Entre as pinturas e o cotidiano com Hester Landim

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Natural de Mauá, Hester é o exemplo de que a arte não precisa ser intocável para ser profunda. Formada em Design Gráfico, ela trilhou um caminho comum a muitos artistas brasileiros: equilibrar o trabalho formal no mercado com a paixão pela criação, até que, em 2026, decidiu dedicar-se integralmente às telas.

O que nasceu nas aulas de artes da escola e se consolidou através de processos de colagem manual, hoje se manifesta em uma pintura que recusa o óbvio. Sua obra é um contraponto necessário às narrativas que limitam a experiência periférica e preta ao conflito e à dor. Ao pintar pessoas em galerias de arte, se preparando para correr ou em momentos de introspecção doméstica, Hester devolve o direito ao cotidiano e à contemplação. Sua pesquisa bebe da moda, da arquitetura e da fotografia para elevar cenas do dia a dia ao status de obra de arte, permitindo que o público se enxergue não como espectador distante, mas como protagonista de sua própria estética.

Batemos um papo com a artista sobre suas influências ancestrais, a transição do mundo corporativo para o ateliê e os bastidores de sua próxima exposição. Confira a entrevista completa no site abaixo:

NOTTHESAMO: Primeiro nos conte, quem é Hester, de onde é e o que faz hoje em relação a arte e fora dela?

HESTER: Sou de Mauá, São Paulo, sou formada em design gráfico, mas nunca atuei na área, sempre precisei conciliar a vida de CLT e a artística. Trabalhei por alguns anos em uma loja de sneakers e streetwear, mas iniciei esse ano de 2026 trabalhando integralmente com a minha arte.

NTS: Quando você percebeu que tinha um tato artístico?

H: Foi no período da escola, nas aulas de artes que me apaixonei por esse mundo. Tive a sorte de ter uma professora que incentivava muito todos os alunos, estimulava nossa criatividade, fazíamos inúmeras releituras de obras clássicas com tinta acrílica e lápis de cor, posso dizer que foi nesse período que fiz minhas primeiras produções.

Mas por incrível que pareça, a pintura não foi a primeira coisa que me interessei na arte, sempre gostei muito de fotografia e da parte teórica, da história da arte em si, tanto que quando era mais nova não pensava em ser artista, queria muito ir para a parte de restauração ou curadoria.

NTS: Quais foram as suas primeiras produções? Talvez ainda na infância ou adolescência, longe de uma seriedade, os primeiros rabiscos que te fizeram se apaixonar pelo que faz hoje

H: Na época que tinha 13/14 anos, queria muito fazer aula de desenho mas por questões financeiras não conseguia, foi quando achei um curso de pintura em tela que na época era muito mais barato, e com incentivo dos meus pais iniciei nesse mundo da pintura.

A partir daí mergulhei nesse universo da tinta óleo e as minhas primeiras pinturas foram de paisagens que copiava de revistas de artesanatos, mas nem imagina produzir o que faço hoje.

NTS: Falando sobre o lugar em que você nasceu e cresceu, como ele influenciou a sua obra?

H: Cresci em um ambiente com pouquíssima influência de arte em si, mas sempre tive meus pais como minhas maiores referências, minha mãe sempre fez artesanato e costura, e meu pai é uma pessoa muito ativa em trabalhos manuais, cresci vendo os dois trabalharem muito, sempre se movimentando.

Fui criada muito em casa, com costumes ancestrais e sempre gostei muito de observar o dia a dia das pessoas ao meu redor, acredito que hoje em dia trago muito isso nas minhas pinturas.

NTS: O quanto os processos de colagem ainda fazem parte do modo em que você entende a pintura? Quando passou a preferir pintar sob as telas para além de criar colagens manuais?

H: Tive uma fase que deixei a pintura um pouco de lado, por estar meio perdida nesse processo todo, por isso foquei muito em fotografia e colagem manual, produzia essas colagens com fotos que eu mesma tirava ou com recortes de revistas.

Gostava de criar cenários, encaixando paisagens, figuras humanas, escolhendo a paleta de cores, criando uma imagem que só existia na minha cabeça. Foi assim que migrei (retornei) para a pintura, encontrei a forma perfeita de criar tudo que imaginava.

Por isso gosto de dizer que a colagem foi essencial nesse processo de entender a minha criatividade e me encontrar na pintura. Até hoje gosto de trazer essas referências, formando recortes de cenas/fotografias pintadas.

NTS: Sendo uma mulher preta que produz arte no geral, como você visualiza as suas produções influenciando na visualização das realidades e da autoestima do povo periférico e preto?

H: Acredito que o meu trabalho enfatiza muito em um cotidiano comum, em uma rotina ordinária, aonde tento destacar algo “belo” e artístico nesses momentos, que na maioria das vezes acaba passando despercebido. Fazendo com que o povo periférico, que ainda tem uma falta de se sentir pertencente no meio da arte/cultura possa olhar para a sua própria rotina e conseguir enxergar arte ao seu redor.

NTS: Por muitas vezes, vemos pinturas, fotos e produções que relatam apenas as lutas, sangue e conflitos. Quando sua obra toca em lados mais analíticos, demonstrando contatos cotidianos como pessoas se preparando para correr, em galerias de arte, costurando e até trabalhando, como esses recortes alteram essa percepção tradicionalista?

H: Como na resposta anterior, gosto de destacar momentos que geralmente as pessoas, pelo correr do dia a dia, acabam não percebendo como há tanta arte nesse processo todo. Por ter crescido e ainda viver em uma cidade periférica, é enxergar que existe um cotidiano que não é tão enfatizado ainda, as pessoas indo trabalhar, caminhando, fazendo a feira, vivendo suas vidas.

Que além dessa violência toda que existe sim, existem pessoas apenas tentando viver suas vidas nos seus próprios mundos.

NTS: O que te influencia hoje para realizar suas obras? São primordialmente fatos cotidianos ou há alguma pesquisa em específica sendo desenvolvida?

H: O primordial da minha pesquisa acaba sendo sim o cotidiano, tanto o meu quanto o das pessoas com quem convivo, mas gosto de trazer elementos diferentes nas pinturas, como uma paleta de cor específica, uma iluminação diferente, uma roupa ou tênis específico nas minhas personagens. Por isso a minha pesquisa vai muito para o mundo da moda, da arquitetura e fotografia também.

A moda tem uma grande influência no meu trabalho, é um nicho que sempre amei e tento de alguma forma sempre trazer nos meus trabalhos.

NTS: Nos conte mais sobre os processos atuais para sua próxima exposição. O que você busca apresentar com ela?

H: A produção atual está sendo um processo de se reconhecer novamente, trabalhei anos como CLT e no início desse ano decidi que iria focar no meu trabalho artístico, por conta disso, estou vivendo um momento muito dentro de casa, estou descobrindo e percebendo outras perspectivas dessa nova rotina.

Minha próxima exposição é sobre essa vivência de estar em um momento mais desacelerado, de observar e viver um espaço, que tanto diz sobre nós mesmo, de estar dentro de casa e enxergar o mundo lá fora mas perceber que existe um mundo dentro também.

NTS: Se tivesse que dar uma dica para quem está lendo, o que seria?

H: É de treinar o olhar para enxergar além do podemos ver, entender que cada momento vivido, existe um pouco de arte e inspiração para continuar sobrevivendo de uma forma um pouco mais leve nesse cotidiano que muitas das vezes nos consomem tanto.