Camping das Minas 2.0: a continuação do legado feminino no rap

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Camping das Minas 2.0: a continuação do legado feminino no rap.

A Xaolin Rec apresenta o projeto “Camping das Minas 2.0”, imersão fonográfica que reuniu mulheres de diferentes estados para desenhar novas estéticas sonoras. O projeto desconstrói a lógica tradicional de competição da indústria para investigar os polos no atual cenário musical brasileiro, transformando o camping e a vivência de alguns dias em uma mixtape.,

O disco traz faixas que mostram lados bem diferentes das artistas, indo da celebração da vitória até temas mais sérios. Na música “Bonvivant”, MC Ktrine, Cute Shawty e Jovem MK falam sobre a autoestima presente em cada comunidade, sobre a produção de IamLopes. Já a faixa “Brincadeira dos Bico de Farda” traz um clima mais pesado, onde Maria Preta propôs uma série de denúncias contra a violência policial, dividindo o microfone com OG Lunna, Mi Maya e com produção de Iza Sabino.

Além do microfone, as mulheres também comandaram toda a parte de trás das câmeras, com a direção de Fernanda Corre Rua cuidando para que a equipe feminina ocupasse os cargos de liderança na fotografia, arte e comunicação. Batemos um papo com as MC’s e produtoras envolvidas no projeto para entender os bastidores dessa vivência. Confira a entrevista completa em nosso site. Link na bio.

MC Ktrine

NOTTHESAMO: “Bonvivant” fala sobre viver bem, celebrar conquistas e ocupar novos espaços. O que esse conceito representa para você e como ele se conecta com o momento que vive hoje?

MC Ktrine: Bonvivant é um tipo de som “amaciante de ego”. Tipo: é isso, sou mesmo, eu que fiz, eu que mando. Acho que conquistar essa autoridade é de uma potência extrema. Me sinto assim hoje em dia e, nos momentos em que venho a não me sentir, me conecto com o espírito bonvivant e me obrigo a sentir novamente.

NTS: Você participa de diferentes faixas do álbum, ao lado de formações distintas. O que essas trocas provocaram na sua escrita e na maneira como você se apresenta musicalmente?

K: Gosto de manter a identidade. Independente do som para o qual eu vou, gosto da minha presença como algo clássico, familiar e memorável. As trocas agregam de forma energética, e algumas dessas trocas de ideias foram importantes para a criação de certas rimas.

Cute Shawty

NOTTHESAMO: Como as identidades de MC Ktrine, Jovem MK e Cute Shawty se encontraram em “Bonvivant”? O que cada uma trouxe para construir a personalidade da faixa?

Cute Shawty: Acho que nós três temos audácia e atitude de nos expressar, e isso fez com que a gente se conectasse muito bem dentro do estúdio durante a construção dessa faixa e, inclusive, no Camping no geral. Eu observo que isso fez com que a música se tornasse única. Cada uma de nós trouxe seu ponto de vista sobre temas como: machismo na cena do Hip-Hop, autoestima e empoderamento, com uma linguagem diferente, mas com o mesmo nível de atitude e lugar de fala, por termos vivências parecidas.

As duas faixas em que estive presente falam e mostram muito sobre mim e a personalidade Cute Shawty, e foi bom demais encontrar outras artistas que têm similaridades musicais e de personalidades.

IAMLOPE$

NOTTHESAMO: Como você pensou a produção de “Bonvivant” para conectar três artistas com estilos próprios, preservando a identidade de cada uma e, ao mesmo tempo, criando uma unidade para a faixa?

IAMLOPE$: Foi uma coisa bem natural, na realidade. Estávamos na segunda chave e algumas já estavam comigo no estúdio naquele momento, então, a princípio, a ideia era criar uma outra estética de beat. Só que, na hora, eu comecei a sentir e fazer esse beat, e então fluiu. Elas foram curtindo muito conforme eu ia construindo na hora, e nisso a Ktrine já veio rimando; na sequência, a Cute e, por fim, a Jovem MK. Ficou aquele silêncio maravilhoso que brincamos: “Quando os MCs estão em silêncio, é porque tão canetando e vem coisa boa”, haha.

