Por trás da trilha sonora de “O Agente Secreto”, com os irmãos Alves

26 de fev. de 2026


A trilha de O Agente Secreto nasceu de um repertório que antecede o próprio cinema. Tomaz Alves e seu irmão Mateus, responsáveis pela trilha, cresceram entre filmes clássicos exibidos em casa, do cinema mudo às narrativas que moldaram sua percepção de imagem e som. Além disso, principalmente o impacto de Chico Science & Nação Zumbi e toda a cultura recifense dos anos 90. A partir dali, o elo com a cultura pernambucana deixou de ser apenas geográfico e passou a estruturar identidade musical.

A aproximação com @kleber_mendonca_filho já vinha de trabalhos anteriores, incluindo Bacurau, experiência que ampliou a dimensão internacional da dupla e consolidou um diálogo orgânico dentro do cinema pernambucano contemporâneo. Em O Agente Secreto, a trilha foi pensada como comentário paralelo às imagens, com o piano ocupando papel central, funcionando como fio condutor que atravessa a narrativa ambientada no Recife do fim dos anos 1970.

Mais do que ambientação de época, o trabalho carrega vivência direta da cidade. Para os dois, compor sobre Recife não exige construção artificial, mas reconhecimento de memória, paisagem e cotidiano. A trilha de O Agente Secreto nasce de um repertório que antecede o próprio cinema. Tomaz Batemos um papo sobre a construção da trilha, a vida no Recife, a aproximação com Kleber Mendonça e tudo que girou no entorno do filme, confira a entrevista completa abaixo:

NOTTHESAMO: Antes do cinema e das trilhas, quem eram vocês dois? Que referências, sons ou contextos moldaram vocês antes da música virar caminho?

Tomaz Alves: Minha relação com o cinema vem desde a primeira infância. Algumas das minhas memórias mais antigas são os filmes de Chaplin, Laurel and Hardy. É curioso pensar nisso agora, mas meu primeiro contato com o cinema foi o cinema mudo. Eu era uma daquelas crianças que achava que antigamente o mundo era em preto e branco. Então, desde muito cedo, eu já tinha um contato constante com histórias sendo contadas a partir de imagens, muito por conta dos filmes que meus pais assistiam e mostravam pra gente.

Mateus Alves: Desde criança estou acostumado a ouvir muita música pois meu pai tem uma coleção gigante de Música de Concerto, Jazz e Música Brasileira. Sem contar que tanto ele como minha mãe são cinéfilos, ou seja, eles sempre levaram eu e meu irmão pro cinema desde cedo. Tomaz é quatro anos mais velho que eu, então também ouvi muita coisa por tabela que ele colocava a exemplo de Beatles, muita Música Brasileira, Caetano, Gil, Gal Costa, João Gilberto etc, e também muita Black Music. Essa escuta mais passiva, digamos, durou até meus 12, 13 anos mais ou menos - apesar que sempre ouvi muita coisa por conta própria também como Nirvana e essas bandas do começo da década de 1990, graças a MTV Brasil. No entanto, tudo mudou quando eu tinha uns 13 anos e fui pro meu primeiro show ao vivo, por volta de 1995. A banda se chamava Chico Science & Nação Zumbi. Virei mangueboy instantaneamente e curiosamente este ano estou realizando um trabalho com eles celebrando os 30 anos do Afrociberdelia onde eles tocam o álbum na íntegra ao lado de uma orquestra sinfônica, eu escrevi as orquestrações. Voltando para 1995, minha vida musical a partir dali tomou novos caminhos e passei a ter uma identificação muito forte com a Música Pernambucana e a Cultura Nordestina como um todo, começando inclusive a sonhar em ser músico profissional. Como escolher ser músico - na verdade “ser escolhido” - é algo complexo, considero que comecei a me tornar músico mesmo a partir de 2006, quando entrei pro curso de Música na UFPE - antes perambulei por alguns cursos de exatas. Depois de concluir um mestrado em composição na Royal College of Music, em Londres, em 2013, passei a atuar constantemente na área de Música para Cinema.

NTS: Em que momento vocês perceberam que o som não era só mais um interesse comum, e sim algo para evoluir profissionalmente?

T.A: Eu tento ainda hoje manter uma relação pessoal e lúdica com o som e a música. Porque, para mim, a partir do momento em que eu me relaciono com a música como trabalho, eu perco o interesse. A ideia de trabalho não anda bem com a vontade de se expressar e ser criativo, pelo menos, na minha experiência. Eu trato minha atividade como uma espécie de ofício, movida por uma obsessão saudável por desenvolver ideias e vê-las tomar vida própria. Então, respondendo a pergunta, só bem recentemente eu comecei a aceitar que existe um caminho profissional na coisa de fazer música para cinema, mas não porque eu tenha tomado a decisão de me profissionalizar. O que aconteceu foi que os próprios filmes em que eu trabalhei foram me comprovando que, no fim das contas, eu trabalho com cinema.

