A cultura casual e as marcas adotadas pelos Hooligans
2 de mar. de 2026
A cultura hooligan emergiu como prática territorial ligada ao futebol inglês do pós-guerra, quando estádios eram extensões diretas de bairros operários e rivalidades locais que atravessavam gerações. Nos anos 1960 e 1970, torcer não era apenas acompanhar o clube, era afirmar pertencimento a uma área específica da cidade. Cidades como Londres, Liverpool e Manchester viviam processos de desindustrialização, desemprego juvenil crescente e tensão social acumulada, onde grupos organizados começaram a se estruturar em torno dessa lógica, ocupando pubs, estações de trem e setores dos estádios todos juntos. É nesse ambiente que se consolidam os grupos que ficariam conhecidos como hooligans.

O termo “hooligan” já circulava na imprensa britânica desde o final do século XIX, mas ganhou novo significado a partir dos anos 1960, quando confrontos organizados entre torcedores passaram a ocorrer com frequência maior e visibilidade midiática. Clubes como West Ham United F.C., Millwall F.C.,
Chelsea F.C. e Leeds United F.C. tornaram-se associados a firms específicas, grupos estruturados com liderança, códigos internos e reputação a defender. A Inter City Firm do West Ham, a Bushwackers do Millwall e a Headhunters do Chelsea são exemplos clássicos dessa organização. O nome “Inter City” referia-se aos trens InterCity que conectavam cidades inglesas e que eram utilizados para deslocamentos estratégicos até jogos fora de casa.

No fim dos anos 1970, ocorre uma transformação decisiva. Parte desses grupos passa a abandonar a estética skinhead, que se deturpou da sua ideia central, e surge então a figura do “casual”. Em vez de uniformes óbvios, os membros começam a adotar roupas de grifes europeias de alto padrão, discretas, esportivas e sem vínculo direto com o universo do futebol ou do punk. A ideia era circular sem chamar atenção das autoridades e, ao mesmo tempo, estar relacionado dentro do próprio grupo.
Durante as competições europeias, torcedores ingleses passaram a viajar com maior frequência para Itália, França e Alemanha. Nessas viagens, além dos confrontos, havia contato com vitrines e marcas que não estavam amplamente disponíveis no Reino Unido. Ao retornarem, traziam peças que rapidamente se tornaram marcadores de distinção. O uso dessas roupas tinha dupla função. Evitar a identificação imediata pela polícia e sinalizar, para quem soubesse reconhecer, pertencimento a um círculo específico.

Entre as marcas que ganharam centralidade nesse processo está a Stone Island, fundada em 1982 por Massimo Osti. A pesquisa têxtil da marca, baseada em tecidos militares, náuticos e industriais, oferecia jaquetas técnicas com aparência funcional e discreta.
Marcas britânicas tradicionais também foram incorporadas. Burberry e Aquascutum, historicamente associadas à alfaiataria e ao vestuário impermeável, passaram a ser usadas de forma deslocada do contexto original. O trench coat e o padrão xadrez deixaram de ser apenas códigos da aristocracia ou da classe média alta londrina e ganharam novo significado nas arquibancadas. O xadrez da Burberry, por exemplo, acabou associado a violência de arquibancada no início dos anos 2000, a ponto de a marca enfrentar restrições de uso em alguns pubs e estádios. A relação entre subcultura e indústria de luxo tornou-se tensa e ambígua.
Paralelamente, marcas esportivas como Adidas, Fila e Sergio Tacchini ganharam espaço, especialmente em modelos específicos de tênis e tracksuits.

O lifestyle casual não se limitava à roupa e envolvia desde o comportamento, deslocamentos e consumo cultural. O encontro no pub antes do jogo, o trajeto coletivo de trem, a ocupação de determinadas ruas próximas ao estádio eram partes estruturais do ritual.
Durante os anos 1980, o fenômeno ganhou dimensão internacional e também repressão estatal. Tragédias como a de Heysel em 1985, envolvendo torcedores do Liverpool F.C., ampliaram o debate sobre violência no futebol e levaram a medidas severas contra hooligans ingleses. O Estado britânico endureceu políticas de segurança, introduziu câmeras, controle de ingressos e legislação específica contra violência esportiva

É fundamental entender que nem todo casual era hooligan e nem todo hooligan adotava integralmente a estética casual. Com o tempo, a moda se descolou parcialmente da prática violenta e passou a influenciar cenas musicais e o streetwear britânico. O britpop dos anos 1990, com bandas como Oasis, incorporavam o lifestyle e elementos visuais associados às arquibancadas. Jaquetas técnicas, parkas e tênis específicos migraram para palcos e editoriais de moda.
Hoje, marcas como Stone Island e C.P. Company são consumidas por públicos diversos, muitos sem qualquer vínculo com futebol. O que permanece é a ideia de roupa como marcador de conhecimento específico e pertencimento à subcultura.

O cinema também ajudou a consolidar uma narrativa estética. Filmes como The Football Factory e Green Street retrataram a vida de firms e ampliaram o alcance simbólico da imagem do hooligan vestido com Stone Island ou Burberry. Embora muitas dessas representações sejam romantizadas ou simplificadas, elas contribuíram para internacionalizar a estética casual.
Nos anos 2000 e 2010, observa-se movimento curioso. Marcas antes associadas a subculturas de arquibancada passam a ocupar passarelas e colaborações com designers de luxo. A Stone Island, por exemplo, amplia sua presença global e consolida-se como referência de inovação têxtil. A lógica original de código interno torna-se produto global. O que era estratégia de camuflagem vira peça de desejo em mercados asiáticos e americanos.

Ao mesmo tempo, a cultura hooligan clássica perde força diante da transformação estrutural do futebol inglês. A criação da Premier League em 1992 inaugura modelo comercial altamente rentável, com ingressos mais caros e perfil de público gradualmente alterado. A modernização dos estádios após o Relatório Taylor, implementado depois da tragédia de Hillsborough em 1989, elimina setores em pé e reduz a possibilidade de confrontos massivos dentro das arenas. O ambiente torna-se mais controlado, mas também mais corporativo.
Isso não significa desaparecimento total da violência associada ao futebol, mas indica mudança de escala e visibilidade. Parte das firms desloca confrontos para áreas afastadas dos estádios ou reduz atividade pública. A estética casual, por sua vez, sobrevive como herança cultural e influência no vestuário urbano europeu.

A história das marcas adotadas por hooligans e casuals revela dinâmica complexa entre subcultura e mercado. O consumo não era apenas ostentação, mas mecanismo de diferenciação e reconhecimento. O acesso a determinadas peças dependia de viagem, contato e conhecimento.




