Taco Perdido: do bairro operário de Santiago ao futebol como linguagem
Taco Perdido é o nome de uma técnica e também de um modo de pensar a imagem. A gravura em cores, feita a partir de uma matriz que se perde a cada entalhe, define uma prática em que o processo importa tanto quanto o resultado. Essa lógica atravessa toda a trajetória do artista, desde os primeiros anos na faculdade de artes até os projetos que hoje circulam pela cidade, levando a impressão para fora do ateliê e para dentro do espaço público.
Criado em Vista Hermosa, na região da Estación Central, em Santiago, Camilo constrói seu repertório a partir da memória do bairro, da vida cotidiana e das relações comunitárias. O futebol aparece como um eixo central dessa história, primeiro como vivência familiar e de rua, depois como linguagem visual, iniciada em 2014 com uma xilogravura de Pelé feita para o pai. A técnica da xilogravura, descoberta em 2009, oferece ao artista textura, imprevisibilidade e uma certa perda de controle que ele entende como potência estética.
Conversamos além das obras, sobre onde seu trabalho se expande em encontros, publicações e ações coletivas, entendendo a arte como espaço de troca e convivência. Música, romantismo, desenhos animados e referências da pintura atravessam suas imagens, sempre conectadas a uma visão crítica do sistema da arte e à valorização da colaboração. Ao decorrer do papo, Taco Perdido fala sobre memória, técnica, futebol e os caminhos que seguem alimentando sua prática. Confira a entrevista completa abaixo:
*As obras encontram-se disponíveis para venda no perfil do artista. Camilo também produz obras por encomenda.
NOTTHESAMO: Quem é “Taco Perdido”?
TACO PERDIDO: Taco Perdido é uma técnica de gravura em cores na qual uma matriz de madeira ou linóleo é entalhada e depois impressa em camadas sobre o papel. A matriz vai sendo destruída à medida que você a entalha, e a imagem surge na folha. É uma técnica bastante romântica dentro da gravura, pois se limita às imagens impressas e a matriz se perde completamente, o que impede recriar a mesma imagem depois que o trabalho é iniciado. Entrei na faculdade de artes e gostei do nome, então criei imediatamente uma conta de e-mail. Depois surgiu o projeto de gravura móvel, que realizo em diferentes partes da cidade de Santiago, no Chile, em uma prensa ancorada a um triciclo de carga. Foi quando decidi usar esse nome para o meu ateliê, que mais tarde se tornou uma conta no Instagram e deu origem a vários projetos.
NTS: Quais elementos do seu cotidiano em Vista Hermosa ainda aparecem com mais clareza na sua obra atual?
TP: Atualmente estou me reconectando com o lugar onde vivi, já que recentemente me mudei para a Espanha. Talvez isso me faça valorizar as coisas que sempre estiveram ali, e você começa a tirá-las de uma caixa onde as memórias ficam mais presentes, fazendo com que sinais da sua infância, adolescência e do que veio depois apareçam no seu trabalho.
Acho que, mesmo que esses elementos nem sempre apareçam de forma explícita, eles estão presentes na minha mente toda vez que preparo uma obra e olho imagens. Tenho memórias muito fortes do meu bairro.

NTS: O futebol parece atravessar toda a sua vida. Em que momento você começou a desenvolver uma arte voltada para o esporte?
TP: Quando terminei a faculdade de artes, especificamente em 2014, foi por causa de um presente para o meu pai que comecei a desenvolver trabalhos relacionados ao futebol. Era abril e o aniversário dele estava chegando, então fiz uma xilogravura do Pelé.
Depois disso, produzi uma dúzia de gravuras nas quais o futebol aparece constantemente.
NTS: Quando você descobriu a xilogravura e o que essa técnica te oferece que outras linguagens não oferecem?
TP: Em 2009, descobri a técnica e me apaixonei imediatamente. Naquele ano, acho que entalhei todo pedaço de madeira que encontrei e tinha muita vontade de imprimir.
A xilogravura tem uma textura muito difícil de reproduzir e é bastante única. Também é imprevisível, porque você está entalhando algo sem saber exatamente o que vai acontecer na impressão. Há algo nessa falta de controle que é muito interessante e que potencializa o trabalho, porque ele não se torna tão pretensioso.

NTS: Além do futebol, quais são suas principais inspirações e influências visuais?
TP: Música, romantismo e desenhos animados. Acho que esses elementos estão sempre presentes, ou eu os identifico para criar algo. Tenho uma pasta onde coleciono muitas imagens. No momento, estou olhando bastante pinturas dos impressionistas e de colegas contemporâneos que admiro.
NTS: Existe algo presente no seu país, cidade ou bairro que você não encontra em nenhum outro lugar e que molda sua forma de ver a arte?
TP: Talvez venha de crescer em um bairro operário da cidade de Santiago, no Chile. A Estación Central é associada ao crime, ao comércio ambulante e às drogas. Mas o bairro onde vivi era incrível; as pessoas viviam de forma muito colaborativa, algo difícil de encontrar no mundo da arte. Existe um elitismo e um egoísmo que não são tão evidentes em outras disciplinas artísticas. Os jovens ricos, da elite, os mauricinhos, não sabem compartilhar e são egoístas, têm “mão de guagua” (literalmente, “mão de bebê”), e são eles que detêm o poder na arte.

NTS: Você trabalha há mais de 10 anos com imagens, temas e símbolos recorrentes. O que muda quando tudo parece se repetir?
TP: Talvez não mude tanto, mas novos elementos vão sendo incorporados, coisas que vou descobrindo ou tirando da minha caixa de memórias. Às vezes, a obsessão por certas coisas é o que acaba te transformando.
NTS: Se alguém encontra sua obra pela primeira vez, o que você gostaria que essa pessoa entendesse sobre você?
TP: Não sei sobre mim, mas gostaria que algo acontecesse com ela, para o bem ou para o mal, e que, de preferência, recebesse críticas para que pudesse melhorar ainda mais o seu trabalho.

NTS: Além das obras de arte, você também cria encontros, revistas e eventos. Por que é importante para você que a arte seja também um espaço de comunidade e união?
TP: Porque desde pequeno eu gostava de comunidade e de reunir pessoas, desde organizar partidas de futebol com meus amigos.
A arte merece fazer parte da sociedade tanto quanto a saúde e a educação; são elementos básicos que todos deveriam incorporar em suas vidas. À medida que você adquire mais conhecimento em qualquer área, você ganha mais espaço na sociedade, que é bastante individualista.
NTS: Hoje em dia, o que ainda te dá vontade de continuar criando?
TP: Isso é complicado. É simplesmente algo que eu amo e aproveito todos os dias. Acho que, se eu não criar arte ou consumir arte, minha vida não tem sentido.
NTS: Se você pudesse dar um conselho a alguém, qual seria?
TP: Seja consistente e colabore.
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