Bezerra da Silva, a voz do povo
Feb 16, 2026
Bezerra da Silva, um narrador de códigos sociais, um tradutor de gírias, mediador entre o morro e o asfalto em um momento em que a indústria cultural ainda tratava a favela como caricatura ou caso de polícia. Ao completar quatro décadas, Alô Malandragem, Maloca o Flagrante, lançado em 1986, funciona como ponto de partida para revisitar a trajetória e a construção de uma persona que até hoje é confundida com o homem por trás dela.
José Bezerra da Silva nasceu em 1927, no Recife, em uma região marcada pela presença de maracatus, cocos e emboladas. O contato com a música vem cedo, de forma natural, quando ainda jovem aprende instrumentos de percussão e tem contato com o repertório nordestino tradicional. A mudança para o Rio de Janeiro acontece na década de 1940, movimento comum a milhares de nordestinos que buscavam trabalho em um eixo urbano em expansão. Bezerra viveu em situação de rua em Copacabana e enfrentou problemas de saúde nesse período, experiência que mais tarde ajudaria a moldar o olhar direto sobre a sobrevivência nas margens.

O samba entra de forma mais estruturada quando ele começa a frequentar rodas e se aproximar de compositores da Baixada Fluminense e dos morros cariocas. Antes de se tornar cantor, Bezerra foi percussionista e participou de gravações como músico de apoio. Tocou com Jackson do Pandeiro e teve contato com produtores que organizavam a cena do samba e do forró. Esse período é importante porque desmonta a ideia de que sua carreira nasce pronta com a persona do “embaixador da malandragem”. Existe um processo de aprendizagem musical, de inserção gradual no mercado e de observação de como funcionava a indústria fonográfica da época.
O primeiro disco solo sai apenas em 1969 em um compacto que logo após em 75 seria o “O Rei do Côco Vol 1”, quando ele já tinha mais de quarenta anos. A consolidação acontece nos anos 1970 e principalmente 1980, quando ele encontra um formato que o diferencia, gravar composições de autores anônimos ou pouco conhecidos, muitos deles moradores de comunidades, e assumir o papel de porta-voz dessas narrativas. Um intérprete de “partido alto de protesto”, uma expressão que ajuda a entender seu lugar, onde letras falavam de batidas policiais, cadeia, desemprego, religiosidade, jogo do bicho, traição, códigos internos da favela.

Ao mesmo tempo em que era associado à malandragem, fazia questão de reforçar que não defendia o crime. Dizia que cantava a realidade e que quem se incomodava era porque preferia não ouvir, muitas músicas foram alvo de críticas por suposta apologia, embora o próprio repertório revele ironia, denúncia e exposição de contradições sociais.
Em 1986, quando lança Alô Malandragem, Maloca o Flagrante, o Brasil atravessava um período de redemocratização recente, crise econômica, inflação alta e crescimento das periferias urbanas.

O repertório mantém a linha que consolidou Bezerra como intérprete de cronistas da favela. As faixas trazem histórias de pequenos delitos, relações atravessadas por desconfiança, personagens que vivem entre o trabalho informal e o risco constante de repressão. A produção mantém base de samba com forte presença de percussão, cavaco, violão e coro responsorial, aproximando-se do partido alto tradicional, mas com arranjos adaptados ao padrão radiofônico dos anos 80. O equilíbrio entre linguagem popular e formato comercial é um dos motivos do sucesso do disco.
É importante lembrar que Bezerra também era ligado às religiões de matriz africana, especialmente à umbanda. Ele atribuía sua recuperação de problemas de saúde e seu recomeço de vida à espiritualidade. Essa dimensão religiosa aparece em entrevistas e em algumas músicas, ainda que não seja o eixo central de sua obra. Ela ajuda a entender a disciplina e a visão moral que ele dizia ter, mesmo interpretando letras que falavam de ilegalidade. Para ele, havia diferença clara entre narrar e incentivar.
Outro ponto pouco explorado é sua relação com os compositores. Bezerra abriu espaço para autores que dificilmente seriam gravados por grandes nomes do samba tradicional. Muitos eram trabalhadores comuns, sem acesso ao circuito formal da música. Ao gravar essas composições, ele gerava renda, visibilidade e uma espécie de legitimação cultural para vozes periféricas.

Nos anos 1990 e 2000, mesmo com mudanças no mercado musical e a ascensão de novos gêneros nas periferias, Bezerra manteve público fiel. Sua imagem virou referência recorrente e sempre associada às novas gerações, como por exemplo Marcelo D2, que viveu ao lado de Bezerra durante bons anos e tinha no artista um amigo, padrinho, irmão, não só para a música, mas para as andanças da vida.
Marcelo D2 em entrevista ao NOTTHESAMO:
“Bezerra da silva foi um pai pra mim. Eu tenho ele tatuado. Colei com ele em 1995 e fiquei até 2005. Quando meu pai morreu em 98 ele botou a mão no meu ombro e falou que meu pai tinha morrido mas ele estava lá se eu precisasse de um mais velho, só de falar dele eu me emociono, ele foi um cara muito importante na minha vida.
O que ele me ensinou que talvez seja o mais importante é que, esse mundo do mainstream te dá muita fantasia, o que ele mais me ensinou é ter consciência de classe, não adianta, a gente é muito mais de onde veio do que de onde estamos, ele me ensinou a não esquecer de onde eu vim. Não adianta dinheiro, sucesso, ser famoso, eu ainda vou ser o cara do subúrbio.
Aprender isso me deu uma paz danada, pelo que eu estava lutando e estou fazendo.”

Bezerra faleceu em 2005, aos 77 anos, deixando uma discografia extensa e um personagem que atravessou gerações. Quarenta anos depois do lançamento de Alô Malandragem, Maloca o Flagrante ainda podemos observar e nos aprofundar na linguagem, os medos e as estratégias de sobrevivência de uma parcela da população que raramente teve espaço para falar por conta própria.
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