NTS: Como surgiu a aproximação com o Kleber Mendonça Filho, ainda no processo de Bacurau? O que aquela experiência ensinou pra vocês sobre trilha e cinema?

T.A: O convite para trabalhar em Bacurau partiu tanto de Kleber como de Juliano Dornelles, o outro diretor do filme. Nós já tínhamos trabalhado outras vezes com Juliano, então pareceu natural que a gente participasse daquele longa. Foi muito bom fazer parte de Bacurau porque o filme teve uma boa jornada e entrou no imaginário de muita gente. É sempre enriquecedor, como aprendizado mesmo, fazer parte de uma produção grande e que faz um bom público.

M.A: Sem contar que sempre tivemos vários amigos e amigas em com um e nos encontrávamos em noitadas etc. Eu, particularmente, trabalhei com Kleber já em “Aquarius”, licenciando algumas músicas de um álbum que lancei em 2012. “Bacurau” foi meio que uma sequência natural. Juliano Dornelles, o outro diretor do filme, é amigo nosso até há mais tempo que Kleber, então considero toda essa história parte de uma coisa meio “orgânica-geracional” do nosso cinema aqui em Pernambuco. “Bacurau” acho que foi bem o quinto longa que trabalhei, eu já tinha uma certa experiência, mas nunca um filme tinha tido tanto alcance como ele, essa foi a novidade com este filme. Passei a enxergar o mundo/mercado do cinema como algo bem mais amplo e global, fui inclusive com parte da equipe para Cannes em 2019, o que me ajudou a construir essa nova visão das coisas.

NTS: Quais foram os primeiros conceitos sonoros que vocês imaginaram para o filme? Existia um clima definido desde o início ou isso foi se construindo com as imagens?

T.A: Nós começamos a apresentar vários temas diferentes para Kleber até que o processo de escolha foi se afunilando no momento da montagem. Nós já vinhamos escrevendo ideias desde a leitura do roteiro e já desde esse momento Kleber sugeria algumas referências, principalmente de trilhas de filmes estadunidenses e italianos dos anos 1970. Muitos thrillers políticos, entre eles. Daí o processo foi sendo desenvolvido a partir dessas referências e também dos primeiros temas que foram apresentados e entraram no filme, como o tema melódico do reencontro do pai com o filho e o tema da perna sendo extraída do tubarão.

M.A: Em “Bacurau” lembro que Kleber e Juliano convidaram a gente para assistir um corte que ia até a metade do filme. Ficamos bastante impactados com o visual etc e percebemos que a música “Bichos da Noite”, que toca na agora antológica cena do funeral no começo do filme, tinha uma força muito grande. Começamos a compor a partir dessa faixa. Durante o processo novas ideias foram naturalmente surgindo e lembro que eu e meu irmão fizemos uma divisão de trabalho onde ele ficou mais focado no núcleo dos personagens gringos e eu na vila Bacurau e seus moradores. Entretanto, sempre é natural as coisas se misturarem num processo como esse e hoje em dia tenho até dificuldade de lembrar quem fez o quê.

Em “O Agente Secreto” começamos a trabalhar bem cedo, quando o pessoal ainda estava filmando. Inclusive visitamos o set alguns dias pra sentir a energia da coisa. Produzimos muitos temas desde então, mas foi no processo de edição que a coisa começou a afunilar. Kleber passou a nos dar várias indicações como a vontade de ter o piano como instrumento central da trilha e outros conceitos também. Ele falava muito da trilha original como uma “crônica", algo que andasse em paralelo ao filme, uma trilha meio atemporal. Como as canções escolhidas por ele pro filme já são da época em que se passa o enredo, ficamos a cargo dessa trilha-comentário, muitas vezes “escondida” mas que ajuda a tecer a trama do filme.

NTS: Em quais cenas a trilha exigiu mais cuidado ou revisão?

T.A: Para falar a verdade, em todas elas o cuidado foi especial. Algumas cenas nós escrevemos a música especialmente sincronizada com a imagem, como o reencontro do pai com o filho e a perna sendo extraída do tubarão. Já em outras, Kleber e os montadores escolhiam temas que a gente vinha produzindo, e eles mesmos achavam o melhor momento de encaixe, tanto em termos de temática como de ritmo e sincronia.

M.A: Não lembro exatamente de uma cena específica onde tivemos mais trabalho. Talvez a da perseguição a Seu Alexandre por se tratar de uma cena longa.

NTS: Qual foi o sentimento em produzir uma trilha para um filme que conta sobre o lugar em que vocês nasceram e viveram? Quanto da infância ou de lembranças foram colocadas no trabalho?

