Rafaela Sayuri e a construção de identidade na moda brasileira

Nov 28, 2025

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Rafaela Sayuri faz parte de uma geração que deslocou a lógica da moda de rua no Brasil ao construir marca, linguagem e identidade com consistência. À frente da Class, Say Ur e a recém-lançada SAL Running, Sayuri atua no ponto em que criação, estratégia e operação se cruzam. Seu trabalho nasce da convivência entre skate, luxo, design, ancestralidade japonesa e observação cotidiana, elementos que moldaram uma trajetória rara no país.

Na conversa ela revisita origem, referências, rupturas, amadurecimento e o processo de assumir posições de liderança num setor que ainda resiste a mulheres em comando. Confira a entrevista completa abaixo.

NOTTHESAMO: Quem é Rafaela Sayuri?

Rafaela Sayuri: Cofundadora e sócia proprietária na indústria PIPA LTDA, que engloba as marcas CLASS, SAY UR e a mais recente SAL RUNNING. Atuo hoje como diretora criativa, tanto de coleções quanto de campanhas, designer físico e imaterial, além de administrar a empresa estrategicamente ao lado do meu sócio Eric.

NTS: De onde surgiu seu interesse pelo mundo da moda no geral? Quais eram suas primeiras influências que o levaram a querer construir a Class?

R: Sempre tive esse viés artístico, que acho que foi despertado antes mesmo de eu aprender a ler e escrever. Mas achava muito distante da minha realidade poder viver disso. Meu primeiro contato com moda foi quando criança ao assistir animes, acessar o site dolls.com.br, diabo veste Prada. Ao criar a Class, na época minhas referência eram o skate, claro, mas sentimos que precisava expandir esse olhar, então comecei a pesquisar o mercado de luxo.

NTS: Quando vocês criaram a Class, havia alguma ruptura específica que vocês queriam trazer para a moda de rua no Brasil?

R: Queríamos ofertar um produto orgulhosamente brasileiro, numa época onde somente marcas internacionais eram valorizadas e aceitas nesse mercado.

NTS: Quais ações e coisas externas ao mundo da moda influenciam hoje seu processo criativo?

R: Minha pesquisa basicamente além da minha vivência, vem também da gastronomia, arquitetura, dissertar com meus amigos, viagens, um bom drink… Essa imersão visual e sensorial que procuro transmitir pra matéria ao criar.

NTS: A Say Ur é um projeto mais autoral, mais íntimo. O que te motivou a criar uma marca paralela?

R: De início me vi como consumidora, e o quanto eu estava sentido falta e necessidade de roupas que dialogassem com meu estilo mas também que fosse pensada para o corpo feminino.

NTS: Qual foi a primeira peça da Say Ur que te fez pensar: “é isso, encontrei o que eu queria”?

R: A cada coleção esse ranking se atualiza. Mas pensando bem foi um hardware que desenvolvi quando comecei a marca, no caso era uma fivela de metal que mesclava linhas retas com curvilíneas. Foi a junção da simetria com o orgânico que eu buscava.

NTS: Como você lida com a dualidade entre duas marcas com propostas tão distintas, mas ambas muito suas?

R: Hoje em dia lido bem, consigo dividir minhas funções na Class com o Eric, tenho um time que me auxilia em ambos. Na Class eu assumo mais a parte de design e desenvolvimento de produtos, na Say Ur faço de tudo.

NTS: De que maneira sua ancestralidade japonesa influencia seu olhar de design?

R: Essa filosofia de sempre buscar o melhor do que fiz ontem, sempre lapidando. Na simplicidade bem executada.

NTS: A moda é um setor com muitas mulheres, mas nem sempre com mulheres em posição de comando. Como é navegar esse ambiente sendo co-fundadora e diretora criativa?

R: Nos primeiros anos foi difícil até pra mim reconhecer meu lugar. Muita gente me via apenas como a companheira do meu sócio, ou me jogavam pra um estereótipo de mulher asiática boa de exatas. Trabalhei estrategicamente pra mudar essa imagem, e tive muita ajuda do Eric no processo.

NTS: O que você gostaria que meninas jovens, que sonham em trabalhar com moda, entendessem desde cedo?

R: Que realmente é um sonho, mas precisa trabalhar muito como qualquer outra carreira.

NTS: O que você acredita que ainda falta acontecer na moda brasileira?

R: Ser reconhecida mundialmente por sua cultura, mas também pela sua complexidade e intelecto.

NTS: Se tivesse que dar uma dica para alguém, o que seria?

R: Viver o presente, comemorar suas conquistas, acreditar na sua intuição e não esquecer de se divertir no processo.

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