Sob o mesmo sol: Mano Lima e Ciro Pipoli aproximam Jacareí e Nápoles

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Há mais de 9 mil quilômetros entre o Vale do Paraíba, no litoral de São Paulo, e Nápoles, no sul da Itália. À primeira vista, são territórios atravessados por histórias, paisagens e contextos bastante distintos. Mas foi justamente olhando para aquilo que acontece longe dos cartões-postais — crianças brincando, pessoas ocupando a rua, corpos marcados pelo verão, futebol, encontros e pequenos gestos cotidianos — que Guilherme Lima e Ciro Pipoli encontraram um ponto de aproximação.

Desse reconhecimento nasceu “Sotto mesmo sol”, colaboração em que as fotografias de Ciro sobre a vida napolitana recebem intervenções ilustradas de Guilherme. O projeto começou a partir de um arquivo de mais de 5 mil imagens e foi construído não pela busca de equivalências óbvias entre Brasil e Itália, mas pela percepção de que certas experiências humanas conseguem atravessar a distância. Para Guilherme, observar as fotografias por tanto tempo fez com que aqueles personagens começassem a parecer familiares: pessoas que poderiam estar em uma feira de bairro, em um aniversário de família ou simplesmente dividindo uma tarde quente em alguma cidade brasileira.

Para Ciro, permitir que outro artista interviesse sobre imagens tão ligadas à própria memória exigiu outro exercício: entender a fotografia não como algo definitivo, mas como um ponto de partida capaz de receber uma nova perspectiva sem perder sua origem. O equilíbrio entre esses dois olhares aparece na própria construção das obras. Guilherme evita ocupar integralmente as fotografias e concentra suas intervenções nas figuras humanas, mantendo arquitetura, paisagem e contexto preservados. O resultado não transforma a fotografia em ilustração nem utiliza a imagem apenas como suporte; mantém as duas linguagens visíveis ao mesmo tempo.

Essa convivência é também o centro conceitual do projeto. Em vez de tentar provar que Nápoles e o Brasil são semelhantes, “Sotto mesmo sol” encontra força justamente na tensão entre proximidade e diferença. Ciro reconhece no Brasil uma forma familiar de viver os espaços públicos e valorizar as relações humanas, mas ressalta que a comparação se torna interessante porque os dois territórios permanecem diferentes. A fotografia, nesse sentido, funciona menos como evidência de uma equivalência cultural e mais como uma ferramenta para colocar experiências distantes em relação.

Em conversa com o NOTTHESAMO, Guilherme e Ciro falam sobre esse processo, sobre os limites entre intervenção e preservação e sobre como uma colaboração pode acrescentar novas camadas a uma imagem sem apagar aquilo que já existia. No centro de tudo está uma ideia simples: antes das cidades, das nacionalidades e das linguagens artísticas, existem pessoas. Às vezes, basta observá-las para perceber que a distância pode ser menor do que parece.

Confira a entrevista completa abaixo:

NOTTHESAMO: Guilherme, seu trabalho costuma partir de cenas do cotidiano em Jacareí. O que você reconheceu nas fotografias de Nápoles do Ciro que fez aquelas imagens parecerem próximas, mesmo vindo de um contexto tão distante geograficamente?

Guilherme: Acredito que, no final, pessoas continuam sendo pessoas, independentemente do lugar. Quando paro para olhar as fotografias do Ciro, percebo a naturalidade com que elas vivem aqueles momentos. As crianças de lá têm a mesma pureza que as nossas, gostam de praia como a gente, também são apaixonadas por futebol e se divertem no calor de um verão tão quente quanto o nosso. São pessoas com corpos bronzeados, vivendo a rua, a praia e o calor de uma forma que faz o verão de Nápoles encontrar o clima tropical do Brasil. Acho que isso também ajuda a desmistificar aquela imagem de uma Europa fria e distante que muitas vezes temos daqui e revela um calor que reconheço muito no Brasil.

NTS: Ciro, suas fotografias partem de uma relação muito íntima com Nápoles e com as pessoas que ocupam a cidade. Como foi permitir que outro artista interferisse em imagens que já carregavam uma visão tão pessoal sobre o lugar onde você cresceu?

