“Sorrisos e Lágrimas” por Malcom VL e Qualé Sinistro

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Traduzindo as ambiguidades vividas por um jovem negro nas margens de São Paulo em um manifesto visual denso e curativo, Malcom VL apresenta o clipe de “Sorrisos e Lágrimas”, faixa que abre a narrativa audiovisual do seu EP “Pé no Chão, Mente Nas Nuvens”. Sob a direção de Qualé Sinistro, o projeto investiga os polos entre a crueza da realidade periférica e o lúdico do sonho.

A narrativa substitui a ostentação convencional por uma atmosfera contemplativa sobre ancestralidade e heranças, ecossistema completo de memórias e vivências reais. A produção do material teve a intimidade e a herança familiar centralizadas como principais elementos de linguagem, recriando em estúdio o quarto de infância de Malcolm de vinte anos atrás.

Batemos um papo com Malcolm e Qualé Sinistro sobre o desenvolvimento do projeto, as ideias por trás de cada frame e qual história o filme nos conta. Confira a entrevista completa abaixo:

NOTTHESAMO: “Sorrisos e Lágrimas” parte das ambiguidades vividas por um jovem negro em São Paulo. Quais experiências pessoais deram origem à faixa e fizeram você perceber que essas duas emoções precisavam aparecer juntas?

Malcolm VL: Já nos primeiros segundos da música eu falo sobre um episódio muito frustrante em que passei. Logo aos 5 anos de idade eu conheço o racismo escancarado. Tudo na minha vida sempre foi assim intenso demais, porém ao mesmo tempo que fora de casa fosse lágrimas, a música, o cheiro, o afeto todas essas coisas me confortavam muito até hoje. Estar em casa tem essa sensação de estarmos vivos.

NTS: O clipe foi gravado na casa da sua mãe e reúne fotografias, objetos e símbolos reais da sua trajetória. Como foi transformar um espaço tão íntimo em cenário e compartilhar essa parte da sua história com o público?

M: De fato nós não gravamos na antiga casa da minha mãe mas a equipe de direção de arte e cenografia transformou um cômodo vazio na minha infância de 20 anos atrás. É a arte imitando a vida e ter a minha mãe compartilhando esse momento comigo foi o ciclo fechando e a confirmação de que valeu a pena todo o esforço e tempo dedicado por eles em mim.

NTS: Você fala sobre a necessidade de organizar o próprio ódio. Como a música e a escrita ajudam a dar forma a sentimentos que, muitas vezes, são difíceis de compreender ou expressar?

M: Quando eu paro de jogar futebol aos 15 anos, a escrita foi a minha válvula de escape para expor o que eu sentia: a raiva, a indignação a insegurança de não ser aceito, a falta. Isso me salvou de várias formas até hoje.

NTS: A ancestralidade aparece por meio da família, da religião e, principalmente, das histórias transmitidas pela fala. Que heranças você reconhece na sua música e deseja preservar por meio dela?

M: De uma família sem herança o que sobra são as histórias. Eu falo isso na letra porque é real. Tudo que eu tinha eram algumas poucas fotos, a lembrança, a música, o louvor que minha mãe ouvia. Tudo isso foi a bagagem pra essa faixa se materializar.

NTS: O título “Pé no chão mente nas nuvens” propõe um equilíbrio entre realidade e sonho. Em quais momentos da sua vida você sente que precisa manter os pés no chão e em quais se permite ir mais longe?

M: Só o fato de nascer e crescer nas margens no extremo de São Paulo, esse ambiente naturalmente te limita. Mas em casa eu sempre aprendi a sonhar, então eu nunca perdi o lúdico e o imaginativo. Na minha carreira, é assim também. Esse filme só nasceu porque eu e o Sinistro sonhamos, acima de qualquer coisa. Porém também tivemos o pé no chão, a calma pra entender como seria possível escrever essa história de fato.

NTS: “Sorrisos e Lágrimas” é o primeiro clipe do EP. Por que essa faixa foi escolhida para ganhar uma narrativa audiovisual e que novas camadas o vídeo acrescenta ao projeto?

M: Desde a primeira conversa com o Sinistro, a identificação com a faixa era unânime. Transformar ela pro audiovisual materializa completamente a faixa e sem contar que faz com que o público entre totalmente no projeto e pegue os detalhes, as referências. Eu gosto muito dessa parte.

NOTTHESAMO: O clipe parte de elementos reais da intimidade do Malcolm e avança para uma representação abstrata de sua mente. Como você construiu visualmente essa transição entre memória, realidade e conflito interno?

Qualé Sinistro: Quando ouvi a música, entendi que ele estava falando de dores que vêm desde a infância, principalmente das experiências de crescer sendo uma pessoa preta. Mas, ao mesmo tempo, eu sempre ouvi o final da música com um tom de esperança, mais pra cima. Então queria construir visualmente essa passagem entre esses dois sentimentos.
Foi daí que surgiu esse universo mais lúdico, que representa a cabeça do Malcolm. E ali entram as inseguranças, os anseios de ser artista, de ser uma pessoa criativa, de tentar entender o seu lugar no mundo. Acho que nós, enquanto pessoas pretas que trabalham com criatividade, acabamos compartilhando muitos desses medos. Então tem muito do Malcolm ali, mas também tem muito de mim.

A entrada nesse universo acontece através do grito. Pra mim, é um grito de sobrevivência, de existência. E, quando ele volta pra realidade, volta através de um suspiro, quase como alguém que acabou de sair de um afogamento interno.

Essa construção veio muito das minhas trocas com o Malcolm. De perceber que a crise de ansiedade que eu sinto ele também sente, que alguns dos nossos medos infelizmente são muito parecidos. Quando apresentei a ideia e ele curtiu pra caramba, senti que eu tinha conseguido acessar a essência da música, entender um pouco do lugar de onde ela tinha partido.

NTS: A narrativa é contemplativa e termina com Malcolm coroado como um rei. Que significado essa imagem final carrega e como ela sintetiza a trajetória apresentada ao longo do clipe?

QS: Pra mim, esse final também é uma prova de que o que a gente faz é coletivo, saca? A construção do figurino dessa cena veio muito da Mammel, que fez o styling do clipe. Foi ela quem trouxe essa proposta de um figurino mais classudo, mais elegante, e quando eu vi pensei na hora: “caraca, era isso que estava faltando”.

Porque, numa música em que ele fala que a herança são as histórias, não tinha como eu não querer construir essa memória. A imagem de um moleque preto que veio da periferia sendo coroado, colocado nesse lugar de realeza, de grandeza. E por isso também quis trazer os retratos dele com a mãe, porque essa exaltação não é só dele, é da família, da história que trouxe ele até ali.

Nunca foi sobre uma lógica de dinheiro, tipo: “agora ele ficou rico, então virou rei”. Não é isso. Ele não é coroado pelo que conquistou materialmente; ele é coroado pela história que carrega. A realeza está muito mais nesse lugar de esperança, elegância e grandeza que eu sinto no final da música.

É como se, depois de atravessar as cicatrizes da infância, as angústias e todos aqueles anseios que aparecem ao longo do filme, ele finalmente pudesse se apropriar da própria história e existir sem medo. Pra mim, a coroação encerra essa trajetória justamente nesse lugar: de reconhecer quem nós somos e poder ocupar esse lugar de grandeza sem precisar pedir licença.