O skate além do óbvio por Cold Skateboard e Heverton Ribeiro

5 de mar. de 2026


A trajetória de Heverveton Ribeiro começa nos anos 80, quando o skate surgiu como ruptura dentro da própria casa e como afirmação de identidade. A fotografia entrou primeiro como fascínio por revistas estrangeiras difíceis de encontrar no Brasil, depois como ferramenta concreta de trabalho a partir do fim dos anos 90. São mais de duas décadas vivendo exclusivamente de registrar skate, atravessando a transição do impresso para o digital sem abandonar a ideia de que imagem precisa ter contexto, circulação e permanência.

Em 2009, depois de uma temporada trabalhando em Los Angeles para títulos como Thrasher e Skateboarder Magazine, ele estrutura o que vinha maturando desde 2005: a Cold Skateboard. Hoje, com 15 edições publicadas e registros em lugares como Mongólia, Cazaquistão, Sibéria e Amazônia, a Cold funciona como arquivo de uma geração que entende o skate como deslocamento, intercâmbio cultural e construção coletiva. O design do livro foi feito por Luan Tanaka, ligando os locais com as coordenadas e bandeiras.

Heverton nos contou a sobre origem, método, estrada, tecnologia, valores e o que ainda o mantém produzindo em um cenário cada vez mais acelerado e digital. Para saber mais sobre a história completa da revista e as viagens pelo mundo atrás do skate, confira a entrevista completa abaixo:

NOTTHESAMO: O projeto foi fundado em 2009, porém, desde quando você se interesse e vive da fotografia?

Heverton Ribeiro: O projeto foi fundado em 2009, porém eu tinha ele em mente desde 2005, e nesses 4 anos eu fui formatando ele na mente até conseguir lançar. Já o meu interesse pela fotografia vem desde os 9 anos de idade. Eu sempre gostei de ver revistas e livros, na escola eu passava as aulas olhando as fotografias, e em 1987 eu comecei a andar de skate.

A fotografia me acompanhou mas ainda de forma lúdica, nas fotos coladas no meu caderno e nas paredes do meu quarto. Nessa época nāo tinham muitas revistas nacionais e as revistas gringas a gente só conseguia nas livrarias de aeroportos. Quando eu conseguia uma revista de skate era o meu ápice de felicidade, passava meses vendo e me imaginando fotografando os skatistas ao redor do mundo.

Em 1998 eu consegui comprar uma câmera pra fazer fotos da cidade, e em 2000 eu consegui meu primeiro trabalho como fotógrafo de skate, de lá até hoje não parei mais. São 26 anos vivendo de fotografia de skate.

NTS: Quando surgiu sua relação com skate, e acima de tudo, gostar de registrar esse universo?

HR: A minha relação com o skate vem desde 1986. Lembro quando uma galera mais velha da minha rua fez uma rampa usando umas mesas de escola e se reuniram em frente a minha casa, que ficava em uma ladeira. Todos ali vestidos cada um de um jeito, fazendo barulho, vibrando com as manobras sem se importar com o que todo mundo estava pensando.

Naquele dia, eu vi aquilo e pensei: eu quero ser igual eles. Me identifiquei de cara e eu mesmo construí meu primeiro skate, minha família não gostou nada daquilo e esse é um fator importante e que me acompanhou até poucos anos atrás. Esse pré conceito deles sobre eu ser skatista, fotógrafo de skate e viver esse lifestyle existe desde aquela época até hoje.

O mundo do skate desde o início me fascinou de todos os jeitos, no lifestyle, na liberdade, na música, cinema. Na fotografia não foi diferente, pois eu já amava aquilo, amava skate e amava as revistas, foi só juntar as três coisas que eu achava mais legal no mundo e ter coragem de largar tudo e seguir esse sonho.

NTS: Como nasceu a ideia para a realização do primeiro livro? Quando foi e quais foram os marcos para você na época?

HR: Em 2008, eu estava voltando de uma longa temporada morando em Los Angeles, onde eu trabalhava para a revista Skateboarder Magazine, Thrasher Magazine e The Skateboard Mag. Nessa época eles estavam direcionando muita coisa para a parte online, matérias, vídeos de tours. Tudo que saía na revista era muito bem explorado no site, gerando renda extra, e unindo o impresso e o digital de uma forma bem legal.

