It’s dark and hell is hot: a colaboração entre JPEGMAFIA e o brasileiro DJ Ramemes

12 de ago. de 2024


Um dos álbuns de Rap mais esperados do ano saiu no primeiro dia de agosto. ‘i lay down my life for you’ de JPEGMAFIA era aguardado desde o lançamento do single ‘don’t rely on other men’, em junho. Conhecido pela produção inventiva e experimental, JPEGMAFIA surpreendeu especialmente os fãs brasileiros com a faixa ‘it’s dark and hell is hot’ que conta com a produção do DJ Ramemes.

Natural de Volta Redonda, cidade do interior do Rio de Janeiro, Ramon Henrique, o DJ Ramemes, compartilha algumas similaridades com o americano JPEGMAFIA. Considerado um dos produtores mais inventivos do funk nacional, DJ Ramemes já tinha sido reconhecido no exterior pelo crítico de música Anthony Fantano (The Needle Drop), que elogiou o álbum Sem Limites (2023). 

Foi desse álbum que JPEGMAFIA pegou a música Upa Upa Pocotó e propôs uma nova versão ao usar o beat da música e acrescentar sua rima.

Conversamos com o DJ Ramemes para entender mais sobre a colaboração com JPEGMAFIA:

NTS: Como surgiu a colaboração em ‘it’s dark and hell is hot’?  Foi meio inesperado, nada tinha sido anunciado. Alguém escutou o álbum, percebeu que você estava lá e os seus seguidores no X (antigo Twitter) começaram a te perguntar sobre.

Ramemes: Então, tudo começou pelo Instagram. Ele me seguiu no Instagram. Só que eu não conhecia o JPEGMAGIA (risos), então quando ele me seguiu eu pensei: ‘Ah, que maneiro! Um gringo me seguindo aqui, vamos seguir de volta, né? Humilde.’ 

Isso foi muito tempo atrás. E um dia desses, do nada, a minha assessora me fala que iria sair uma música minha com um rapper que ela gosta muito; o JPEGMAFIA. Eu recebi junto da galera, fui basicamentei um ouvinte também.

Ela me mandou a música e achei que ficou maneiro. Ficou bom. E então que eu entendi - algo que a galera [do X] não entendeu também - quando é sample ou produção. A música [it’s dark and hell it’s hot] não tem um sample da minha música. É literalmente ela inteira lá, por isso que estou como produtor. Sample é quando você pega um pedaço de uma música e faz alguma coisa nova a partir disso. Mas o que ele fez foi rimar em cima do beat que tem nessa música. 

Quando falei para os meus amigos que iria sair uma música com o JPEGMAFIA, todo mundo ficou ‘Caraca! Que isso?!’. O pessoal me contou que o som dele é maneiro, que ele é tipo ‘eu da gringa’ e eu pensei ‘Hã?’. Então escutei o trabalho dele e percebi que ele gosta de fazer umas coisas doidas e experimentais também. Eu não esperava, mas fazia sentido a gente colaborar. 

NTS: Isso é muito legal! Realmente fazia sentido vocês colaborarem. A base da música é inteiramente Upa Upa Pocotó, que você lançou ano passado, né?

Ramemes: Isso! Tenho uma teoria que ele viu o Anthony Fantano falando sobre o meu álbum no YouTube - que eu também não conhecia na época.

NTS: Caramba, você também não conhecia o Fantano?

Ramemes: Olha, eu não conheço nada internacional. Minhas inspirações são só o Skrillex, que é de fora, e os crias do Rio de Janeiro. Sempre que um gringo fala de mim, eu só conheço ele porque ele falou de mim, e então a galera me dá uma aula sobre quem é. 

NTS: Então você também teve uma aula de JPEGMAFIA?

Ramemes: É, eu perguntei de uns amigos e eles me deram uma aula e então entendi que o cara é gente boa. Peguei uma boa impressão dele porque ele não fez igual os outros gringos que só usaram a minha música e não me disseram nada. Ele perguntou da minha assessora se estava tudo bem usar a música, e ela que é grande fã dele ficou super feliz. E no final ficou bacana! Ouvi as músicas dele e pensei; ‘o cara é doido e eu também’, então ficou interessante.

NTS: Realmente é muito interessante porque é possível ver muito da sua essência - afinal, a base da música é literalmente sua - mas ele também deixou a marca dele. E o bordão ‘Brasil-sil-sil’ no final? Foi ideia dele?

Ramemes: (Risos) É, eu imagino que ele fez a música pensando no Brasil. E a gente [o brasileiro] é isso, né? A gente gosta de ser lembrado. Quando a gente vê qualquer coisa que vem do Brasil e que achamos legal, a gente quer que todo mundo saiba. Você não vai ver muito gringo fazendo isso, a maioria rouba e não lembra da gente. Mas só de escutar a música dele [it’s dark and hell it’s hot] você já sabe da onde ele tirou o som por causa do bordão, o que é legal.

NTS: E ele ainda colocou uma diss pro Drake no meio da música!

Ramemes: Outra coisa que eu não sabia: sobre brigas de rappers. Sei que rolou a briga, mas só conheço as brigas do Funk. Se você me perguntar qualquer coisa eu vou saber porque tirei todo o meu tempo para estudar sobre o Funk, né? É o que eu faço. Então deixei todos os outros gêneros de lado. Mas acabei entrando em uma briga contra o Drake. O pessoal já me falou os lugares que não posso mais tocar. 

NTS: No Baile do Ramemes a gente encontra todo tipo de gente. Você vê os crias, a comunidade LGBTQIA+, E-girls… E agora você chamou atenção de mais um grupo - o pessoal que curte Rap. 

Ramemes: É, como faço Funk o pessoal do Rap acaba não interagindo. Mas agora que tenho algo com o Rap, o pessoal vem atrás.

NTS: Você curtiu essa junção do Funk com o Rap?

Ramemes: Eu nunca fui de ouvir Rap. Não sou dessa brisa da letra, sempre fui de sentir a batida. Comecei a ser DJ por causa do Skrillex, que fazia Dubstep - não tem letra naquilo, né? Escuto o Mano Brown, que é grande, mas de resto eu não conheço. 

Mas gostei porque o legal do Funk - e da ideia que eu tenho dele - é isso. Posso brincar, misturar e fazer o que eu quiser com o Funk. Ele me dá essa liberdade gigantesca. Tem gente que até hoje acha que o Funk não é música eletrônica, mas ele é! Justamente porque posso misturar ele com várias coisas. E como a galera viu agora, é possível um rapper gringo rimar em cima de um beat de Funk.

NTS: Será que ainda tem algum outro gênero que você gostaria de misturar com o Funk? Se é que ainda falta algum na sua lista.

Ramemes: Acho que já fiz de tudo para falar a verdade. Tem vários perfis meus no SoundCloud escondidos, né? A galera vai descobrindo e lá tem Funk com Forró, com um monte de coisa. (risos)

NTS: Então, quem sabe, no próximo Baile do Ramemes o JPEGMAFIA vai estar por lá?

Ramemes: Já falei para a minha assessora - depois que resolvermos os contratos (risos) - acionar ele. Se um dia ele passar aqui pelo Brasil vou ter que criar uma edição do Baile do Ramemes do nada. 


Créditos: Fernanda Yasmim