 1930, quando o art déco passa a influenciar arquitetura, design industrial e objetos pessoais. A Patek Philippe, atenta a esse movimento, começa a experimentar formatos não circulares de maneira mais sistemática, algo que se reflete diretamente nos relógios destinados ao mercado brasileiro.

É nesse período que surgem os modelos que hoje associamos diretamente ao nome Gondolo. Caixas retangulares, tonneau e cushion passam a dominar essa linha, essas formas dialogavam com o gosto da elite brasileira da época, profundamente influenciada por Paris, mas também permitiam à Patek explorar soluções técnicas complexas dentro de geometrias menos convencionais. Produzir movimentos retangulares exigia maior precisão de engenharia, já que o aproveitamento de espaço e a distribuição dos componentes se tornavam mais desafiadores do que em caixas redondas.

A linha Gondolo surge como um campo de experimentação técnica e formal. Muitos desses relógios incorporavam movimentos de corda manual extremamente finos, adaptados especificamente ao formato da caixa, e essa capacidade de desenvolver calibres sob medida reforçava a posição da Patek Philippe como manufatura completa, algo que poucas casas conseguiam oferecer com consistência naquele período.

Com a crise de 1929 e as transformações econômicas globais, a relação comercial entre a Patek Philippe e a Gondolo & Labouriau começa a enfraquecer, a joalheria encerra suas atividades em 1927, marcando o fim de uma era. Ainda assim, o legado formal e técnico dessa parceria permanece dentro da Patek e os relógios de formato continuam sendo produzidos, agora com a assinatura da própria manufatura, e passam a integrar o vocabulário permanente da marca.

Durante grande parte do século XX, esses modelos de formato permanecem em segundo plano dentro do catálogo da Patek, ofuscados pela ascensão dos relógios esportivos de aço e pelo domínio das caixas redondas no imaginário da alta relojoaria. No entanto, internamente, a marca nunca abandona esse legado.

A retomada oficial do nome Gondolo ocorre no final dos anos 1990, quando a Patek Philippe decide organizar suas coleções de forma mais clara e histórica. A linha Gondolo é relançada como um tributo direto aos relógios de formato do período art déco e, de forma indireta, à relação com o Brasil.

O caso Gondolo revela algo fundamental sobre a Patek Philippe. Um parceiro brasileiro foi responsável por impulsionar algumas das decisões mais ousadas da manufatura em termos de formato, distribuição e estratégia comercial. Poucas casas de luxo podem afirmar que uma parte relevante de sua identidade foi moldada fora da Europa.

O Gondolo parte de uma história transnacional, de uma elite brasileira que influenciou diretamente a produção suíça, e de uma manufatura que soube registrar, preservar e reativar esse legado.

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