Eu estava há muitos anos longe do meu filho e pensei “vou voltar, pegar toda essa experiência de mídia online e impressa que eu adquiri aqui na meca do skate mundial, trabalhando nas maiores revistas de skate do mundo e vou por o meu projeto em prática, esse é o melhor momento”.

Daí veio a ideia do projeto Cold Skateboard, que é um site de fotografia de skate e que ganharia uma extensão impressa em formato de livro, o Cold Annual Book. E fazendo assim, essa junção de mídia online e impressa que ainda era uma realidade muito longe no Brasil.

Apresentei esse projeto para a Kalunga, eles toparam e de lá até hoje já estamos com 15 livros publicados.

Temos alguns marcos importantes: o primeiro foi a parte comercial de forma inversa. Naquela época ninguém pagava por banners online no site. Você fazia um anúncio na revista e a revista te dava um banner de graça no site. Um “brinde”, já que ninguém acessava muito os sites. A Cold trouxe algo invertido, causando um choque no mercado.

Oferecíamos um ano de banners no site, e o anúncio de página dupla no livro vinha de “brinde“.  Quando o primeiro livro saiu - com poucos anunciantes - as marcas vieram e quiseram entrar, pagando o pacote anual do site. Valorizou muito a parte online, isso lá em 2009. Depois vieram os livros com QR Code embarcado em 2011, geolocalização em 2013, 3D em 2018, sempre usando tecnologia e analógico juntos.

NTS: Viajar tanto muda a forma como você fotografa skate?

HR: Muda sim. O skate hoje em dia é bem diferente do final dos anos 80. Os anos 90 foram os melhores anos da história do skate, e hoje eu vejo muitas coisas que eu já não gosto muito. Então eu sigo na estrada, sempre em busca do que me mantém motivado e inspirado, o que está cada vez mais difícil hoje em dia.

NTS: Com registros em lugares isolados como Cazaquistão, Mongólia, Sibéria, Vietnã, observamos uma história do skate sendo contada a partir de locais não tão comuns. O que você aprende ao olhar para a cultura do skate nesses lugares?

HR: A missão desse Cold Annual Book - On The Road é justamente essa: manter aceso o sonho de viajar pelo mundo fazendo o que você ama, inspirar pessoas a acreditarem e seguirem os sonhos, seja indo ali no interior de São Paulo ou até a China.

Uma viagem é sempre uma viagem, e traz uma sensação única, de liberdade e desconhecido. Além do intercâmbio cultural, que você tem indo para lugares como esses. Em muitos desses lugares as pessoas nunca nem viram skate, e muitos de nós também nunca viu um monumento histórico de Vladmir Lenin na Rússia, uma parede da Muralha da China em Pequim.

Além de ser uma bela fotografia para o livro é algo que transporta a pessoa e desperta o imaginário dela, além de gerar boas conversas entre quem vê o livro junto.

NTS: O projeto tem pilares muito claros: sustentabilidade, igualdade e respeito. Como esses valores atravessam um projeto que lida com deslocamento global e diferentes realidades sociais?

HR: Acredito que esse pilares são tão fortes e importantes, que independente de onde você esteja eles têm que valer.

Sustentabilidade tem a ver com o fato de fazermos um livro por ano e nosso papel ser todo de reflorestamento. Tentamos usar tudo reciclável, e não poluir por onde passamos.

Igualdade, tanto de gêneros, de raça, de dinheiro. Na rua somos todos iguais, no skate somos todos skatistas. Porém durante muito tempo, as skatistas não foram tratadas com igualdade, sem oportunidades, sem salários e com premiações diferentes.

Respeito é a chave de tudo e onde os outros pilares se encontram de forma natural. Na rua, se você não saber respeitar, você terá sérios problemas, e isso não importa se você está no Brasil, na Europa ou em qualquer lugar do mundo. Respeito te abre portas e permite chegar e sair de qualquer lugar com a cabeça erguida.

Basicamente acreditamos que esses pilares são de uma convivência e importância global e levamos eles para todos os lugares do mundo onde pisamos.

NTS: Você convidou fotógrafos que são referências absolutas do skate mundial. O que muda quando esse livro deixa de ser só “seu” e passa a ser uma construção coletiva?

HR: Os primeiros livros da Cold eram somente com fotos minhas, pois ainda existiam revistas e os fotógrafos colocavam as fotos nelas. Hoje em dia poucas revistas sobreviveram, e esses  fotógrafos lendários como Grant Brittain, Dave Swift e Jonathan Mehring, Michael Burnett, Anthony Acosta e Jamie Owens, foram as pessoas que mais me ajudaram quando eu cheguei em Los Angeles há 20 anos atrás, sem falar inglês e com um sonho de trabalhar nas maiores revistas de skate do mundo.

