A baixada Fluminense por Ruan Alexander e Guido Dowsley
O projeto "Aquarela de Brasil" nasce de um ponto profundamente íntimo e afetivo da memória do estilista e diretor criativo Ruan Alexander. Tendo como faísca inicial a música “Aquarela do Brasil” na voz de Gal Costa, o editorial se propõe a registrar o país sob a ótica de quem cresceu e viveu na Baixada Fluminense. Longe dos clichês comerciais, a narrativa visual é centrada nas histórias reais, na rotina e nas pessoas do Rio de Janeiro que moldaram seu universo e de onde ele saiu.
Segundo Ruan, o trabalho deles se destaca por documentar o espaço urbano a partir de uma perspectiva própria de autorrepresentação, rompendo com o olhar colonial. Essa bagagem histórica se funde a uma paleta solar e nostálgica de amarelos, azuis e brancos, criando cenários familiares que remetem à infância e dão a sensação acolhedora de se estar em frente à casa de uma avó ou de uma tia.

Ao preterir os símbolos óbvios da publicidade para focar no sentimento genuíno de brincar na rua e na curiosidade infantil, o projeto marca uma consolidação do olhar de Ruan. Para o diretor criativo, o futuro da produção de imagem e da moda nacional não reside em apontar o que falta no mercado, mas sim em fazer com que cada criador coloque suas próprias verdades e histórias reais no mundo. Desenvolvido ao lado de uma equipe afinada, com fotografia de Guido Dowsley e produção de Ana Abu Kamel, "Aquarela de Brasil" transforma a vivência da Baixada em um manifesto visual duradouro, sincero e fiel às suas origens.
Conversamos com Ruan sobre a construção do projeto, confira a entrevista completa abaixo:
NOTTHESAMO: “Aquarela de Brasil” parte de uma memória muito pessoal e afetiva. Em que momento você percebeu que essas lembranças da baixada poderiam virar linguagem estética?
RUAN ALEXANDER: Acho que percebi que essas lembranças poderiam virar linguagem estética quando comecei a olhar para a minha própria vida, para a minha família e para tudo o que vivi na Baixada Fluminense como referência criativa. Passei a entender que existia muita potência estética em coisas que, muitas vezes, são deixadas de lado.
NTS: Você cita referências como Seydou Keïta, Malick Sidibé e Jean Depara. O que especificamente no olhar desses fotógrafos te influenciou na construção do ensaio?
RA: Seydou Keïta, Malick Sidibé e Jean Depara estão entre minhas maiores referências visuais. O que mais me atravessa no trabalho deles é a forma como registram o espaço urbano e constroem imagens a partir de uma perspectiva própria, criando narrativas cheias de presença e identidade.
Os trabalhos deles foram fundamentais para consolidar uma produção imagética em que o africano passa a representar a si, rompendo com uma tradição em que sua imagem era construída quase exclusivamente por um olhar colonial. Por isso, se tornam referências para mim não apenas esteticamente, mas também na forma de entender a fotografia como ferramenta de narrativa, presença e autorrepresentação.

NTS: Tem algo muito solar nas cores — o amarelo, o azul, o branco — mas também uma certa nostalgia. O que essas cores representam dentro da narrativa?
RA: Quando pensamos o editorial, queríamos criar algo que remetesse diretamente à infância e às memórias afetivas. Todos aqueles cenários me pareciam muito familiares, como se eu estivesse fotografando em frente à casa de uma tia, da minha avó ou de alguém próximo.
queria transmitir uma sensação de familiaridade — principalmente para quem teve vivências parecidas com a minha —, fazendo com que a pessoa olhasse para as imagens e sentisse que, de alguma forma, já conhece aquele lugar.
NTS: Seu trabalho aqui fala sobre Brasil sem recorrer aos símbolos mais comuns da moda ou da publicidade. O que te interessa em criar uma nova imagem do país?
RA: Pra ser sincero, isso me deu um pouco de medo no começo, porque acho que, muitas vezes, a gente acaba seguindo um caminho onde todo mundo está fazendo coisas muito parecidas, e isso pode afastar do lugar mais pessoal. O que me interessa é justamente tentar olhar para outro lugar — criar uma imagem do Brasil que parta da vivência, da memória e das histórias reais de quem vive aqui.
NTS: Você comentou sobre narrar histórias parecidas com as da sua infância e das pessoas ao seu redor. Qual foi a memória mais forte que apareceu durante esse processo?
RA: Acho que a memória mais forte foi a sensação de brincar na rua. isso me trouxe muitas lembranças da infância.
Mas, acima de tudo, foi revisitar a memória da casa dos meus familiares — da minha avó, das minhas tias, das pessoas ao meu redor. Muito desse sentimento vem dos lugares onde cresci e dessa sensação de pertencimento.

NTS: Esse ensaio parece muito autoral e íntimo. Você sente que “Aquarela de Brasil” marca uma virada ou consolidação no seu olhar criativo?
RA: Sou muito grato à equipe por insistir e acreditar junto comigo, por realmente fazer isso acontecer. Sinto que esse trabalho me aproxima de um lugar mais fiel ao meu potencial criativo, onde consigo transformar minhas próprias vivências em material
NTS: Quando você pensa no futuro da moda e da imagem produzida no Brasil, o que sente falta de ver representado?
RA: Pra mim, o mais importante é cada um colocar suas próprias histórias, tá ligado? Não é ficar apontando o que falta na moda, mas sim cada pessoa trazer o que viveu, o que é real pra ela. É isso que faz o trampo ter sentido. Quando a gente parte do que a gente sentiu, do que a gente viveu, a gente transforma isso na criação, de verdade
NTS: Se “Aquarela de Brasil” pudesse ser resumido em uma sensação ou lembrança da sua infância, qual seria?
RA: Acho que seria a sensação de brincar — essa curiosidade infantil de testar, descobrir e inventar coisas novas.
Existe uma inocência muito bonita na infância, uma curiosidade genuína sobre o mundo, e acho que “Aquarela de Brasil” fala muito disso. É quase uma tentativa de reencontrar essa curiosidade que a gente vai perdendo ao crescer.

Fotografia: @guidodowsley_ guido dowsley Stylist: @ruanallexander Ruan Alexander Produção: @ana__abu ana abu kamel Video: Model: @matheusbatis.ta matheus theodoro
Agradecimentos especiais : @kenner , @camaleao.alfaiataria , @fagundes.caio , @retropy_ @gomesc_rafael , @welcome.rio , @dipua_ @vehr




