A moda no mundo da Fórmula 1

20 de fev. de 2026


Desde o início, a Formula 1 nunca foi apenas sobre carros. Antes mesmo da formalização do campeonato mundial, em 1950, os Grandes Prêmios europeus já funcionavam como eventos sociais de alto escalão. Corridas em circuitos como Circuit de Monaco e Autodromo Nazionale Monza integravam calendários frequentados por aristocratas, empresários e chefes de Estado. O automobilismo de elite nasceu dentro de um ecossistema onde aparência, postura e vestimenta eram parte do ritual.

A profissionalização da imagem começa a ganhar corpo nos anos 1960 e 1970. Pilotos como Jackie Stewart entendiam que representar uma equipe significava também representar um padrão de conduta e apresentação pública. Stewart defendia segurança, organização e postura corporativa em um período ainda marcado por improviso e risco extremo. Ao mesmo tempo, a entrada formal de patrocinadores transformava a estética do esporte. Quando a publicidade é liberada nos carros, o macacão, carro e capacete passaram a virar parte suporte das marcas, coexistindo com a criação de patrocínios que visualmente se tornaram tradicionais, além da atração de grandes marcas. Jackie, por exemplo, se tornou parte da Família Rolex, o que mostra como nessa época já era importante ser alinhado com marcas e valores para além das pistas.

É nesse momento que as relojoarias suíças encontram terreno fértil. A TAG Heuer, ainda sob liderança de Jack Heuer, percebe que a Fórmula 1 traduz perfeitamente os valores de precisão e tecnologia que a marca queria comunicar. A associação começa ainda nos anos 1960, mas se consolida nas décadas seguintes com parcerias estruturais. Nos anos 1980, a ligação com a McLaren coloca a TAG Heuer no centro de uma era dourada, marcada por rivalidades históricas e enorme exposição televisiva. O relógio deixa de ser instrumento técnico de cronometragem e vira símbolo aspiracional. No pulso de pilotos como Ayrton Senna, modelos como o S/el se transformam em ícones culturais. O tempo, elemento decisivo em um esporte definido por milésimos, ganha representação material sofisticada. O relógio passa a ser extensão simbólica do carro.

A lógica é clara: se a Fórmula 1 vende engenharia de ponta, o acessório precisa comunicar a mesma narrativa. Décadas depois, a presença da TAG Heuer junto à Red Bull Racing reforça a continuidade dessa estratégia. A relojoaria usa a categoria como plataforma global, enquanto a Fórmula 1 consolida sua identidade como território natural do luxo técnico.

Paralelamente, o macacão evolui. O que era algodão branco se transforma em peça altamente tecnológica, com materiais resistentes ao fogo, cortes ajustados e layout gráfico cuidadosamente planejado. A identidade visual de equipes como a Scuderia Ferrari ou a McLaren nos anos 1980 e 1990 ajudou a fixar os códigos de cada eqipe. Vestir uma jaqueta da Ferrari não é apenas consumir o merch de uma escuderia, é aderir a um imaginário de tradição e história italiana.

Alguns pilotos entenderam cedo o potencial dessa construção de marca pessoal, o caso de Ayrton Senna é exemplar. A criação do personagem “Senninha” nos anos 1990 amplia sua presença para além do automobilismo. O nome vira propriedade intelectual robusta, estampando roupas, acessórios e produtos licenciados. É uma das primeiras consolidações de branding individual no esporte a motor. Já Niki Lauda transforma o boné vermelho com a inscrição “NIKI” em assinatura visual permanente. Após o acidente de 1976 e seu retorno às pistas, o boné passa a ser parte inseparável de sua imagem pública. Não é apenas acessório, é narrativa de resistência e identidade.

Nos anos 2000, a Fórmula 1 entra definitivamente na era do lifestyle. A figura de Michael Schumacher consolida a Ferrari como potência esportiva e marca global e o consumo de produtos oficiais cresce de forma significativa. Jaquetas, polos, relógios e bonés passam a circular também fora dos ambientes de corrida, inseridos no cotidiano urbano. A categoria deixa de ser apenas evento anual e vira indústria de consumo contínuo. O merchandising se sofisticou, incorporando cortes melhores, tecidos premium e distribuição internacional.

Mais recentemente, a presença de pilotos como Lewis Hamilton ampliaram os diálogos com a moda contemporânea. Hamilton frequenta semanas de moda, colabora com marcas internacionais e utiliza o paddock como espaço de afirmação estética. A Fórmula 1 passou a explorar oficialmente esse aspecto, divulgando chegadas dos pilotos ao circuito como se fossem red carpets esportivos.

Sua aparição no Met Gala de 2021 simboliza esse novo momento. Apenas um dia após o grave acidente no GP da Itália, em que o carro de Max Verstappen passou a centímetros de sua cabeça, Hamilton investiu cerca de 275 mil dólares para adquirir uma mesa inteira no evento, levando como convidados quatro estilistas negros em ascensão. O piloto já desfilou na Semana de Moda de Paris pela Balenciaga e, em 2025, assumiu um papel ainda mais central ao integrar o grupo de co-chairs do Met Gala, ao lado de nomes como Colman Domingo, A$AP Rocky, Pharrell Williams e LeBron James.

Em 2024, a categoria anunciou um acordo de patrocínio de 10 anos com o conglomerado de luxo LVMH, grupo que reúne grifes como Louis Vuitton, Dior, Givenchy e a relojoaria TAG Heuer. Essa parceria demonstra que a relação entre moda e automobilismo não é apenas simbólica, mas também econômica e estratégica,

Hoje, os produtos ligados à Fórmula 1 ocupam um nicho específico dentro da moda e do lifestyle esportivo, em uma zona híbrida onde tecnologia, exclusividade e herança esportiva criam valor próprio. Uma jaqueta de equipe carrega a temporada, os patrocinadores daquele ano, o piloto associado, se tornando uma peça datada de maneira documental, fruto da cultura do colecionismo.

A tradição, portanto, não é circunstancial. Desde os ternos claros no grid de Mônaco nos anos 1950 até as coleções cápsula contemporâneas, a Fórmula 1 construiu uma estética própria baseada em três pilares: elite, tecnologia e visibilidade global.