O cinema de Agnès Varda e suas visões
12 de mar. de 2026
Quando se fala sobre a renovação do cinema europeu no final dos anos 1950, a narrativa dominante costuma girar em torno da chamada Nouvelle Vague e de nomes como Jean‑Luc Godard ou François Truffaut. O que muitas vezes fica em segundo plano é que uma das obras que ajudaram a abrir caminho para esse movimento foi dirigida por uma cineasta que sequer vinha do circuito tradicional do cinema. Em 1955, quando lançou La Pointe Courte, Agnès Varda não era formada em cinema, não frequentava cineclubes parisienses e não participava do grupo de jovens críticos da revista Cahiers du Cinéma que se tornariam diretores alguns anos depois. Seu percurso vinha de outro lugar.
Varda havia estudado história da arte e trabalhado como fotógrafa no Théâtre National Populaire em Paris. Foi ali que desenvolveu um olhar muito específico sobre enquadramento, espaço e presença humana. Agnes pensava nas imagens como observação do cotidiano. Esse ponto é essencial para entender toda a sua filmografia. Ao longo de seis décadas de trabalho, Varda construiu um cinema que mistura documentário e ficção, vida cotidiana e construção estética, sempre partindo de um gesto muito simples: olhar para pessoas comuns e para os espaços que elas ocupam.

La Pointe Courte nasceu praticamente fora da indústria cinematográfica. O filme foi rodado em uma pequena vila de pescadores próxima a Sète, no sul da France. A estrutura narrativa era incomum para a época, onde de um lado havia uma história ficcional sobre um casal em crise, dee outro, a vida real dos pescadores da região, suas rotinas, dificuldades econômicas e a relação com o mar.
Essa mistura de registros era algo raro no cinema francês daquele período. O que Varda fazia ali era aproximar dois campos que normalmente permaneciam separados, e sua ficção funcionava como estrutura dramática enquanto o cotidiano da vila aparecia parte de um estudo documental, processo que nasce do seu formato de produção. Anos depois, muitos historiadores do cinema passariam a reconhecer esse filme como uma espécie de precursor da Nouvelle Vague.

O mais interessante é que Varda chegou a essa linguagem sem necessariamente dialogar diretamente com o debate teórico que acontecia em Paris. Seu método vinha da fotografia e da observação social. O filme já revelava algo que se tornaria central em sua carreira, o interesse pelas margens da sociedade, pelos trabalhadores, pelos bairros populares e por histórias que raramente apareciam no centro do cinema comercial.
Ao acompanhar essa caminhada, Varda cria um retrato muito específico da vida urbana no início dos anos 1960. O filme registra modas, comportamentos e tensões sociais daquele período, mas evita qualquer didatismo sociológico. A cidade aparece através de encontros, conversas e pequenas observações do cotidiano.

Entre 1967 e 1969, Varda passou longos períodos nos Estados Unidos acompanhando o trabalho de seu companheiro, o cineasta Jacques Demy, que filmava em Los Angeles. Durante esse período, ela atravessou a California e começou a registrar uma série de movimentos sociais que estavam redefinindo o debate político naquele momento. O ambiente era de tensão constante, onde a guerra do Vietnã avançava, protestos estudantis se multiplicavam e o movimento negro americano ganhava novas formas de organização e linguagem política.
Foi nesse contexto que Varda chegou a Oakland em 1968 e entrou em contato direto com o Black Panther Party. Naquele momento, o grupo estava no centro da atenção nacional após a prisão de um de seus fundadores, Huey P. Newton, acusado de matar um policial durante um confronto ocorrido no ano anterior. A prisão desencadeou uma grande mobilização conhecida como campanha “Free Huey”, que reunia manifestações, comícios e encontros públicos em defesa do ativista. Varda estava na cidade quando um desses protestos aconteceu e decidiu filmar o que via ao redor. O resultado foi o curta-documentário Black Panthers, realizado praticamente como um registro direto daquele momento político.

O filme é curto, pouco mais de meia hora, mas revela muito sobre o método de Varda. Em vez de narrar o movimento de fora ou construir uma reportagem tradicional, ela se posiciona dentro da manifestação, registrando rostos, discursos, roupas, gestos e a atmosfera coletiva daquele encontro. O documentário acompanha protestos em Oakland, entrevistas com membros do partido e até um depoimento do próprio Newton, gravado enquanto ele estava preso.
O olhar de Varda para os Panteras Negras também revela algo essencial sobre sua posição como cineasta. Ela não filma o movimento como uma curiosidade distante nem como uma ameaça política, duas abordagens comuns na imprensa americana da época. Em vez disso, a câmera registra as pessoas em sua dimensão cotidiana, famílias que participam das manifestações, jovens que cantam slogans, líderes do movimento explicando suas propostas de organização comunitária e defesa civil. Ao fazer isso, o filme cria um retrato muito mais complexo do que a caricatura frequentemente construída pelo noticiário americano, que tratava os Panteras apenas como um grupo militante armado.

Essa experiência nos Estados Unidos ampliou o campo de atuação de Varda. Ela não se limitou a filmar a França ou a Europa, mas passou a observar diferentes contextos políticos e culturais, sempre com a mesma metodologia baseada na proximidade com as pessoas filmadas.
O que poderia ser apenas um retrato social se transforma em algo mais amplo. O filme examina a relação entre consumo, desperdício e criatividade, mostrando como práticas consideradas marginais podem revelar muito sobre a estrutura econômica de uma sociedade.
Outra característica constante da obra de Agnès Varda é a proximidade com as pessoas filmadas. Diferente de documentaristas que mantêm distância analítica, Varda frequentemente estabelece relações pessoais com seus personagens.

A carreira de Agnès Varda atravessou mais de sessenta anos e incluiu ficção, documentário, fotografia, instalações e exposições. Durante muito tempo ela foi descrita como “a avó da Nouvelle Vague”, um rótulo que simplifica sua importância histórica. Na prática, Varda não apenas participou daquele momento de transformação do cinema francês como também expandiu seus limites ao longo das décadas seguintes.
Seu trabalho influenciou diferentes gerações de cineastas interessados em narrativas híbridas, cinema autobiográfico e formas experimentais de documentário. Muito antes de essas abordagens se tornarem comuns, Varda já tratava o cinema como um espaço aberto onde memória pessoal, investigação social e invenção visual podiam coexistir.

Quando morreu em 2019, em Paris, deixou uma filmografia que continua sendo redescoberta por novos públicos. Em um momento em que o cinema muitas vezes se organiza em torno de fórmulas industriais e franquias globais, a obra de Agnès Varda permanece como um exemplo de outra possibilidade. Um cinema construído a partir de observação, curiosidade e um interesse constante pelas histórias que surgem fora do centro das narrativas oficiais.




