Seagull 1963: o cronógrafo militar chinês

24 de fev. de 2026


O Seagull 1963 não nasceu como uma peça de voltada ao colecionismo, ao luxo ou a movimentos suíços tradicionais voltado ao mercado internacional de entusiastas. O relógio surge dentro de um projeto estatal específico da República Popular da China, em um momento em que o país buscava autonomia tecnológica em áreas estratégicas. Uma pequena parte do que estaria por vir em relação a estruturação da indústria chinesa.

A história do modelo está diretamente ligada à fundação da Tianjin Seagull Watch Group e ao chamado Projeto 304, iniciativa governamental iniciada no começo dos anos 1960 com o objetivo de desenvolver um cronógrafo mecânico para a Força Aérea do Exército de Libertação Popular.

No início da década de 1950, a China praticamente não possuía indústria relojoeira moderna estruturada. A fundação da fábrica de Tianjin, em 1955, foi parte de um esforço mais amplo de industrialização, com foco inicial em produzir relógios básicos de pulso para consumo interno, reduzindo dependência de importações de mercados como o japonês e suíço. A virada ocorre quando o governo identifica a necessidade de equipar pilotos militares com cronógrafos confiáveis, capazes de auxiliar em cálculos de navegação e medição de tempo de voo.

O Projeto 304 estabeleceu as metas de desenvolver um movimento mecânico cronógrafo doméstico em curto prazo, com precisão e resistência adequadas ao uso militar. Para isso, técnicos chineses adquiriram maquinário e documentação relacionados ao movimento suíço Venus 175, produzido pela fabricante Venus nos anos 1940 e 1950. Quando a Venus decidiu encerrar a produção do calibre, parte do maquinário foi vendida para a China. Esse movimento serviu de base para o desenvolvimento do calibre ST19, adaptação chinesa que manteria arquitetura clássica de cronógrafo com roda de colunas.

A roda de colunas é elemento central na construção tradicional de cronógrafos mecânicos, responsável por coordenar as funções de iniciar, parar e resetar o contador. O fato de o ST19 incorporar essa arquitetura elevou o padrão técnico do projeto chinês desde o início. Em 1963, os primeiros protótipos foram apresentados à Força Aérea, totalizando algumas centenas de unidades produzidas para testes e uso oficial.

O design do modelo original era funcional e legível, de mostrador claro, geralmente creme ou prateado, com dois submostradores e ponteiros azulados, além da estrela vermelha aplicada abaixo das 12 horas, referência simbólica ao regime socialista. No mostrador, a inscrição “中国制造” indicava fabricação chinesa. O diâmetro girava em torno de 37 a 38 milímetros, compatível com padrões da época.

Durante décadas, o modelo permaneceu relativamente obscuro fora da China. A indústria relojoeira chinesa seguiu produzindo em larga escala, mas voltada majoritariamente ao mercado interno e a segmentos de baixo custo para exportação. A revalorização do Seagull 1963 ocorre apenas nos anos 2000, quando entusiastas de relojoaria mecânica começam a redescobrir o ST19 como movimento cronógrafo acessível e de qualidade. Em um mercado dominado por cronógrafos suíços de preços elevados, o Seagull surge como alternativa mecânica com herança histórica concreta.

Tianjin Seagull passa a produzir reedições inspiradas no modelo militar original, mantendo elementos como o mostrador de dois registros, a estrela vermelha e o layout clássico. Ao mesmo tempo, outras fábricas chinesas também começam a montar versões semelhantes utilizando o calibre ST19, o que gera debate recorrente entre colecionadores sobre autenticidade e linhagem direta com o projeto militar original.

Para colecionadores mais rigorosos, essa distinção é relevante. Para o público mais amplo, o que importa é a combinação entre história documentada, mecânica tradicional e o preço competitivo.

A consolidação do modelo como objeto de culto também se relaciona com o interesse crescente por relojoaria fora do eixo suíço tradicional. O mercado passou a valorizar histórias alternativas, especialmente aquelas ligadas a contextos militares ou industriais específicos. O Seagull 1963 carrega narrativa singular em um produto que não é de marca centenária europeia, mas resultado de esforço estatal em meio à Guerra Fria, quando a China buscava afirmar independência tecnológica.