Dentro das Histórias de uma madrugada, novo álbum de Carla Arakaki

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Dentro das Histórias de uma madrugada, novo álbum de Carla Arakaki.

A produtora Carla Arakaki apresenta seu primeiro projeto musical estruturado como uma narrativa que atravessa uma madrugada inteira até o amanhecer. O álbum funciona como um documento estético que traduz a vivência dos escritores urbanos e a cultura do graffiti e da pixação em São Paulo, capturando o mistério das horas em que poucos estão olhando. Um trabalho guiado pela paixão e dedicação de quem passou anos observando a cidade sob uma perspectiva marginal e autêntica.

Visualmente, cada faixa ganha desdobramentos que remetem diretamente à lógica crua e espontânea das clássicas video parts de marcas de skate icônicas, como Girl, Chocolate e Plan B. Para fazer com que o áudio conversasse com essas texturas, os beats foram processados pós-mixagem pelo produtor Tiago Frugoli no clássico sampler Roland SP-303.

Originalmente idealizado como um livro ou exposição fotográfica, o álbum evoluiu para o formato digital com o objetivo de democratizar o acesso e eternizar o registro sem limitações geográficas ou temporais. Carla utiliza sua música para exaltar a complexidade, o encaixe e a simetria única das letras da pixação paulistana, uma arte que desafia locais impossíveis e que muitas vezes encontra mais valorização em galerias internacionais do que no próprio Brasil. Batemos um papo com a produtora para entender melhor os processos e desenvolvimento do álbum, confira abaixo:

NOTTHESAMO: ⁠O álbum atravessa uma madrugada inteira até o amanhecer. De onde surgiu a vontade de narrar essa passagem do tempo como estrutura do projeto? Em que momento você entendeu que essa história precisava ser contada assim?

Carla Arakaki: A madrugada carrega esse mistério, muita coisa acontece, poucos vêem.

NTS: ⁠Cada faixa ganha um desdobramento visual que lembra a lógica das vídeo parts do skate. Como essa referência entrou no projeto e o que te interessava nesse formato como linguagem?

CA: Eu sempre gostei muito de assistir vídeos de skate nas antigas, desde a época da 411, Girl, Chocolate, Plan B, Transworld, aqui no br tinha Silly Society, Chicle. Gosto da forma espontânea de mostrar a vivência da galera que é parte fundamental do lifestyle, das texturas cruas, das edições rápidas.

NTS: Nos conte sobre o processo de utilizar a clássica Roland SP-303 na produção. O que você consegue atingir nela que era imprescindível para esse projeto?

CA: Eu pedi pro Tiago Frúgoli, o brabo das SPs, processar todos os meus beats (pós mixagem) na SP303. Ela tem um compressor específico clássico que era muito utilizado por produtores como Madlib e MFDoom, que cria uma textura meio "lo fi”, uma sujeira que eu queria que conversasse com as texturas cruas dos vídeos e que combina demais com o boombap.

NTS: Esse sampler já havia sido parte de algum outro projeto seu, ou foi algo exclusivo deste álbum?

CA: Eu tenho a SP404 mk2, que usei em algumas partes do processo de criação dos beats, mas esse é meu primeiro projeto musical.

NTS: Durante todo esse tempo documentando e registrando o mundo do graffiti, com uma tradução tão literal no álbum, existiu alguma das noites durante esses registros que serviu mais como inspiração do que outras?

CA: Não teve uma noite específica, mas quando comecei, minha ideia era usar os registros para fazer um livro e uma exposição, tanto que tenho muito mais fotos do que vídeos. Como livros são caros e exposições têm a limitação geográfica e de tempo, a ideia foi evoluindo. Eu queria que fosse um material que pudesse ser acessado por todos a qualquer tempo.

NTS: O que você via nessas noites que mais te fascinava e servia como inspiração?

CA: O Brasil provavelmente é um dos lugares que menos valoriza essa arte. Fora daqui a pixação é admirada e está em grandes museus e galerias, na parede interna das casas também. Essa é uma arte que realmente envolve paixão, dedicação e representa muito o Brasil, especialmente São Paulo. As letras são criações de cada pixador, cada um tem seu letreiro e ainda existe todo um cuidado, um encaixe, uma simetria. E tudo isso em locais que parecem impossíveis.

NTS: Os feats e as pessoas que aparecem no projeto seguem os temas abordados e parecem vir de uma convivência real. Como foi escolher quem faria parte desse universo?

CA: Eu fiz o processo inverso nesse disco, fiz os beats de acordo com os clipes e escolhi os MC’s de acordo com os beats. São pessoas que eu admiro e me inspiram, a maioria meus amigos de longa data, mas todos têm em comum saber canetar muito. Nunca vou esquecer o carinho, a atenção e a importância que cada um deles dedicou às tracks, mesmo sendo meu primeiro projeto como produtora. Foram muitos sonhos realizados neste disco.

NTS: Você sente que esse álbum traduz uma cidade/bairro específico ou uma forma diferente de observar a cidade?

CA: Eu quis contar a história de mais uma madrugada em São Paulo, sob o ponto de vista dos escritores urbanos.

NTS: Tem algo nesse projeto que você sente que só poderia ter sido feito agora, depois de todos esses anos observando e registrando essa cultura?

CA: Acho que o que fez mais diferença foi em relação à minha própria evolução nos beats, eu não queria soltar nada que eu não fosse gostar daqui a dez anos, sabe? Tive tempo de estudar áudio, testar daws, sonoridades, formas de samplear, aprender máquinas, evoluir.

NTS: ⁠Se tivesse que dar uma dica para quem está lendo, o que seria?

CA: Estude sempre, aprenda coisas novas, aprimore antigas.