As raízes do house music

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A cidade de Chicago nos anos 1970 e 1980 vivia um processo contraditório. Enquanto parte da indústria americana entrava na onda do Pop e do Rock, com bairros negros que enfrentavam desemprego, violência e abandono urbano após décadas de segregação racial, um novo movimento musical emergia dentro de clubes e porões.

Quando se fala sobre house music, muitas vezes existe uma tendência de resumir tudo à uma estética implantada após os anos 2000 e longe de suas origens. Só que o house nasce muito antes disso, como consequência de uma linhagem musical negra americana entre o gospel, soul, disco, funk e música eletrônica europeia reinterpretada por jovens negros de Chicago.

Durante os anos 1970, Chicago já possuía uma cena musical extremamente forte. A disco music crescia em clubes frequentados principalmente por pessoas negras, latinas e pela comunidade LGBTQIA+, enquanto rádios locais ajudavam a transformar DJs em figuras centrais da vida noturna. Esse ponto é importante porque existe uma leitura posterior que tenta tratar a disco music apenas como entretenimento comercial branco dos anos 70, ignorando completamente suas origens negras e queer. Antes de chegar ao mainstream americano, a disco era música de comunidade, construída dentro de espaços marginalizados que utilizavam a pista como ambiente de liberdade social.

O problema é que essa ascensão da disco também gera uma reação violenta nos Estados Unidos. Em 1979 acontece o famoso “Disco Demolition Night”, realizado justamente em Chicago, no estádio dos White Sox. O evento, apresentado como uma “destruição simbólica” de discos de disco music, rapidamente se transforma em um ambiente carregado de racismo e homofobia. Muitos pesquisadores hoje entendem aquele episódio como um reflexo direto da rejeição branca conservadora ao crescimento de uma cultura negra, latina e gay que dominava as rádios e as pistas americanas naquele período.

Enquanto grandes gravadoras abandonavam a disco music por pressão cultural e comercial, DJs de Chicago continuavam tocando aqueles discos dentro de clubes underground. Um dos nomes centrais nesse processo é Frankie Knuckles. Nascido no Bronx, em Nova York, Knuckles se muda para Chicago no fim dos anos 70 para tocar no Warehouse, clube que se tornaria um dos espaços mais importantes da história da música eletrônica. Em um período onde existia forte repressão policial, preconceito racial e criminalização da homossexualidade, lugares como o Warehouse ofereciam algo raro: pertencimento.

Musicalmente, Frankie Knuckles começa a alterar esses discos para prolongar partes instrumentais, criar loops e adaptar as músicas ao comportamento da pista. Sem acesso aos equipamentos sofisticados que existiriam anos depois, muitos DJs trabalhavam manualmente, editando fitas, utilizando baterias eletrônicas simples e misturando referências diferentes dentro do mesmo set. Aos poucos, a música começa a perder parte da estrutura tradicional da disco e ganha algo mais próximo ao que conhecemos do house.

O próprio nome “house” surge como derivação do Warehouse. Algumas lojas de disco da cidade utilizavam expressões como “music played at the Warehouse” para categorizar aquele som específico que começava a circular entre DJs e frequentadores. Com o tempo, o termo é reduzido apenas para “house music”.

Só que o house não é construído apenas por Frankie Knuckles. Chicago rapidamente desenvolve uma rede inteira de DJs, produtores e clubes que ajudam a expandir aquela linguagem. Ron Hardy aparece como outro nome absolutamente central dentro desse processo, que levava o som para algo mais agressivo, acelerado e experimental dentro do Music Box, outro clube fundamental da cidade.

Ao mesmo tempo, equipamentos eletrônicos começam a se tornar relativamente mais acessíveis. Máquinas como a Roland TR-808, TR-909 e TB-303, inicialmente vistas como fracassos comerciais, passam a ser compradas por produtores de Chicago justamente porque eram baratas. A limitação financeira acabou se tornando uma linguagem estética, assim como já vimos em diversas outras vertentes como no desenvolvimento do rap em Nova York, o reggae com o eletrônico em UK, entre tantos outros exemplos.

Em 1984, On and On de Jesse Saunders é lançado e frequentemente citado como um dos primeiros discos de house oficialmente prensados. Pouco depois surgem nomes como Marshall Jefferson, Larry Heard e Farley Jackmaster Funk, cada um expandindo o gênero para direções diferentes.

Existe também um aspecto profundamente político nessa história. O house surge durante o avanço do conservadorismo de Ronald Reagan, em um período marcado por cortes sociais, encarceramento em massa e aprofundamento das desigualdades raciais urbanas. Chicago sofria diretamente com desindustrialização, violência policial e abandono estrutural de bairros negros. As festas funcionavam como um local de pertencimento para aqueles que estavam sujeitos ao posicionamento estatal.

Por isso, reduzir o house apenas à diversão noturna ignora completamente sua dimensão social. Muitos clubes se tornaram refúgios para pessoas que viviam fora das estruturas tradicionais americanas. Negros, latinos, gays, mulheres trans e trabalhadores periféricos encontravam nesses espaços algo que a cidade frequentemente negava durante o dia.

No fim dos anos 80, o gênero chega ao Reino Unido e encontra outra explosão cultural dentro da cena rave britânica. Só que existe uma diferença importante nesse processo: enquanto na Inglaterra o house rapidamente se torna fenômeno comercial e europeu, suas origens negras americanas muitas vezes começam a ser apagadas da narrativa principal da música eletrônica.

Isso aconteceria diversas vezes nas décadas seguintes. O techno de Detroit, o house de Chicago e outras cenas eletrônicas negras acabariam frequentemente reinterpretadas pela indústria global como movimentos “universais”, desconectados de raça, sexualidade e território. Só que basta voltar às origens para perceber que essas músicas nunca foram neutras.

Até hoje, muito do que existe na música eletrônica contemporânea, no pop, no rap melódico e até no funcionamento dos clubes ao redor do mundo passa diretamente pelas estruturas criadas naquela Chicago dos anos 80. Só que talvez a parte mais importante dessa história esteja justamente fora da indústria.