WTNB 2025: A Moda como Jornada de Reconexão e Autoconhecimento
A primeira coleção de 2025 da marca convida à reconexão com a natureza e o autoconhecimento, inspirando-se no conceito japonês de Shinrin-Yoku (banho de floresta). A marca propõe uma experiência sensorial e reflexiva, estimulando um contato profundo com os elementos naturais. A designer Ana Clara Watanabe resgata suas raízes nipônicas ao incorporar filosofias como Hansei (reflexão) e Kaizen (melhoria contínua), traduzindo-as em estampas orgânicas, alfaiataria tradicional e na técnica do Sumiê, onde a beleza nasce das imperfeições e do momento presente.

Cada peça da coleção é fruto de um processo cuidadoso, valorizando materiais sustentáveis, upcycling e técnicas artesanais como Sashiko e Boro. Essa abordagem respeita a ancestralidade e projeta um futuro mais consciente, tornando o vestuário um meio de expressão e transformação.

A WTNB reforça sua identidade ao unir sustentabilidade, arte e filosofia japonesa, proporcionando ao público uma jornada de equilíbrio e introspecção por meio do design. Além disso, a WTNB anuncia uma colaboração anual com fibras sustentáveis.
Conversamos um pouco com Ana Clara sobre esse novo momento da marca. Confira abaixo:
Qual foi o principal ponto de inspiração para a coleção 2025 da WTNB?
O insight para o tema surgiu quando esbarrei no livro “Shinrin-Yoku: The Japanese Art of Forest Bathing”, do professor Yoshifumi Miyazaki, durante uma viagem que fizemos em setembro do ano passado à convite de um exposição internacional com peças da WTNB na embaixada brasileira. Estava passando por um período de ansiedade, tínhamos feito um desfile que teve uma super repercussão no meio e destaque midiático e junto vem o peso de sustentar as expectativas. Na época também estava assinando duas collabs com grandes marcas, enfim, coisas relevantes e positivas acontecendo, mas aquele medo constante de não estar entregando o suficiente era constantemente presente. Sempre fui muito workaholic e isso já me custou muito - tive dois burnouts, já adoeci de tanto trabalhar. Amar o que fazemos é algo muito especial, mas também muito perigoso principalmente quando o “algo” que nos pertence nos consome. Iniciei a leitura do livro no vôo de volta para São Paulo. Entender sobre os diferentes tipos de imersões nas florestas ao redor de Tóquio que Miyazaki analisou em seus experimentos a fim de auxiliar no tratamento de transtornos como ansiedade e depressão me fez entender que o pouco de contato que eu tivesse com a natureza poderia me ajudar a ter mais serenidade em tudo aquilo que crio. Com a entrada de 2025, meu objetivo era, para além da expansão da WTNB, lidar com os novos passos da maneira mais saudável possível. Por ter parte da nossa produção concentrada em Pindamonhangaba, minha cidade natal no interior do estado, me lembrei que a família do meu pai tinha um sítio, um espaço que meu ditchan comprou quando veio para o Brasil e que está na família durante todos esses anos. Minhas idas para lá, além de terem o intuito de visitas nos ateliês, passaram a ter mais um motivo: ir para o sítio e entender como eu poderia usufruir daquele espaço cercado por árvores para respirar, pensar e criar em um outro tempo. A partir disso, fui lendo e conhecendo outras filosofias que incorporaram muito bem ao processo que estava passando, como o Hansei e Kaizen, que falam sobre a autorreflexão e melhor contínua, o Boro e o Sashiko, que são técnicas de reparo de peças, conservando sua estrutura original e trazendo beleza aos reparos. Tudo isso fazia muito sentido com o que eu queria para a minha empresa: uma marca alinhada com o tempo da natureza, que a partir de um processo de autoanálise entendeu o que poderia funcionar ou não, demonstrando suas fraquezas e melhorando, a partir de ajustes diários.

Quais técnicas japonesas foram incorporadas ao design da coleção e como elas influenciam o resultado final?
A primeira técnica aplicada foi Shinrin-Yoku, por conta delas migramos parte do nosso ateliê para o sítio em Pindamonhangaba. Lá, demos início ao processo de desenvolvimento de estampas com a natureza que nos cerca, e também ao estudo de Kanjis intuitivos pintados com sumiê. Depois, trouxemos o Boro e o Sashiko para o nosso estoque de tecidos de alfaiataria, desenvolvendo produtos que fossem um grande manto de retalhos costurados entre si, com inúmeros pespontos atravessando as peças e retomando ao processo que a WTNB trouxe desde o início, o UPCYCLING. Como estamos falando sobre Kaizen e Hansei também, todo o material utilizado na primeira coleção desse ano foi pensado para trazer conforto e respirabilidade para a pele, além do design amplo e referências de alfaiataria que já são signature da marca, confeccionados em denim e misturas de linho da Canatiba Têxtil feitos com fibras TENCEL™ Liocel.

De que forma a sustentabilidade foi trabalhada no desenvolvimento das peças?
Além de darmos continuidade no trabalho que já fazemos há dois anos em Pindamonhangaba, usando a mão de obra da cidade em nossas produções e priorizando artesãs, modelistas e costureiras mulheres, os tecidos da coleção produzidos pela Canatiba com as fibras sustentáveis TENCEL™️”, são produzidas pelo Grupo Lenzing. As fibras TENCEL™ Liocel são desenvolvidas com pelo menos 50% menos emissões de carbono e consumo de água, representando uma matéria-prima de baixo impacto ambiental, obtida a partir de fontes de madeira controladas ou certificadas. Nesse drop, tivemos o reaproveitamento de quase 60% dos descartes têxteis, transformando-os em um grande retecido de retalhos, no qual nossas peças foram confeccionadas.

Como a filosofia japonesa influencia a identidade da WTNB e suas criações?
A minha origem japonesa já tinha uma grande influência no design dos produtos da WTNB, e hoje poder ampliar esse conhecimento ancestral e trazê-lo para o dia a dia da empresa tem sido um grande aprendizado. Resolvemos parar e organizar nosso calendário de acordo com o tempo da natureza. Se queremos trabalhar com materiais sustentáveis, não temos como comprar aquilo que está sempre disponível. O algodão orgânico demora um tempo pra crescer e como queríamos o material para a confecção de nossas camisetas, nos conectamos com empresas que trabalham com a matéria-prima em agroflorestas. Para fazer a compra, levou um tempo. Para a fiação acontecer, a malha ser finalizada, levou mais um tempo. Todo esse tempo nos fez entender o caminho que queremos seguir, e por isso nosso primeiro drop do ano nasce três meses depois do início do ano. Foram meses de pesquisa sobre novos desenvolvimentos têxteis e processos artesanais que queremos apresentar ao longo das 4 coleções que serão lançadas em 2025, e cada uma será lançada na data que conseguimos trabalhar com o material ou confecção que queríamos. É sobre tempo. É sobre o tempo da natureza, é sobre ter calma para absorver o que nos cerca, é entender de que forma abordamos o que estamos trabalhando de forma que honre o país de origem da minha família. Hansei e Kaizen nos ensinaram a ter menos pressa para criar, e acredito que esse novo momento da WTNB seja um reflexo disso.




Fotos por Hugo Takemoto
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