Paracine e 22 Locações: a democratização técnica do audiovisual

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Durante o último final de semana de maio e o primeiro de junho, o Projeto Paracine, em parceria com a 22 Locações, realizou a Imersão em Direção de Fotografia. Foram 4 aulas intensivas, uma turma 100% gratuita, composta majoritariamente por mulheres e pessoas negras das periferias de São Paulo.

O cronograma durante os dois finais de semana ficou dividido assim:

  • Dia 1 (30/05): Direção de Fotografia e Gaffer (Linguagem Visual e Iluminação)

  • Dia 2 (31/05): Assistência de Câmera (Foco, Lente e Manuseio de equipamento)

  • Dia 3 (06/06): Video Assist e Logger (Monitoração e Segurança de Dados)

  • Dia 4 (07/06): Simulação de Set Real (Execução prática final)

Os alunos tiveram a oportunidade de operar equipamentos de alta tecnologia de cinema, que normalmente, não teriam acesso em cursos tradicionais e pagos. Eles aprenderam e operaram sistemas de controle digital de luz, entenderam sobre Direção de Fotografia e equipamentos, monitoramento e assistência de câmeras e gerenciamento de dados. Além de mentorias através das histórias de cada professor, que também vieram de realidades periféricas, mas hoje são referências.

As aulas foram lideradas por profissionais premiados e ativos no mercado, como o Riva (Diretor de Fotografia), Smith (Gaffer), Dani de Oliveira (2 Assist. de Câmera), Bruno Ricows (1 Assist. de Câmera), Laís Teixeira (Vídeo Assist.) e Nikolas (Logger/DIT), todos eles com anos de experiência no mercado e integrados em projetos grandes.

Durante o último domingo, 07/06, o projeto transformou o espaço em um set de filmagem real. Foram 9 horas consecutivas de diária, onde os próprios alunos assumiram a direção de fotografia, operação de câmera, vídeo assist e gaffer, para rodarem uma cena profissional com equipamentos de ponta.

Em conversa com o NOTTHESAMO, alunos e professores nos explicaram um pouco mais sobre a experiência durante esses 4 dias, seus aprendizados, dicas e relatos, além do que isso pode se tornar a médio e longo prazo com a democratização do acesso. Confira abaixo:


ALUNOS

Se pudesse resumir a experiência do Paracine em uma frase, qual seria?

  • A minha experiência com o Paracine foi de resgate, poder enxergar que dentro do mercado ainda há espaço e esperança de trabalhar com o que conversa com a gente. - Nuara Santos, 26 anos, Taboão da Serra.

  • A gente fala muito sobre hierarquia no audiovisual, mas o tempo todo o projeto trouxe conversas horizontais. Isso foi uma das coisas que mais me alcançou. Troquei com todo mundo, dos professores aos alunos, dos organizadores ao pessoal da 22. De verdade, criou-se um espaço de muito carinho e cuidado uns com os outros! - Isabela Estevam, 20 anos, JD São Luis

  • Participar do Paracine pra mim foi muito gratificante, porque além de eu aumentar meu conhecimento na direção de fotografia e no mercado audiovisual em geral, eu tive oportunidade de aprender com profissionais experientes que conseguiram construir uma carreira vindo de uma realidade parecida com a minha. Isso realmente me trouxe muita confiança e um caminho de que é possível chegar longe no audiovisual, mesmo começando de baixo. - Hugo Santos, 21 anos, São Cristóvão - Rio de Janeiro , RJ

  • Essa experiência me fez acreditar que meu sonho não é distante, ele é possível. - Ana Beatriz, 24 anos, São Miguel



⁠Qual foi o maior aprendizado que você levou desses quatro dias de formação?

