The Regiment Coat: A relação das jaquetas militares com a história da moda.

Jan 14, 2026

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As regiment coats, ou então "Napoleon Jackets” parecem ser a próxima nova febre para 2026. Adidas, Kenzo, Ann Demeulemeester, Mcqueen, tantas outras casas e até fast fashions como a Zara estão dando seus primeiros indícios da adoção dessa jaqueta. Porém, qual a história dessa peça?

As Regiment Coats surgem no contexto da organização militar europeia entre os séculos XVIII e XIX, principalmente no Reino Unido, quando os exércitos passam a operar de forma mais sistematizada, hierarquizada e institucional. O termo “regiment” se refere diretamente ao regimento militar, unidade básica de organização das forças armadas britânicas, e os casacos eram pensados como parte essencial do uniforme, não apenas para identificação visual, mas também para proteção térmica em campanhas prolongadas, deslocamentos e permanência em ambientes externos. Eram equipamentos funcionais, feitos para durar, resistir ao clima e manter uma aparência padronizada mesmo em condições adversas.

Esses casacos tinham características bem definidas, um corte estruturado, comprimento abaixo do quadril ou até o joelho, tecidos pesados como lã compacta, botões metálicos ou de osso, lapelas rígidas e, muitas vezes, cores associadas a um regimento específico. No exército britânico, especialmente, a padronização convivia com códigos internos. Um mesmo modelo podia variar levemente de acordo com a infantaria, cavalaria ou oficiais de alta patente. A função era clara: diferenciar, organizar e impor leitura imediata de autoridade e pertencimento.

Ao longo do século XIX, com a consolidação do Império Britânico e a expansão colonial, essas peças passaram a circular também fora do ambiente estritamente militar. Oficiais em trânsito, burocratas coloniais e membros da elite urbana adotam versões adaptadas dos regiment coats no cotidiano. É nesse momento que a peça começa a atravessar a fronteira entre uniforme e vestuário civil. O casaco mantém a estrutura, o peso e a formalidade, mas passa a ser usado em contextos urbanos, administrativos e sociais. A moda masculina do período incorpora esses códigos como sinal de disciplina, respeitabilidade e status.

No início do século XX, com as duas guerras mundiais, o casaco militar volta a ocupar papel central, agora em escala industrial. Ao mesmo tempo, o excedente de produção e a circulação de peças militares no pós-guerra fazem com que muitos desses casacos sejam reaproveitados pela população civil. Esse fenômeno acontece tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, e com todas as linhas militares produzidas durante a época.

Nas décadas seguintes, a moda passa a revisitar essas referências de forma cíclica. Nos anos 1960 e 1970, por exemplo, o casaco militar aparece ressignificado em contextos de contestação política e cultural, esvaziando o sentido original de autoridade e transformando o uniforme em ferramenta estética. Já nos anos 1990 e 2000, o interesse recai mais sobre o corte e a funcionalidade, com designers explorando a precisão da alfaiataria militar em coleções de moda masculina e unissex.

O retorno das regiment coats em 2026 corresponde a uma alternativa a outras peças militares que viralizaram nos últimos anos, como as bomber jackets, calças cargo, camuflagem. Há uma revalorização desse tipo de peças duráveis, estruturadas e historicamente consistentes em um momento de desgaste do fast fashion e saturação de tendências descartáveis.

Além disso, há uma convergência entre moda, trabalho e cotidiano urbano que favorece esse tipo de peça. O regiment coat transita bem entre ambientes formais e informais, entre o escritório, a rua e situações híbridas que hoje definem o modo de vestir.

Importante notar que o retorno não é uma reprodução literal dos modelos históricos. As versões atuais mantêm o DNA estrutural, mas dialogam com questões contemporâneas como gênero, mobilidade e clima. Muitas marcas optam por silhuetas mais abertas, abotoamentos simplificados e tecidos tecnológicos que preservam o peso visual sem o desconforto original. Ainda assim, a origem permanece legível.

No mundo da moda, raramente devemos trabalhar com certezas, se algo virará trend ou será apenas um hype passageiro. Entretanto, isso não exclui o lastro cultural e função prática que as Regiment Coats, assim como todas peças militares, carregam.

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