Ciro: Foi interessante, sobretudo porque, para mim, as fotografias nunca são simplesmente imagens. Dentro de cada fotografia há um momento que vivi, uma pessoa que conheci, um lugar que conheço e que, de alguma forma, faz parte da minha história.

Ao mesmo tempo, porém, acredito que uma fotografia não precisa necessariamente permanecer imutável. Gosto da ideia de que ela possa se tornar um ponto de partida para outro artista e para outra sensibilidade. Neste projeto, procurei encarar a intervenção não como algo que modificasse minha visão de Nápoles, mas como uma nova maneira de dialogar com ela. (minha visão de Nápoles)

Foi quase como ver algumas das minhas fotografias pelos olhos de outra pessoa. E acredito que essa seja justamente a beleza da colaboração entre artistas: não perder o que já existe, mas conseguir acrescentar algo sem apagar sua identidade.

NTS: As intervenções não ocupam completamente as fotografias e deixam boa parte do registro original intacta. Como vocês encontraram o limite entre acrescentar uma nova camada e preservar aquilo que já existia na imagem?

G: A linha tênue entre a minha arte e a dele está justamente no fato de que, se eu ilustrasse tudo, deixaria de ser também uma obra do Ciro. Por isso, escolhi intervir apenas nas pessoas e preservar todo o restante da fotografia. Como eu disse, pessoas continuam sendo pessoas, independentemente do lugar, e boa parte da semelhança que encontrei entre nossas realidades está justamente na forma como elas vivem. Minha intervenção veio para colocar essas pessoas em uma outra dimensão, talvez mais artística e plástica, sem apagar o olhar do Ciro. A ideia nunca foi transformar a fotografia em uma ilustração minha, mas fazer com que os nossos dois olhares continuassem existindo dentro da mesma obra.

C: Acredito que o equilíbrio tenha nascido justamente do respeito pela fotografia original. Estou acostumado a buscar nas imagens algo muito simples e natural: um gesto, um olhar, uma situação cotidiana. Por isso, não tinha interesse em cobrir completamente o que havia fotografado.

A ideia era criar um diálogo. Deixar que a fotografia continuasse contando sua história e permitir que a intervenção do outro artista acrescentasse uma segunda.

Nesse sentido, até aquilo que não foi modificado se torna importante. O espaço deixado livre permite que a fotografia ainda seja reconhecida pelo que era originalmente. Gosto de pensar que as duas visões podem conviver sem que uma precise necessariamente prevalecer sobre a outra.

NTS: O projeto aproxima Jacareí e Nápoles por meio de gestos cotidianos, do verão, das ruas e das pessoas. O que essa experiência revelou para vocês sobre as semelhanças — ou diferenças — entre a vida brasileira e a italiana?

G: Depois de olhar as mais de 5 mil fotos e me conectar ainda mais com aquelas pessoas depois de ilustrá-las, em algum momento passei a enxergá-las como pessoas próximas. As crianças poderiam facilmente ser meus primos, os mais velhos poderiam ser meus vizinhos, e eu facilmente encontraria todos eles em algum aniversário ou feira local. Sentaria para conversar, tomar uma cerveja ou um caldo de cana. Acho que é justamente nesse sentimento de familiaridade que mora a semelhança entre as nossas realidades.

C: O que mais me marcou foi perceber como, mesmo sendo duas realidades geograficamente muito distantes, existem sensações que se tornam imediatamente familiares. Sempre me interessei mais pelas pessoas e por seu cotidiano do que pelos lugares de cartão-postal. E também no Brasil reencontrei aquela espontaneidade, aquele jeito de ocupar os espaços públicos, de estar junto, de viver a rua e, sobretudo, uma certa importância dada às relações humanas. Naturalmente, as diferenças culturais são muitas, e não faria sentido tentar tornar Nápoles e o Brasil iguais. Pelo contrário, acredito que sejam justamente as diferenças que tornam essa comparação interessante. Mas, ao observar as pessoas, seus gestos e a maneira como vivem o cotidiano, reencontrei algo que conheço bem. Talvez tenha sido isso o que mais me marcou: a fotografia pode colocar lugares muito distantes em relação, sem precisar torná-los semelhantes. Basta encontrar aquelas emoções humanas que, independentemente do país em que estamos, ainda conseguem ser universais.