Coletivo Rudi transforma o sound system em ocupação cultural nas ruas de Manaus
Quando o Coletivo Rudi monta suas caixas em uma praça de Manaus, o que está sendo instalado ali vai além de um sistema de som. Há música, design, tecnologia, dança, graffiti, improviso, memória e uma maneira específica de ocupar a rua. Para Nico Ambrosio e Vitor Maia, fundadores do projeto, essa experiência parte de uma tradição nascida nas periferias negras da Jamaica, mas ganha novos significados quando atravessa o Caribe, encontra as radiolas maranhenses, as aparelhagens paraenses e chega a uma cidade marcada historicamente por diferentes fluxos culturais latino-americanos.
O Rudi começou a ser desenhado ainda em 2022 e realizou sua primeira ocupação pública em 2024, em uma praça da periferia da zona Centro-Sul de Manaus. A vontade era simples na formulação, mas complexa na execução: colocar um sound system na rua, gratuitamente, reunindo DJs, seletores e toasters e aproximando uma nova geração amazônida de uma cultura que, embora já estivesse presente na cidade, permanecia muitas vezes restrita às casas de reggae e aos salões de espaços culturais.

A história, porém, não começa com eles. Nico e Vitor fazem questão de situar o coletivo dentro de uma rede anterior de artistas, DJs e iniciativas responsáveis por manter o reggae e a cultura de sistemas de som vivos em Manaus. A presença da comunidade maranhense, os bailes de reggae das zonas Leste e Norte e projetos como Caboclos Sound System, Damas do Reggae, Quintal das Pedras e o trabalho de diferentes DJs e MCs formam parte importante desse repertório. O que o Rudi busca não é reproduzir literalmente uma tradição jamaicana, maranhense ou paraense, mas observar o que acontece quando todas essas referências encontram os bairros, as pessoas e as particularidades de Manaus.
É justamente aí que o projeto se torna também uma conversa sobre identidade amazônica contemporânea. Para Nico, Manaus carrega uma forte influência latino-caribenha, construída por movimentos migratórios e por uma paisagem musical onde salsa, cúmbia, vallenato, bolero, merengue, bachata e reggae convivem há décadas. Dentro do Rudi, essas referências não aparecem como curiosidade ou exotismo, mas como parte de uma experiência urbana concreta.
As ocupações também aproximam cenas que nem sempre dividem o mesmo espaço. Reggae, hip-hop, graffiti e batalhas de rima aparecem lado a lado, fazendo com que diferentes públicos encontrem novas linguagens a partir daquela que os levou até ali. Alguém pode chegar pela batalha e descobrir o dancehall; outro pode ir pela música e encontrar o graffiti. Essa circulação entre expressões é central para o coletivo e ajuda a transformar cada evento em algo maior do que uma festa dedicada a um único gênero.
Mas ocupar a rua em Manaus também envolve uma dimensão política. Nico e Vitor falam sobre uma cidade que ainda oferece pouco financiamento para iniciativas independentes e impõe burocracias a quem tenta usar praças, parques e outros espaços públicos para atividades culturais. Montar a radiola passa, então, a significar também reivindicar lazer e presença, questionando a ideia de que determinados lugares devam existir apenas para comércio, circulação ou públicos específicos.
Essa discussão se estende à maneira como a própria Amazônia é vista pelo restante do país. Para Nico, Manaus ainda aparece com frequência na mídia nacional por meio de imagens restritas, como se estivesse desconectada da produção cultural contemporânea brasileira. Enquanto isso, uma rede formada por DJs, artistas, fotógrafos, comunicadores, grafiteiros, produtores e coletivos desenvolve novas linguagens e formas de ocupar a cidade sem receber a mesma atenção destinada a outros centros urbanos.