  • O maior aprendizado que eu levo desses quatro dias de formação é que o audiovisual é coletivo e que existem pessoas dispostas a abrir as portas para quem não nasceu em berço de ouro, poucas, mas existem. É muito importante ocupar esse espaço e aproveitar essa oportunidade. - Elizabeth Ferreira, 31 anos, Butantã

  • Nesses 4 dias aprendi muitas coisas, e fiquei fascinada também… Pois até então só tinha o entendimento sobre a fotografia mesmo. E quando vi a dimensão de um Set, e como cada coisa funcionava, confesso que foi uma chuva de aprendizado e de informações. E o maior aprendizado que levo é que o set é feito por várias mãos e várias pessoas, e que cada função tem a sua devida importância e espaço, que nada ali seria possível se não fosse o coletivo… Levo também comigo a importância de ocupar espaços e de fato ser e me sentir pertencente… E agradeço muito ao Paracine e a 22 por proporcionarem essa imersão, por transformarem esses 4 dias em algo além de técnica, e trazer momentos relevantes e reflexivos pra nós que viemos da periferia e que lutamos diariamente! de certa forma vocês me ajudaram a ter esperança e me enxergar melhor como profissional, foram 4 dias que facilmente poderia ter durado o ano todo… - Kethelyn Campos, 20 anos, Jardim João XXIII

Antes da imersão, qual era sua relação com o audiovisual e o que te motivou a participar do Paracine?

  • Eu trabalhei com audiovisual durante 9 anos antes dessa imersão, então fiz de tudo um pouco, mas sempre de forma muito independente, sem muito recurso e sem acesso a grandes produções. Além do fato de que eu não tinha estudo na área, e isso tem várias camadas. Mas a principal delas é que eu não conseguia me identificar e me imaginar em produções de larga escala. A partir da proposta do Paracine, eu vi pessoas semelhantes à mim, realizando grandes trabalhos, falando com propriedade e entendendo essa dificuldade de resistir em uma área tão elitizada. Justamente por isso que me senti motivado a participar da imersão, pelo fato de ter conseguido (finalmente) me enxergar naquele ambiente e me colocar como capaz de realizar o trabalho, auxiliando na minha confiança e autoestima, tanto pessoal, como profissional. - Rafael Tafa, 26 anos, Cohab Raposo Tavares



Qual foi o momento em que você percebeu que realmente poderia ocupar um espaço no mercado audiovisual?

  • Acessar o mercado do audiovisual é uma meta e um sonho há alguns anos e para mim esse sonho se tornou mais próximo com a Imersão de Direção de Fotografia do Paracine. Tive contato com profissionais da área que me ensinaram técnicas, trocaram conhecimento e abriram minha mente para muitas formas de agir em um set, além de me proporcionar uma vaga de teste de 45 dias em uma locadora. Aprendi, em 2 dias, uma infinidade de coisas sobre equipamentos e me fez ter mais certeza de que estou no caminho certo. Me sinto mais preparada para o mercado e para acessar a minha profissão na área. - Izamara

  • O momento que eu percebi que poderia ocupar um espaço no mercado audiovisual foi quando a galera que já estava no corre há muito tempo olhou para mim e falou "Continua, você é boa, vai longe". Eu com os meus pequenos vídeos feito com o celular... Nesse momento, eu senti um fio de esperança, sabe? Do tipo "Eu acho que dá, eu acho que é possível". - Nataly Rodrigues, 22 anos, Franco da Rocha



PROFESSORES

Você também veio de contextos periféricos e hoje atua em grandes produções. O que significa compartilhar esse conhecimento com pessoas que estão iniciando uma trajetória parecida com a sua?

  • Maturidade, acho que esse é o principal significado. Estou me colocando a frente de pessoas de grande potencial criativo que não estão procurando somente aperfeiçoar seus conhecimentos técnicos, mas também a sua postura dentro de um set de filmagem, algo que a burguesia do audiovisual usa como ferramenta de exclusão dentro para criar dificuldades de continuar a viver esse sonho que é sobreviver através da arte. O tempo, as dores, os erros e a minha força de vontade me trouxeram essa maturidade, para quando chegasse esse momento, eu pudesse ter a bagagem de colocar a minha experiência dentro da nossa linguagem periférica, trazer essa identidade aos meus. Smith - Gaffer

