O verdadeiro Marty Supreme

3 de fev. de 2026

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O filme Marty Supreme, dirigido por Josh Safdie e estrelado por Timothée Chalamet, chegou aos cinemas em 25 de dezembro de 2025 como um dos lançamentos mais comentados da temporada, com um rollout que correu o mundo inteiro e claras chances de garantir uma estatueta do Oscar.

A narrativa se passa na Nova York dos anos 1950, no universo subterrâneo do tênis de mesa competitivo, e acompanha Marty Mauser, um jovem obcecado por se tornar campeão mundial, que separa sua vida entre o trabalho que não brilha seus olhos, amores, a paixão pelo dinheiro e a obsessão em se tornar grande no tênis de mesa.

Embora não seja uma biografia literal, Marty Supreme se inspira e transcorre diretamente na vida e na carreira de um personagem histórico singular: Marty Reisman, um dos maiores nomes que o esporte já viu e, possivelmente, o motivo pelo qual o tênis de mesa jamais saiu completamente da periferia do mainstream esportivo.

Reisman nasceu em 1º de fevereiro de 1930 em Manhattan, filho de imigrantes russos, e encontrou no tênis de mesa um foco e uma obsessão desde muito jovem. Aos 9 anos, após um “colapso nervoso” que ele mesmo descreveu como um ponto de virada pessoal, começou a jogar como forma de aliviar a ansiedade. Já aos 13, era campeão juvenil de Nova York e rapidamente se estabeleceu nos clubes locais como um jogador singular, audacioso, imprevisível e disposto a apostar seu próprio dinheiro.

O apelido “The Needle” vinha de sua compleição física magra e do estilo de jogo. Reisman além de atleta era um “hustler”, alguém que apostava, provocava e transformava jogos informais em espetáculos e apostas altas, muitas vezes desafiando colegas e estranhos a partidas valendo dinheiro. Essa combinação de habilidade e como um showman fez dele uma figura lendária nos circuitos de tênis de mesa dos Estados Unidos, muito antes da popularização de materiais modernos e equipamentos padronizados.

Esse aspecto de um hustler, que vive a vida entre apostas altas, perdas e ganhos, além de apresentado no filme, era parte fundamental de quem Reisman era. Marty jogou sua primeira partida valendo dinheiro em um parque aos 12 anos, perdeu, mas ficou viciado. Procurando um lugar com jogadores de verdade, ele conheceu um agiota que levou o garoto para o Lawrence’s Broadway Table Tennis Club, um antigo bar clandestino que funcionava como uma grande casa de apostas.

Enquanto outras crianças sonhavam em ser jogadoras de basquete, estrelas de cinema, Marty sonhava dia e noite com tênis de mesa. Ele corria para o Lawrence todos os dias depois da escola e ficava até uma ou duas da manhã. Quando esse comportamento começou a preocupar sua mãe, Marty foi morar com o pai.

A carreira de Reisman foi marcada por vitórias significativas, ele conquistou mais de 20 títulos importantes entre 1946 e 2002, incluindo o British Open de 1949 e os campeonatos individuais do U.S. Open em 1958 e 1960. Mesmo em uma época em que o tênis de mesa ainda lutava por reconhecimento esportivo, Reisman permaneceu competitivo por décadas, inclusive vencendo o U.S. National Hardbat Championship em 1997 aos 67 anos, um feito que o tornou o mais velho campeão nacional de qualquer esporte com raquete nos Estados Unidos.

Através de suas memórias publicadas em 1974, The Money Player: The Confessions of America’s Greatest Table Tennis Champion and Hustler, Reisman expôs não apenas seu lado competitivo, mas também sua filosofia sobre o jogo. Ele defendia com vigor alguns modelos tradicionais de como o esporte deveria ser, tornando uma de suas marcas um compromisso com uma estética tradicional, mas também um obstáculo competitivo em torneios internacionais como o Mundial de 1952, onde foi eliminado por um adversário que utilizava raquete moderna com esponja.

O filme Marty Supreme, apesar de não ser uma biografia fiel, captura o espírito dessa vida hustler. A produção teve desenvolvimento longo, iniciado em 2018, quando o cineasta Safdie encontrou o livro de Reisman e viu ali uma narrativa cheia de contradições, ambição e humor, ingredientes que moldaram o roteiro coescrito com Ronald Bronstein. Chalamet, conhecido por papéis de intensidade emocional, passou anos treinando tênis de mesa para viver o personagem, equilibrando técnica física e construção de personagem.

O longa estreou primeiro no Festival de Cinema de Nova York em outubro de 2025 e foi lançado comercialmente no fim do ano, recebendo aclamação crítica e indicações em premiações importantes, incluindo fortes menções nas temporadas de prêmio de 2026. A narrativa de Marty Supreme mistura comédia e drama para explorar obsessão, busca por significado e o preço da ambição, temas que, embora dramatizados, encontram ecos na própria trajetória de Reisman, cuja vida muitas vezes transcendeu os limites esportivos e circulou em ambientes culturais tão distintos quanto esportivos.

Nem tudo, porém, é consenso. Familiares de Reisman criticaram a adaptação cinematográfica, argumentando que certas representações distorcem seu legado e o retratam de forma que não condiz com a memória que preservam do homem real. Esse debate reflete uma questão mais ampla sobre filmes inspirados em figuras reais, o equilíbrio entre verdade histórica e liberdade criativa sempre gera tensões entre memória e ficção.

No fim das contas, Marty Supreme reacende atenção para uma figura que, fora dos círculos esportivos, seria praticamente desconhecida pelo público geral. Mais do que isso, a história de Marty Reisman é uma janela para um tempo em que esportes periféricos se mesclavam com cultura de rua.