Depois de mais de dez ocupações, o Rudi continua tentando transformar essa pesquisa em estrutura: manter eventos gratuitos, garantir cachês justos, construir seu próprio sistema de som e ampliar as conexões entre artistas do Amazonas e de outros territórios.
O NOTTHESAMO conversou com Nico Ambrosio e Vitor Maia sobre a trajetória do coletivo, as raízes dessa cultura em Manaus e aquilo que permanece depois que as caixas finalmente são desligadas.
NOTTHESAMO: Que experiências de vocês com a música e a rua levaram à criação do Rudi? O que já acontecia em Manaus e o que vocês sentiam falta de encontrar quando começaram, em 2024?
Nico Ambrosio: Sempre fomos apaixonados pela cultura sound system, pelo reggae e pelos bailes de dancehall, no estilo dos rolês de rua, com música jamaicana sendo tocada nos sistemas de som. Eu, Nico, sou DJ selecta desde 2018 e minha pesquisa musical é concentrada na música negra e jamaicana. Antes mesmo do Rudi existir, já discotecava dancehall feminino dos anos 1980 e 1990 com a vontade de criar um baile dedicado a essa cultura em Manaus.
O Vitor é musicista e também teve contato com a cultura sound system em experiências vividas em São Paulo e no Ceará, onde encontrou cenas mais efervescentes e diversas. A música sempre esteve presente nas nossas trajetórias, mas existia uma vontade muito específica que ainda não tínhamos realizado em Manaus, que era colocar um sistema de som na rua para tocar reggae.
As experiências em Manaus ainda ficam mais restritas às casas de reggae e aos salões de espaços culturais, mesmo com a forte atuação de bandas, cantores e DJs que mantêm essa cena viva. O trabalho de criação até chegar na estrutura do coletivo começou em 2022, e em 2024 fizemos nossa primeira ocupação em praça pública, na periferia da zona Centro-Sul de Manaus, pensando em mudar essa realidade e democratizar o acesso a esse estilo de evento.
Nosso sonho era apresentar um sound system na rua e de forma gratuita, com DJs, seletores e toasters para criar uma espécie de ‘ponte’ entre a conexão caribenha do reggae e uma nova geração amazônida que, muitas vezes, nunca teve contato com a experiência de viver a música reggae a partir de um sistema de som. O sistema de som montado é um impacto visual e cultural muito poderoso, que começa antes mesmo da música tocar e passa pelas cores, pelos símbolos pintados, pelo nome, pelo formato das caixas, a estética e até as “pedras” que são tocadas. Tudo isso constrói uma identidade e uma experiência que vai além do som, porque o sound oferece música, design, tecnologia, dança e ocupação física, tudo no mesmo espaço.

O que fazemos é partir dessa tradição que nasceu nas ruas das periferias negras da Jamaica, mas para criar uma linguagem própria a partir de Manaus e dos nossos territórios. Nós construímos uma experiência de sound system com os nossos próprios moldes, vivida por jovens negros, indígenas, periféricos e LGBTQIA+.
É uma forma de criar novas possibilidades de encontro e colocar a cultura sound system em destaque no espaço público. Também entendemos que merecemos o lazer quando falamos sobre direito à cidade, porque fazer uma ocupação gratuita na rua, em Manaus, é lidar com uma cidade que ainda sufoca iniciativas culturais independentes, oferece pouco financiamento e impõe uma série de burocracias e impedimentos para quem quer ocupar o espaço público, as praças, os parques. Por isso, cada ocupação é também uma forma de disputar esse direito e afirmar que a rua pode ser lugar de cultura.

