Chico Science, uma "antena" que revolucionou a música do Recife
No início dos anos 1990, Recife foi intitulada como uma das piores cidades do mundo para se viver. A depressão econômica atingia diversos níveis e espectros sociais, da saúde à produção cultural do espaço. Foi exatamente nesse vazio que um grupo de jovens articulou um dos movimentos mais radicais da música brasileira. E radical não no sentido talvez adolescente da palavra, mas sim olhando para o significado da palavra, sobre puxar algo ao extremo e a busca por mudanças profundas.
Não por acaso, o texto que oficializou esse movimento comparava a cidade a um corpo com as veias entupidas, e propunha, como remédio, injetar energia na lama. A imagem símbolo escolhida foi uma antena parabólica fincada no mangue, o global conectado à raiz mais primitiva e regional possível, ali estava Chico Science.

Francisco de Assis França nasceu em Olinda em 13 de março de 1966 e cresceu no bairro de Rio Doce, num conjunto habitacional erguido nos anos 1960 próximo a um manguezal, o mesmo ecossistema que décadas depois viraria metáfora central de sua obra. A formação musical de Chico, por mais que o músico tivesse sempre colocado suas raízes pernambucanas no centro de tudo, veio de fora: era fã declarado de James Brown, Grandmaster Flash e Kurtis Blow, e em 1984, influenciado pelos passos de Michael Jackson, entrou para a Legião Hip-Hop, um dos principais grupos de dança de rua do Recife.
Em 1987 formou seu primeiro grupo, o Orla Orbe, dedicado à black music, que não durou um ano. Na sequência veio a Loustal, banda batizada em homenagem ao quadrinista francês Jacques de Loustal, que misturava rock dos anos 60 com soul, funk e hip-hop. Em resumo, desde seu acesso aos passos de Michael, Chico jamais parou de se envolver com a arte. Sua vida toda foi dedicada aos movimentos artísticos da região e em criar sua própria leitura de tudo.

O encontro decisivo aconteceu em 1991, quando Chico conheceu o Lamento Negro, grupo afro de percussão de Olinda dedicado à educação popular na periferia, que reunia ritmos como o maracatu rural e o coco de roda. Da fusão entre a Loustal e o Lamento Negro nasceu o grupo que, batizado e rebatizado, se tornaria Chico Science & Nação Zumbi. A estreia aconteceu em junho daquele ano, numa festa chamada Black Planet, no espaço Oásis, em Olinda, com uma batida que ninguém tinha ouvido antes: guitarra distorcida, sample, funk e hip-hop por cima da percussão bruta do maracatu.
Em 1992, o jornalista e músico Fred Zero Quatro, da banda Mundo Livre S/A, escreveu e distribuiu para a imprensa o manifesto "Caranguejos com Cérebro", texto fundador do movimento que batizaria de mangue, ou manguebeat. O caranguejo funcionava como metáfora dupla: animal típico do manguezal recifense, símbolo de uma identidade enraizada na lama, mas dotado agora de cérebro, de consciência crítica e fome de mundo. O manifesto propunha explicitamente conectar "as boas vibrações dos mangues com a rede mundial de circulação de conceitos pop", e cravava a imagem que se tornaria símbolo do movimento inteiro: uma antena parabólica enfiada na lama.

O nome escolhido para a banda de Chico carregava a mesma dualidade proposital. Nação Zumbi remetia, de um lado, a Zumbi dos Palmares, o último líder do maior quilombo do Brasil colonial, símbolo maior da resistência negra no país. De outro, remetia ao sentido original da palavra em quimbundo, "nzumbi", espectro, alma que vagueia à noite, ecoando o imaginário de assombração que ronda os manguezais no folclore popular. Resistência política e espectro ancestral dentro do mesmo nome, exatamente a dobra que Chico buscava entre raiz e vanguarda.
O que tornou Chico Science uma figura revolucionária foi a recusa deliberada de tratar a cultura popular nordestina como peça intocável e ainda pertencente a outros tempos. Em 1994, o álbum de estreia "Da Lama ao Caos" cravou essa proposta em um disco que misturava maracatu, embolada, coco de roda e afoxé com elementos pós-punk, groove de funk, tudo isso sem hierarquia entre o que era "erudito" e o que era "novidade".

O manguebeat conseguiu reunir, dentro da mesma cena, três classes sociais que dificilmente se cruzavam em Recife: a origem pobre de bairros como Peixinhos, em Olinda, a classe média baixa de onde vinha o próprio Chico, e a camada mais abastada representada por companheiros de banda como Lúcio Maia e Alexandre Dengue. Em 1996, o segundo disco, "Afrociberdelia", radicalizou essa fusão, reforçando a ideia central do movimento, a tradição só sobrevive se for posta pra circular, não se for guardada.
Chico resumia essa filosofia numa frase que ficou como síntese do próprio manguebeat: só vale a diversão levada a sério. Por trás do figurino colorido, dos óculos escuros e do chapéu de palha que a banda adotou como estética, havia um projeto político concreto de reafirmar a autoestima de uma cidade inteira através da cultura, e isso funcionou. Poucos anos depois do manifesto, o Recife que era tratado como decadente virava, através do mangue, epicentro da atenção dos interessados em compreenderem o que havia de único naquele espaço.
Em 2 de fevereiro de 1997, às vésperas de completar 31 anos e prestes a desfilar no carnaval de Olinda, Chico Science morreu num acidente de carro na rodovia entre Recife e sua cidade natal, atingindo um poste depois de outro veículo fechar sua passagem. Foi socorrido por um policial que passava por ali, mas não resistiu. A perícia posterior apontaria falha no cinto de segurança do veículo, e em 2001 a montadora Fiat foi condenada a indenizar a família do músico. Ele deixava dois álbuns de estúdio, uma cena inteira reorganizada ao seu redor e uma pergunta em aberto sobre até onde aquela fusão poderia ter ido.

Sob o nome Nação Zumbi, sem o Chico, seguiu em atividade com Jorge Du Peixe assumindo os vocais, mantendo viva a proposta original décadas depois. O impacto cultural, porém, extrapolou a própria banda. Lenine, um dos grandes nomes da música pernambucana, resumiu essa dimensão numa frase direta: “Chico Science é o nosso Bob Marley”, uma comparação que fala menos de semelhança sonora e mais do papel que Chico cumpriu, o de transformar a cultura de um lugar historicamente marginalizado em linguagem capaz de atravessar fronteiras e falar por uma geração inteira.