  • Dentro de uma enorme gratidão, busco oferecer caminhos que eu mesmo enxerguei, para que pessoas como eu consigam identificar oportunidades e brechas às quais quase ninguém está atento. - Riva - Diretor de Fotografia

  • A oportunidade de compartilhar o conhecimento de maneira gratuita e aprender um pouco com cada pessoa envolvida para mim tem grande importância. Faz a ponte entre a vontade e o acontecimento, porque vivendo em um mundo onde permanecer existindo já toma quase a totalidade dos recursos das pessoas. Não temos condições de pagar por cursos especializados, cujas mensalidades às vezes representam mais do que algumas famílias tem para passar o mês. Com uma educação mais acessível, não resolvemos as disparidades do mundo, mas nos esforçamos para dar ferramentas à quem precisa delas. - Nikolas - Logger

  • Ver iniciativas como essa acontecendo, reforça a certeza de que estamos construindo novos caminhos. Ao longo da minha trajetória, tive a sorte de encontrar profissionais que acreditaram no meu potencial, abriram portas e contribuíram para o meu desenvolvimento técnico. Mas ainda assim me sentia ilhado em muitos momentos, os assuntos e costumes eram diferentes, encontrar identificação para além do trabalho levou mais tempo. No início da carreira, senti falta de conexões baseadas em referências, valores e formas de enxergar o mundo semelhantes às minhas. Com o passar dos anos, fui encontrando diretorxs de fotografia e pessoas de outros departamentos nos sets de filmagem que se aproximavam do que eu considerava esteticamente interessante aliado as vivências reais, pessoas interessadas em produzir imagens que carregassem significado, intenção e propósito. Essas conexões fizeram toda a diferença na minha formação profissional e pessoal. Por isso, é inspirador acompanhar o surgimento de coletivos que promovem formação técnica de forma gratuita. São movimentos que fortalecem trajetórias, apuram o olhar e ampliam perspectivas para que mais pessoas ocupem espaços de liderança e contem suas próprias histórias no cinema brasileiro. - Bruno Ricows - 1 assist. de câmera



Se pudesse deixar uma mensagem para quem sonha trabalhar com cinema, mas acredita que esse mercado não é para pessoas da sua realidade, qual seria?

  • Estude. A nossa educação de rua já nos fez vencedor, a nossa educação acadêmica vai nos manter no pódio. Isso serve para os workshops, oficinas, cursos gratuitos, imersões, tudo o que estive ao nosso alcance. Não é só a faculdade quem determina que você é capaz de fazer, é a sua força de vontade de aprender, é o quanto você acredita que vai conseguir executar aquele projeto, é a sua busca incessante em melhorar a si mesmo. Entenda também que existe pessoas boas que vão entrar no seu caminho, que nunca tiveram a oportunidade que você teve, mas elas tem o conhecimento que vai mudar a sua vida, aprenda com elas e quando o seu nome estiver lá no alto, não se esqueça de quem você é. - Smith - Gaffer

  • A realidade só se torna concreta quando você decide construí-la. A sensação de estar avançando nasce junto com a preparação para as grandes oportunidades que estão por vir. - Riva - Diretor de Fotografia

  • Procure construir uma carreira sólida, sempre se atualizando e embasando ao máximo em conhecimento. Você vai, de fato, depender tanto da sua aptidão técnica quanto do networking, garanta o que tá ao seu alcance. Tudo é coletivo. - Nikolas - Logger

  • Tudo tem o seu tempo. Se você deseja entrar nesse mercado, já está um passo a frente. Tem um sonho e algo pra acreditar, então não desista. Tenha a mente aberta, estude, vá aos festivais, nas feiras de equipamentos, nas oficinas, assista filmes, pergunte e troque ideia com quem admira, se comunique e abra caminhos. Conheça e transite por todos os cenários possíveis, mas nunca esqueça a sua essência. A parte técnica todos podem aprender, o seu diferencial será sua personalidade e atitude, então não queira ser cópia dos outros. Esse é o salve. - Bruno Ricows - 1 assist. de câmera


Fotos por @sarahcatherjne