NTS: Vocês apresentam o sistema de som como parte da cultura amazônica. Como essa relação aparece na história de vocês? Quais festas, lugares e pessoas ajudaram a formar esse entendimento?
N: Essa relação aparece na nossa história primeiro pela própria experiência de viver aqui e perceber como diferentes culturas musicais se encontram e se transformam na cidade. É visível como Manaus tem uma forte influência latino-caribenha, por causa dos fluxos migratórios de pessoas vindas do Pará, Venezuela, Guiana, Colômbia, Peru e Bolívia. É comum ouvir por aqui salsas, cúmbias, vallenatos, boleros, mambos, rumbas, merengues e bachatas, são ritmos que fazem parte da paisagem musical da cidade, assim como o reggae roots jamaicano. O reggae sempre teve uma presença muito forte, especialmente pela influência da comunidade maranhense que migrou para o Amazonas e trouxe consigo a cultura das radiolas e dos bailes de reggae nas zonas Leste e Norte. Foi frequentando esses espaços que construímos a ideia de um coletivo e, ao mesmo tempo, fomos conhecendo outras experiências de ocupação da rua e de cultura sound system. Em Manaus, Caboclos Sound System, Zulu DJ MC Fino, a equipe Damas do Reggae e o Quintal das Pedras com suas radiolas também são referências importantes para nossa pesquisa. O Rudi nasce entendendo que não estamos começando do zero. Existe uma história anterior, pessoas que já fizeram e fazem isso, e nosso trabalho também é pensar como elas podem dialogar com a nossa geração e trabalhar em conjunto para a cultura reggae na cidade.
NTS: O texto de vocês aproxima a tradição jamaicana, as radiolas do Maranhão e as aparelhagens do Pará. Dentro dessas conexões, o que dá uma identidade própria ao que acontece em Manaus?
N: Como respondi anteriormente, acredito que a identidade está justamente no encontro dessas várias culturas latino-caribenhas presentes em Manaus. O Coletivo Rudi não quer apenas reproduzir uma experiência jamaicana, maranhense e paraense de sistema de som em Manaus como se elas pudessem ser simplesmente transportadas para cá. O que fazemos é partir dessas referências, que bebem da cultura sound system, e entender o que acontece quando elas encontram a nossa cidade, os nossos bairros, nossos bailes e as pessoas que constroem essa cena. Essa relação muito própria dos territórios amazônicos com a cultura latino-caribenha faz o Rudi tentar colocar tudo isso dentro de um sistema de som, sem perder de vista as raízes jamaicanas, claro. É uma cultura que atravessou mares e rios, encontrou outros territórios e ganhou novas formas, ela sempre está sendo reinventada.

NTS: Nos encontros do Rudi, reggae, hip-hop, graffiti e batalhas de rima dividem o mesmo espaço. O que nasce dessa convivência?
N: Nasce a possibilidade de encontro entre cenas que muitas vezes existem próximas, mas nem sempre ocupam o mesmo espaço. O sound system permite que o reggae, o hip-hop, o graffiti e a batalha de rima se encontrem sem que uma linguagem precise apagar a outra. Ao longo desses anos, nós estabelecemos contato direto com referências importantes da cultura Hip Hop em Manaus, como a toaster e MC Enma Fuzinatto, organizadora da Batalha da Diversidade; e os DJ’s Zulus MC Fino e Portuga. Eu e Vitor também fazemos parte da cultura, atuando como grafiteiros, então uma coisa leva a outra e acabam se complementando nesse universo do Coletivo Rudi. Também percebemos que isso cria uma porta de entrada para pessoas que nunca tiveram contato com uma radiola ou com um baile de reggae. Às vezes alguém chega pelo graffiti ou pela batalha de rima e acaba descobrindo o dancehall, o reggae roots, a prática de fazer o toasting, que é rimar e improvisar em cima dos riddims de reggae. Outra pessoa chega pela música e encontra outras formas de expressão. Essa mistura é parte importante do que estamos construindo no coletivo.
NTS: O coletivo fala da ocupação da rua como uma forma de atuação política. Na prática, o que vocês reivindicam quando montam um sistema de som em um espaço público de Manaus?
Vitor Maia: Quando temos a oportunidade de colocar a radiola na rua, a intenção é transmitir a essência de um baile de sound system nos moldes que o Rudi acredita; com pessoas negras, amazônidas e LGBTs no palco. Existe uma ideia de que determinados espaços públicos precisam estar sempre associados ao comércio ou a determinadas formas de uso e circulação de apenas um determinado público, e queremos tensionar isso. Firmar isso é uma forma de reivindicar nossa presença nos espaços artísticos e culturais, e mostrar que também temos direito de ocupar espaços públicos reafirmando nossas identidades.