T.A: Foi uma experiência ao mesmo tempo muito forte pessoalmente e também muito natural e orgânico porque, no fim das contas, sendo de Recife, nós não precisávamos pensar demais sobre o que é ser daqui. Isso já vinha naturalmente por conta de nossas experiências de vida. Mas é claro que era sempre emocionante ver as imagens de Recife sendo recriadas para aquela época do fim dos anos 1970 e começo dos 1980. Eu nunca teria imaginado trabalhar em um filme que me levasse às sensações de estar andando com meus pais pelo centro da cidade quando eu era criança.

M.A: Como falei na primeira resposta, o Movimento Mangue me conectou fortemente com o lugar onde nasci quando eu tinha ainda uns 13 anos de idade. Vejo o Cinema Pernambucano, principalmente a partir de “O Baile Perfumado”, até mesmo como uma continuidade do movimento. Então, pelo menos pra mim, é tudo muito natural e contínuo. A minha própria pesquisa musical é focada em grande medida nos sons daqui, então não vejo muita divisão entre o meu trabalho e minha cidade e estado natal. Me considero, na verdade, um sortudo por poder trabalhar em tantos projetos incríveis que fazem parte desse contexto todo. Sem contar que nasci em 1982, não vivi na época do filme, apesar de minhas lembranças mais antigas de Recife me trazerem imagens parecidas com a do filme. A cidade não mudou tanto entre 1977 e 1986, 1987, por exemplo, que são os anos das minhas lembranças mais antigas.

NTS: Existe alguma decisão estética na trilha que o público talvez não perceba de imediato, mas que foi central para vocês?

T.A: Difícil apontar isso, mas esse é o primeiro filme que eu faço parte em que a direção de arte e figurino são tão especiais que eu vejo cenas que se passam nas ruas do centro do Recife, e lembro dos cheiros, cores e luzes de cada um daqueles lugares. Creio que isso certamente influenciou a gente na música, ainda que num nível inconsciente.

M.A: Não consigo me lembrar de algo do tipo durante o processo de composição da trilha.

NTS: Sendo irmãos, como funciona a divisão criativa no processo? Onde vocês se encontram e onde divergem?

T.A: Cada um tem uma forma diferente de lidar com a escrita da música e também de encarar esse ofício, então nosso diálogo acontece mais no respeito a forma de cada um trabalhar num primeiro momento em que as ideias vão surgindo. Ao longo do processo, a gente vai precisando discutir o que faz sentido ou não e as ideias começam a se misturar, a tal ponto que muitas vezes fica difícil distinguir quem fez o que na música.

M.A: Nós trabalhamos juntos em “Bacurau” e “O Agente Secreto”, não somos uma dupla fixa. Costumo dizer que tenho uma relação aberta no tocante a parcerias, estou acostumado a trabalhar com várias pessoas diferentes desde sempre e acho isso ótimo. Em “Bacurau” fizemos a divisão que comentei mais acima, já em “O Agente Secreto” nós apenas produzimos em massa o que vinha na cabeça, sem pensar muito em cenas ou coisas assim. Temos muitas coisas em comum musicalmente e naturalmente várias outras não. Acredito que em “O Agente Secreto", até mais que em “Bacurau”, chegamos num resultado muito bom onde sequer lembramos quem fez o quê muitas vezes, heheh… Sempre bom lembrar a ajuda fundamental no final do processo de composição da trilha de outro compositor pernambucano chamado Piero Bianchi, que nos ajudou em questões mais pianísticas. Ele assina a “Música Adicional do filme.

NTS: O que essa obra representa na trajetória de vocês até aqui?

T.A: A gente sabia de antemão que um novo filme de Kleber já começaria a ser feito com grande expectativa do público, ainda mais estrelado por Wagner Moura, que está em um dos melhores momentos de sua carreira. Então havia a impressão de que o filme seria especial, ainda mais tendo lido o roteiro que por si só já me causou um grande impacto. Ainda assim, o tamanho da recepção foi além do que eu pessoalmente esperava, não porque o filme não merecesse, mas porque eu prefiro não me envolver em grandes expectativas mesmo. Então, acho que esse filme vai ser bom pra todo mundo que trabalhou nele porque ele meio que carrega todo mundo junto no sucesso que vem fazendo, com o público e crítica.

M.A: Eu costumava falar com alguns amigos aqui de Recife, Juliano inclusive, que esse filme ia ser duas vezes o tamanho de “Bacurau”. Porém, ele parece estar alcançando uma dimensão dez ou até mais vezes maior, algo incrível e muito gratificante! Com certeza esse trabalho está nos trazendo uma maior visibilidade e a demanda só aumenta desde que esse fenômeno começou. Não é fácil trabalhar nesse meio e só tenho a agradecer a Kleber e Emilie por sempre terem acreditado no nosso trabalho.

NTS: Se a trilha de O Agente Secreto pudesse ser definida em uma palavra ou sensação, qual seria?

T.A: Memória (dos lugares e das pessoas)

M.A: Pernambucana.