10 sons que não podem faltar em um dancehall, por Lys Ventura

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DJ, pesquisadora e responsável por movimentar a cultura sound system no Brasil há mais de uma década, ela constrói essa seleção a partir de quem já esteve diretamente em contato com a Jamaica e a cultura que formou o gênero. Dancehall não se trata apenas de música, mas de um sistema cultural completo que envolve linguagem, corpo, estética, política e comportamento, algo que se forma na Jamaica a partir dos anos 80 e atravessa décadas influenciando o mundo inteiro.

A lista organiza esse percurso de forma direta, começando com Wayne Smith e o impacto de “Under Mi Sleng Teng” na virada digital do gênero, passando pelos riddims de King Jammy, pela presença feminina que sempre se fez presente e redefiniu espaço dentro da cena com nomes como Lady Junie e Tanya Stephens, até chegar em figuras centrais como Shabba Ranks, Super Cat e Buju Banton, que expandem o alcance do dancehall para além da ilha e estabelecem pontes com o hip hop, o reggaeton e outras vertentes..

No fim, a playlist funciona como um mapa direto de como o dancehall se constrói e se espalha, conectando passado e presente enquanto continua alimentando pistas, estéticas e movimentos culturais que seguem em constante transformação. Para conferir os apontamentos completos de cada uma das músicas, leia a matéria completa abaixo:

1 - Wayne Smith - Under Mi Sleng Teng (1985) 

Com um tecladinho e um sonho, o produtor King Jammy$ fez mágica e revolucionou a cena trazendo ferramentas eletrônicas as produções que deram origem à era do dancehall digital. Isso ajudou a expansão do ritmo e resultou em incontáveis samples, e é interessante observar como outros elementos são acrescentados ao passar dos anos.

 2 - Admiral Bailey - Punnany (1986) 

Outro clássico de King Jammy, que tem um catálogo extenso de riddims que contam toda essa história. Essa é uma faixa explícita que chegou a ser banida de rádios, mas ganhou o gosto popular e vários artistas gravaram em cima desta base e introduziram a expressão 'punnany’ pro mundo, fazendo com que seja um hit. No baile, ninguém fica parado. 

3 - Lady Junie - Tell You What Police Can Do (1987)

As mulheres em unanimidade, apesar de serem constantemente apagadas, seguem criando tendências e com o dancehall não foi diferente. Lady Junie emplacou vários singles no topo das paradas e essa em especial levanta geral na pista! Fala sobre a interação entre a abordagem da polícia e a vida nas festas, focando em como os jovens se comportam, dançam e lidam com a vigilância policial. 

4 - Shabba Ranks - Dem Bow (1990)

Quando eu era criança, ouvia muito na rádio a faixa ‘Mr. Loverman’, de Shabba. A levada do som e a sua voz me transportavam pra outro universo. Mas foi nos bailes que eu entendi a importância dele pro mundo, principalmente com a faixa ‘Dem Bow’. O sucesso foi tão grande, que os vizinhos do Panamá evoluíram com o reggaeton, e é daí que deriva o nome da batida ‘Dem Bow’. Um som vibrante e ousado que segue animando gerações. 

5 - Super Cat - Don Dada (1992)

Um baile sem Super Cat, não é baile, sorry! Esse cara influenciou o gênero como um todo, e é um dos grandes responsáveis pela conexão do dancehall com o Hip Hop. Muito requisitado pelos Sound Systems desde o início, inspirou gerações futuras nas evoluções inclusive para o Jungle, por exemplo, e carrega esse apelido popularmente carinhoso de ‘Don Dada’. 

6 - Buju Banton - Champion (1994)

Muitos artistas foram porta-vozes das ruas. Buju Banton é um deles, um fenômeno do dancehall que retrata o cotidiano, a sexualidade e a religião. Foi um dos poucos artistas conscientes a reaver seu catálogo e excluir músicas polêmicas, e muitos hits permaneceram, como ‘Champion’, que exalta o desejo e a confiança em um flerte. Na faixa ele diz que as mulheres caminham e falam como campeãs, que a autoconfiança deixa tudo irresistível e como esse comportamento se destaca para além da beleza física. 

7 - Tanya Stephens - Google (1997)

 Contudo, historicamente falando as mulheres partem de um lugar complexo de objetificação na luta pelo seu protagonismo, e são peças centrais no dancehall com destaque para a dança e o canto. O embate era rude, não à toa que o termo ‘Rude Gal’ existe. E a Tanya Stephens elevou a autoestima feminina com suas líricas afiadas, como por exemplo na faixa ‘Google’: ‘Garotas… não se deixem enganar pelos caras, eles simplesmente fingem que sabem de tudo mas são uma fraude! Você está em vantagem agora, você pode dar risada’. Esse som tem uma batida ousada e faz a pista tremer! 

8 - Sean Paul - Give Me The Light (2001)

Quando o baile percebe a entrada dessa música, é isqueiro pro ar! E é bem isso que a letra propõe: acende e libera a fumaça pro show começar. O primeiro single de destaque do jamaicano Sean Paul do álbum que ganhou um Grammy, e reforçou o dancehall no mainstream. Até hoje ele é super sampleado. 

9 - Cham - Ghetto Story (2005)

Esse clássico levanta até defunto. Conta um pouco sobre os problemas de um jovem crescendo no gueto jamaicano com a pobreza e a violência, nada muito diferente do cenário das favelas brasileiras. Junto com a batida, se tornou um hino. Akon e até Alicia Keys já participaram de remixes desta. E quem tá ligado, completa o refrão cantando junto: ‘Rah, Rah, Rah, Rah!’ 

10 - Spice - So Mi Like It (2014)

Filha de um rastafári fã de Bob Marley, Spice é oficialmente a Rainha do Dancehall. Uma das artistas mais influentes e atuais, ganhou forte visibilidade com esse som que celebra o corpo feminino como fonte de prazer, sensualidade e poder, desafiando padrões tradicionais de submissão. Essa faixa, reafirma a identidade original dessa cultura, e é uma convocação para as minas que são donas de si quebrarem tudo na pista. 

Ouça a playlist inteira clicando aqui!