Então, naquele momento, eu senti uma vibe muito boa e só segui o coração, mantendo o que havia fluido naturalmente, e fui dando uns retoques no beat, como eu gosto, além de fazer alguns ajustes nas estruturas e pausas. Finalizamos com essa obra lindona que nasceu, cada uma com o seu estilo, dentro do meu estilo de beat, e que combinou bem mais. Foi um presente!

Maria Preta

NOTTHESAMO: Sua trajetória reúne diferentes dimensões da sua identidade: você é artista, mãe e mulher indígena. Como essas vivências atravessam sua escrita e a forma como você ocupa a cena urbana?

Maria Preta: Eu canto muito sobre minha vivência, então os atravessamentos da maternidade, da minha ancestralidade e até mesmo do meu gênero se refletem na minha arte.

NTS: Em “Brincadeira dos Bico de Farda”, você se reúne com OGLunna e Mi Maia para abordar a violência policial. Como foi transformar uma realidade tão dura em música dentro de um ambiente de criação coletiva?

MP: Essa foi minha música favorita do projeto, pois sei da importância de cantar denúncia no contexto em que vivemos. Na manhã da criação desse som, acordamos com as redes sociais bombardeadas com a notícia do assassinato de Thawanna da cidade Tiradentes, cometido por uma policial. Isso me afetou bastante e me fez chegar ao estúdio propondo que escrevêssemos algo sobre o tema. Og e Maia pularam na minha bala e a madre assinou o beat.

Todo mundo sentiu a energia que ficou no estúdio e eu espero que essa música chegue nas famílias que foram destruídas pelas mãos de quem deveria, em tese, proteger. Foi nossa forma de denunciar e prestar uma homenagem.

Mi Maia

NOTTHESAMO: Você chegou ao Camping das Minas por meio das inscrições e foi uma das artistas selecionadas para a imersão. O que essa oportunidade representou para a sua trajetória e o que você acredita ter revelado sobre o seu trabalho durante o processo?

Mi Maia: Essa oportunidade me ensinou muito, virou uma chavinha na minha mente. Me fez acreditar mais no meu potencial como artista e revelou um lado meu que eu não conhecia: mais destemida e ousada. Tenho muita gratidão por ter participado do camping. Sinto que aprendi muito e ainda tenho muito mais a aprender.

Fernanda Correrua

NOTTHESAMO: O protagonismo feminino aparece nas músicas e também na produção, fotografia, direção e comunicação. Como essa estrutura majoritariamente formada por mulheres influenciou o ambiente da imersão e o resultado criativo desta edição?

Correrua: A presença de uma estrutura majoritariamente feminina no Camping das Minas da Xaolin Records atua, fundamentalmente, como uma ação direta de oportunidade e posicionamento de mercado. Longe de buscar a criação de um "trabalho feminino", a centralidade de mulheres na produção, fotografia, direção de arte e comunicação reflete o objetivo claro dessas profissionais de ocuparem os cargos de chefia de equipe na indústria geral, inclusive liderando projetos de artistas masculinos. No ambiente da imersão e no resultado criativo desta edição, essa estrutura se traduz em um domínio técnico e intelectual capaz de compreender profundamente as narrativas visuais vigentes, utilizando a estética e a produção como ferramentas para denunciar e tensionar as dinâmicas tradicionais do mercado musical e audiovisual.

Majis

NOTTHESAMO: Depois de uma semana compartilhando referências, processos e experiências, qual encontro ou aprendizado do Camping das Minas você pretende levar para os seus próximos trabalhos?

Majis: Acredito que o maior aprendizado que tive com o Camping foi a necessidade de sempre ter, ou dar, um propósito ao que se faz. Todas as meninas criavam com a alma, pensando cuidadosamente em como suas rimas e canções iriam impactar quem as ouvisse, como se estivessem desenvolvendo algo que precisava ser dito, e não apenas comercializado.

Também entendi que nada é totalmente original, mas que um artista precisa trazer sua autenticidade, sua vivência e sua essência para aquilo que faz. Isso sempre será o que o diferencia dos demais.