Todos eles eram editores de uma das maiores revistas e me abriram as portas, me ensinaram inglês e cuidaram de mim. Todos eles me ajudaram muito. Hoje eu tenho o meu projeto, que faz livros de fotografia, e eu poder de alguma forma retribuir um pouco de tudo que fizeram por mim lá atrás, me enche de felicidade.

Faz com que a Cold siga a escola de onde ela veio, do ditado que “juntos somos sempre mais fortes”. Ter eles com a gente é um sonho imensurável em palavras.

NTS: Em países e culturas tão diferentes, o que se repete e o que nunca se repete em relação ao skate e arte no geral?

HR: A vontade de explorar, pegar o skate e sair remando sem direção, sentindo o vento no rosto e olhando curioso para todos os lados vendo arte diferente, culturas diferentes e saber que um skate te levou até lá, isso nunca vai mudar. Os perrengues de perder voo, de ter dor de barriga, comer comidas estranhas e passar mal, estar exausto no final dos dias, isso sempre se repete.

NTS: O que você diria de mais marcante que viu pelo mundo durante todos esses anos?

HR: A muralha da China é algo Surreal, com 21 mil km. As comidas de lá também são marcantes. Aranha, besouro, morcego essas coisas.

As construções antigas de Praga são lindas demais, a estrada de carro para a Patagônia, viagem de 25 horas de balsa de Manaus até o Pará, e o projeto global DIY que fizemos com a Leviʻs na Amazônia com os índios Tuyuka.

NTS: Depois de 15 livros publicados, o que ainda te move a seguir na estrada, fotografando, editando e colocando esses projetos no mundo?

HR: Eu sempre me faço essa pergunta. Com 48 anos, 15 livros publicados, reconhecimento mundial, capas de revistas, viagens e muitos sonhos que eu sonhei lá atrás já realizados, o que ainda me motiva a entrar em uma van com 10 skatistas, e passar 20 dias na estrada? Ou pegar um voo de 15 horas com 10 skatistas e dormir em sleep bag pelo mundo? O que me motiva é o sentimento que ainda se mantém vivo dentro de mim. Arte me motiva, skate me motiva e o mundo lá fora me motiva a ir conhecer mais um pouco.

Minha busca incessante em construir algo analógico, palpável em uma era digital, e acreditar  que posso deixar um legado que pode inspirar pessoas, como as pessoas que já se foram ainda me inspiram.

NTS: Se tivesse que dar uma dica para alguém, o que seria?

HR: Eu diria: curta cada parte do processo, cuide da saúde, não tenha medo do novo e PRINCIPALMENTE aprenda a ter momentos bons sozinho.

Luan Tanaka, designer do livro, deu seu ponto de vista sobre o desenvolvimento e realização do material, junto de Heverton Ribeiro.

NOTTHESAMO: Qual a principal dificuldade no desenvolvimento de um livro como esse?

Luan Tanaka: Nossa maior preocupação foi construir por meio das imagens, um enredo capaz de abrir espaço para múltiplas sensações no imaginário do público que está diante de um livro sobre viagens ao redor do mundo. O risco de deixar tudo para trás em busca de um sonho, as amizades que nascem ao longo do caminho, a solidão, o encontro com outras culturas e tudo aquilo que uma viagem pelo mundo pode oferecer, não necessariamente de bom ou ruim, mas de valioso.

NTS: De onde surgiu a ideia em linkar os lugares com as coordenadas e bandeiras de cada lugar?

LT: A ideia de incorporar elementos gráficos às bandeiras surgiu a partir de uma série de testes, enquanto pensávamos sobre como apresentar cada país presente no livro. As coordenadas aparecem como uma tentativa de traduzir visualmente algo que é único de cada lugar e ainda assim, paradoxalmente impessoal. Uma sequência de números que identifica um ponto no mundo, mas que não deve nos separar.

Já os códigos postais carregam uma dimensão mais afetiva, eles trazem a tona a memória de discar esses números para ligar para alguém distante, ou de receber uma chamada e reconhecer antes mesmo da voz, de onde ela vem. São códigos que falam de distância, mas também de conexão e tentamos através deles criar uma ponte entre o lugar, a experiência dos skatistas e fotógrafos e quem observa essas imagens.