NTS: O que é necessário para manter essas ações gratuitas em uma iniciativa independente?
V: Nossas estratégias consistem em geralmente buscar recursos públicos ou privados para manter a frequência das atividades gratuitas, cachês justos para a equipe e a infraestrutura que a festa merece. Estamos tentando construir nosso próprio sound system há algum tempo, tudo que é feito no Norte do país requer dedicação em dobro, pela dificuldade de acesso a esse tipo de equipamento específico. Mas, no geral, conseguimos fazer acontecer devido a uma grande rede de pessoas e artistas, que dividem esse sonho com a gente. Nossas parcerias com a galera maranhense, artistas e produtores amazonenses é o que faz o Rudi se manter nesse molde.
NTS: Nico, no seu contato você fala da invisibilidade de Manaus na mídia nacional. O que uma cobertura de fora costuma deixar de enxergar sobre a vida cultural da cidade? Que histórias vocês gostariam de ver contadas por quem vive essa cena?
N: Muitas vezes Manaus aparece na mídia nacional a partir de imagens muito específicas da Amazônia, como se a cidade estivesse sempre separada da produção cultural contemporânea do Brasil. Existe uma cena enorme acontecendo aqui, feita por artistas, DJs, produtores, comunicadores, fotógrafos, grafiteiros, dançarinos, cantores e coletivos independentes, mas raramente esse tema recebe a mesma atenção que cenas de outras capitais, como as sudestinas, por exemplo. Também existe uma tendência de contar as culturas amazônicas como algo exótico, homogêneo e distante, quando na verdade estamos falando de pessoas que estão produzindo novas formas de ocupar a cidade todos os dias, com arte. Eu gostaria de ver mais histórias contadas por quem vive e produz a partir desses territórios, mostrando as redes que existem aqui e as referências que estão sendo construídas pelos próprios manauaras.

NTS: Com a residência Rudi Selectah na Function FM, como a pesquisa musical de vocês se transforma fora do baile? O que esse espaço permite experimentar e apresentar sobre Manaus a ouvintes de outros lugares?
N: A residência permite aprofundar uma pesquisa que já existe desde antes do Rudi. Como DJ selecta, minha pesquisa passa pela música negra e principalmente pela música jamaicana, mas estar em uma rádio também permite mostrar as conexões que fazemos a partir de Manaus. É uma oportunidade de apresentar músicas, artistas e referências que talvez não cheguem a outros lugares, mas também mostrar que existe uma leitura amazônica sobre essas culturas. Na minha visão, essa amplificação deixa de estar restrita ao momento dos bailes na rua e passa a criar uma espécie de arquivo sonoro do que estamos ouvindo, descobrindo e conectando com a cena daqui.
NTS: Depois de mais de dez ocupações, o que vocês percebem que permanece quando as caixas são desligadas? E o que precisa acontecer para que o Rudi e essa rede possam seguir crescendo nos próximos anos?
V: Nos rolês com a radiola, é bem perceptível que a gente conseguiu mobilizar tanto uma galera jovem, quanto a mais velha que ficou interessada nesse formato. No nosso último evento na rua, a ocupação cultural SKAMOSA, uma mulher de uma comunidade próxima aguardou o evento acabar para parabenizar a ação cultural que fizemos através da batalha de rima e atrações musicais. Esse contato e legado é nosso combustível, e queremos fazer a diferença sempre através dessa cultura.

Fotos por Juliana Pesqueira
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