AFCON: o que o futebol revela sobre a África contemporânea
A Copa Africana de Nações nunca operou apenas como um torneio esportivo. Desde sua criação, em 1957, a AFCON funciona como um espaço onde futebol, política, identidade nacional e disputa por narrativa se cruzam de maneira direta. Pensar a competição apenas a partir do desempenho técnico das seleções é ignorar seu papel histórico dentro de um continente que passou o século XX lidando com colonialismo, processos de independência tardios, fragmentação territorial e construção de Estados nacionais ainda em consolidação. O futebol africano nasce atravessado por essas tensões e a AFCON se torna um dos poucos espaços capazes de articulá-las de forma pública.
As primeiras edições do torneio surgem em um momento em que a África ainda buscava se organizar como entidade política no cenário internacional. Egito, Sudão e Etiópia inauguram a competição em um contexto em que o esporte se torna ferramenta de afirmação simbólica. Não havia apenas a necessidade de competir, mas de existir enquanto bloco, enquanto continente capaz de organizar seus próprios eventos e estabelecer relações entre suas nações recém-formadas. O futebol assume, desde o início, uma função que vai além do entretenimento.

Durante décadas, essa dimensão foi sistematicamente ignorada ou reduzida por leituras externas. A narrativa construída em torno do futebol africano, sobretudo a partir da mídia europeia, sempre esteve marcada por uma lógica colonial. O continente era retratado como espaço de improviso, de jogo que dialogava apenas sobre a força e o poderio físico, de instabilidade e ausência de racionalidade esportiva. Essa leitura não se sustentava apenas em falhas organizacionais reais, mas em um preconceito estrutural que recusava reconhecer projetos próprios de desenvolvimento esportivo fora do eixo europeu.
Esse olhar externo se reflete diretamente na forma como o talento africano passou a ser explorado pelo mercado global. A partir dos anos 1980, a África se consolida como fornecedora de jogadores para a Europa. Jovens são captados cada vez mais cedo, deslocados de seus contextos locais e incorporados a academias que moldam não apenas seu jogo, mas sua relação com identidade e pertencimento. O resultado é uma contradição central com seleções nacionais que contavam com jogadores de elite, mas com pouca continuidade coletiva, já que esses atletas raramente vivenciam processos longos dentro de seus países de origem.

Apesar disso, algumas nações africanas começam a entender que o problema não estava na ausência de talento, mas na fragilidade institucional. Cada um à sua maneira, passam a investir em planejamento estrutural, centros de treinamento, formação de técnicos e fortalecimento das federações. O Egito constrói uma hegemonia continental nos anos 2000 baseada em continuidade, Camarões e Costa do Marfim trabalham ciclos mais longos, sustentados por gerações específicas, que atravessaram por exemplo guerras civis e revoluções em seus países. A Argélia, por sua vez, reconstrói - ou ao menos tenta - com dificuldade sua seleção dialogando diretamente com a diáspora, sobretudo na França, por conta da imigração entre os países, que ficaram com parte de talentos argelinos mas que iam cedo para o país e se constituíam por lá.

O Senegal representa um dos casos mais emblemáticos dessa transformação recente. A federação senegalesa investe de forma consistente em formação local, ao mesmo tempo em que articula sua diáspora europeia de maneira estratégica. A conquista da AFCON em 2021 é um processo que envolve categorias de base e uma leitura clara do futebol internacional contemporâneo.
Dentro desse cenário, Marrocos surge como talvez o exemplo mais estruturado de reposicionamento do futebol africano. O investimento no Complexo Mohammed VI simboliza uma virada institucional clara. Trata-se de um centro que articula formação, ciência esportiva, capacitação técnica e integração entre seleções masculinas, femininas e categorias de base. Um trabalho com horizonte, planejamento e continuidade, algo historicamente raro no futebol africano devido a instabilidades políticas e econômicas.
A criação do complexo veio também junto com um projeto que enviou olheiros para a Europa, na busca de famílias de imigrantes marroquinos que tiveram filhos e estariam qualificados para se naturalizar e defender a camisa da seleção nacional. Essa operação foi comandada por Hervé Renard, ex-jogador de futebol e treinador francês que comandou diversas seleções africanas e hoje está à frente da equipe da Arábia Saudita. O primeiro nome desse projeto é o de Achraf Hakimi, jogador do Real Madrid à época, que de prontidão aceitou fazer parte.

Esse projeto se conecta diretamente a uma das transformações mais profundas do futebol africano contemporâneo: a reconfiguração da relação com a diáspora. Durante décadas, jogadores filhos de imigrantes africanos nascidos na Europa foram empurrados para seleções europeias, e essa escolha era apresentada como natural, profissional e inevitável. Jogar por seleções africanas era visto como um risco de carreira, associado a desorganização, menor visibilidade e instabilidade institucional.
O que se observa nos últimos anos é uma inflexão nesse padrão. Jogadores como Achraf Hakimi, Brahim Díaz, Ismaël Bennacer, Riyad Mahrez, Kalidou Koulibaly e tantos outros passam a escolher suas seleções de origem não apenas por laços afetivos, mas por reconhecerem nelas projetos esportivos competitivos. Essa decisão não ocorre no vácuo. Ela reflete mudanças profundas tanto dentro das federações africanas quanto nas sociedades europeias onde esses atletas foram formados. Porém, ainda é difícil segurar esses jogadores e desviar de problemas sociais e suas contemporaneidades. Um dado que volta e meia retorna é o de que, dos 23 convocados de Didier Deschamps para a seleção Francesa em 2018, ano que foram campeões, nada menos que 19 teriam credenciais para jogar por outras seleções.
A diáspora africana na Europa sempre viveu em estado de ambiguidade. Muitos desses jogadores cresceram em contextos marcados por exclusão social, racismo estrutural e questionamentos constantes sobre pertencimento nacional. Mesmo quando atingem o mais alto nível esportivo, sua identidade é frequentemente tratada como condicional. A escolha pela seleção africana passa, nesse contexto, a carregar também uma dimensão política, ainda que não declarada. É uma forma de reivindicar origem, história e pertencimento fora das estruturas que sempre os trataram como exceção.
A AFCON recente torna esse movimento visível. A presença massiva de jogadores formados na Europa não enfraquece o torneio, como sugerem narrativas antigas, mas o fortalece. Essas seleções passam a disputar em pé de igualdade, não apenas tecnicamente, mas também simbolicamente. O futebol africano deixa de ser visto apenas como fornecedor de talento bruto e passa a ser reconhecido como espaço de elaboração tática, disciplina coletiva e projetos nacionais.

Mesmo assim, a disputa pela narrativa permanece. Qualquer episódio de tensão, erro de arbitragem ou atraso logístico na AFCON é tratado como prova de desorganização estrutural. Situações semelhantes em competições europeias são enquadradas como drama, emoção ou exceção, essa assimetria revela que o preconceito não desaparece com evolução técnica.
O futebol africano contemporâneo, no entanto, não busca mais legitimação externa a qualquer custo, o foco é construir sua própria lógica, atravessada por história colonial, deslocamentos forçados, diásporas e reinvenções identitárias. A AFCON funciona como espelho dessas sociedades em transformação, onde cruzam juventude, política, migração, memória e futuro.

O que a AFCON ensina hoje vai além do campo, revelando um continente que começa a controlar sua própria narrativa, ainda que em meio a contradições.
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