Marc Ecko e a profissionalização da cultura urbana

23 de fev. de 2026


A trajetória de Marc Ecko não começa na moda e tampouco na lógica tradicional do empreendedorismo criativo. Antes de se tornar empresário, investidor e dono de uma das plataformas de mídia mais influentes da cultura jovem, Marc Ecko era um garoto de Nova Jersey obcecado por desenho. Cresceu em Lakewood, filho de um pediatra, em um ambiente distante da precariedade que marcava muitos dos territórios que formaram o hip hop, mas profundamente atraído pela energia que vinha de Nova York nos anos 1980. Quadrinhos, graffiti, skate, mixtapes e revistas independentes formaram o repertório inicial. Ele não se via como estilista, tampouco como empresário. A porta de entrada foi o desenho aplicado a camisetas, customizadas com aerógrafo no porão da casa dos pais, vendendo para amigos e pequenas lojas locais.

Quando fundou a Ecko Unltd. em 1993, o cenário em torno da cultura era específico. O hip hop já ocupava espaço nas rádios e na MTV, mas o streetwear ainda não tinha estrutura empresarial consolidada em larga escala. Havia marcas relevantes, porém poucas haviam transformado a identidade gráfica em uma estrutura corporativa sem abandonar completamente suas referências originais. A Ecko surge nesse intervalo com o rinoceronte, o que ajudaria a construir o reconhecimento por meio de tipografias inspiradas no graffiti, peças amplas alinhadas ao gosto da época e uma estratégia agressiva de distribuição.

Durante os anos 1990, a empresa cresceu de maneira acelerada. A Ecko Unltd. expandiu linhas, entrou em grandes varejistas e se consolidou como uma das principais marcas independentes de streetwear nos Estados Unidos. No auge, movimentava centenas de milhões de dólares anuais e parte desse sucesso se explica por uma leitura clara do momento cultural entre o hip hop se tornando parte da indústria de consumo americano, exportada mundo afora. A marca se posicionou como parte orgânica desse movimento, vestindo artistas e dialogando com a juventude urbana sem depender da validação da moda europeia.

Ao mesmo tempo em que expandia o negócio de vestuário, Marc Ecko investia em algo estrutural para a consolidação da cultura jovem. Em 2002, adquire a revista Complex. Naquele momento, a Complex ainda era uma publicação impressa focada em estilo masculino. Sob a direção de Ecko, transforma-se gradualmente em plataforma que articula moda, música, sneakers e comportamento. A operação editorial funcionava como extensão estratégica do universo que a Ecko ajudava a consolidar. Não era apenas cobertura cultural, era curadoria de gosto.

A Complex foi capaz de antecipar movimentos que hoje são padrão. Estruturou listas, rankings e editoriais que organizavam o consumo de uma geração que migrava do impresso para o digital. Com o avanço da internet, a marca evoluiu para plataforma multimídia, incluindo eventos e feiras que conectam marcas e público. Posteriormente, a Complex seria vendida para grandes grupos de mídia, consolidando-se como ativo estratégico dentro do mercado digital.

Outro movimento relevante na trajetória de Ecko foi a tentativa de expandir o universo da marca para além do vestuário. Em 2006, lança “Getting Up: Contents Under Pressure”, videogame inspirado na cultura do graffiti. O projeto não alcançou escala comparável aos grandes títulos da indústria, mas revelou uma preocupação em manter vínculo narrativo com a arte urbana que havia fundamentado a criação da Ecko Unltd. Em um momento em que a marca já operava em escala massiva, o jogo funcionava como reafirmação simbólica de origem.

A partir do final dos anos 2000, o mercado de streetwear passa por reorganização. A lógica de grandes logos e ampla distribuição começa a perder espaço para modelos baseados em escassez e colaborações pontuais. Conglomerados esportivos e marcas de luxo entram no território que antes era dominado por empresas independentes. Em 2009, Marc Ecko vende participação majoritária da Ecko Unltd. para a Iconix Brand Group, movimento que altera a estrutura de controle criativo e marca transição em sua atuação direta no negócio.

Mesmo após a venda, sua relevância histórica permanece vinculada ao papel desempenhado na profissionalização da cultura urbana. Ecko foi um dos primeiros empresários a entender que streetwear era um sistema econômico completo, que envolvia produto, narrativa e mídia. Ao integrar esses elementos, construiu modelo replicado posteriormente por diversas marcas e plataformas.

A Complex, por exemplo, transformou-se em referência internacional de cobertura cultural, operando hoje como conglomerado de mídia com festivais e ativações globais. A Ecko Unltd., mesmo sem o protagonismo de décadas anteriores, permanece como símbolo de uma fase específica da moda urbana e Marc Ecko ocupou um lugar fundamental enquanto a cultura de rua deixava de ser vista como marginal e começava a estruturar-se como indústria de alcance internacional.