Es Devlin e a construção do espaço como linguagem nos shows
A consolidação de grandes turnês nas últimas duas décadas alterou de forma direta a maneira como a música ao vivo é produzida, percebida e distribuída. O palco deixou o tradicionalismo de ser apenas uma estrutura técnica para se tornar parte central da construção de linguagem dos artistas. Dentro desse processo, o trabalho de Es Devlin se estabelece como um dos pontos mais consistentes de reorganização desse modelo, não pela escala isolada dos projetos, mas pela forma como o espaço passa a operar como elemento ativo na experiência.
A formação de Devlin não acontece dentro da indústria musical. Ela se desenvolve no teatro e na ópera britânica, com trabalhos ligados ao National Theatre e a outras instituições onde a cenografia já possui função estrutural na encenação, esse ponto define o método que atravessa toda a sua carreira.

A partir dos anos 2000, as turnês passam a ocupar uma posição central dentro da indústria, tanto em termos econômicos quanto simbólicos, as apresentações ao vivo passam a funcionar como produto autônomo, com investimento direto em linguagem visual, escala e construção de identidade.
A relação com Kanye West marca um dos momentos mais claros dessa transição. Durante o desenvolvimento da turnê Yeezus, West decide interromper o caminho visual que vinha sendo construído até então, demite seu cenógrafo para trabalhar com Devlin, que já acompanhava.

A estrutura abandona a frontalidade tradicional e passa a operar como um sistema espacial contínuo. Projeções em larga escala, volumes geométricos e deslocamento constante do artista dentro do espaço criam uma dinâmica onde a música não é apenas executada, mas inserida em um ambiente que altera sua percepção.
Esse modelo se desdobra em projetos com outros artistas que operam em escala semelhante, nos trabalhos com Beyoncé, o palco assume dimensões arquitetônicas, com estruturas móveis, superfícies de projeção e integração entre luz e material físico. A construção não busca apenas impacto visual, mas controle preciso da experiência, definindo onde o olhar se concentra, como o espaço é percebido e de que forma o público se posiciona em relação ao que está sendo apresentado.

No caso do U2, a colaboração se insere em uma trajetória de inovação tecnológica já existente, mas passa a operar com maior integração entre imagem e estrutura. Telas de LED deixam de ser superfícies independentes e passam a compor a própria arquitetura do palco, criando continuidade entre conteúdo visual e espaço físico.

Com Adele, o método se mantém, mas com outra abordagem. Em vez de ampliação extrema de escala ou movimento, o foco está no controle de imagem, luz e enquadramento. A cenografia organiza a experiência sem depender de excesso de elementos, o que evidencia que o trabalho de Devlin não está ligado a um estilo visual específico, mas a uma forma de estruturar o espaço.

E outro de seus relembrados trabalhos foi a turnê Bangerz de Miley Cyrus, em que o design incluiu uma entrada onde Miley deslizava por uma língua gigante, que marcou tanto seu álbum que foi considerado parte da estética da artistas aquela época, com mascotes infláveis do cão Floyd e visuais psicodélicos surrealistas, colaborando com artistas como Geoffrey Lillemon.

Em instituições como o Tate Modern e o Victoria and Albert Museum, Devlin desenvolve instalações que mantêm o foco na relação entre espaço e experiência, agora para contextos onde o público circula livremente. No pavilhão do Reino Unido na Expo 2020 Dubai, ela constrói uma estrutura que incorpora participação direta dos visitantes, integrando texto, projeção e arquitetura em um mesmo sistema.

Entretanto, antes de consolidar essa presença na música, ela já trabalhava em projetos de grande escala. Em Batman Live, baseado no universo do Batman, o desafio era criar uma cenografia que funcionasse de forma itinerante, sendo montada e desmontada em diferentes arenas ao redor do mundo. A solução envolve estruturas modulares que mantêm consistência visual mesmo em contextos variados, antecipando soluções que depois aparecem em turnês.
No encerramento dos Jogos Olímpicos de Londres 2012, o trabalho exigiu outra adaptação. O evento precisa funcionar simultaneamente para quem está presente e para quem assiste pela transmissão.

Mais recentemente, na turnê de Bad Bunny, o palco passa a incorporar elementos narrativos mais diretos, com cenários que simulam ambientes e ampliam a ideia de experiência.
Todo esse método também chegou ao Brasil, com a exposição sendo apresentada na Casa Bradesco até o dia 27 de julho. Seguindo essa mesma lógica, são seis instalações imersivas e interativas, como labirintos de espelhos e luz, que exploram identidade e coletividade, com toda a produção realizada no país. O visitante não ocupa uma posição fixa, ele percorre os espaços e interfere diretamente na forma como a experiência acontece.





