Estreito: Amazônia, Coreia e a maturidade de Victor Xamã e WillsBife
Victor Xamã e WillsBife passaram anos construindo linguagens próprias antes de transformar esse encontro em disco. Estreito nasce duma escuta mútua: um sample manauara misturado a um sample coreano, pinturas rupestres no visual assinado pelo COPO XUJO, gastronomia como forma de conhecer o outro. Cada detalhe foi pensado, polido, revisitado em várias versões até chegar no que representa os dois.
O resultado é um álbum que recusa fronteiras geográficas, sonoras, midiáticas. Rap, culinária, audiovisual e direção estética compondo um universo onde ancestralidade e tecnologia não se contradizem, mas se completam. ‘Estreito’ é maturidade, segundo Xamã. Para WillsBife, é uma reconexão com sua origem. Para ambos, é a prova de que o rap nortista tem uma linguagem universal.

Para saber mais sobre o processo do disco, as referências e tudo que girou em torno de ‘Estreito’. Confira abaixo:
NOTTHESAMO: Você fala sobre “reconectar mundos que já foram um só” dentro do conceito de Estreito. Em que momento essa ideia deixou de ser apenas uma referência histórica e virou uma direção artística concreta para o álbum?
Victor Xamã: O conceito do disco fica completamente amarrado na parte visual, assinada pelo COPO XUJO. A gente pegou elementos de pinturas rupestres e agregou na arte do álbum de alguma forma para ter essa conexão com esse primitivo, quando esses mundos eram somente um só. Então, na parte de direção artística do álbum, eu acho que esse conceito até transcendeu e ficou muito massa, trazendo uma modernidade com alguns elementos mais ancestrais.

NTS: Sua música sempre carregou a Amazônia como território simbólico e político. O que mudou na forma como você traduz a floresta em linguagem musical dentro desse projeto mais global?
VX: Esse trabalho veio pra provar que eu não sou apenas um rapper do norte do Brasil. Eu sou um artista com uma linguagem que pode ser universal, que não existe fronteiras, não existe nenhum tipo de limite. E aprender com outras culturas, escutar e ter outras experiências é uma coisa que me motiva não só na música, mas na vida mesmo.
NTS: Existe um contraste muito forte entre ancestralidade e tecnologia no disco. Como você trabalhou essa dualidade nas letras e na construção da narrativa do álbum?
VX: Essa dicotomia entre ancestralidade e tecnologia, futuro e presente, foi extremamente pensado, desde a parte da criação das letras até o sample. Então é uma coisa que às vezes não fica tão na cara assim. Mas a gente teve esse cuidado, de polir a letra, de polir os instrumentais. Todas as músicas tem várias versões. Foi um experimento muito divertido e muito cuidadoso também.

NTS: O álbum expande para o audiovisual, gastronomia e direção estética. Em Estreito, você sentiu que precisava criar uma obra multimídia para que a mensagem fosse completa?
VX: A gente fez esse quadro ‘Entre Pratos’ inspirados no rapper americano Action Bronson. Ele tem um quadro que se chama ‘F*ck, That's Delicious’. Eu acho que o rap, a moda, a culinária tem tudo a ver. Foi uma forma menos usual de divulgar o trabalho e tem dado super certo assim. E além disso, foi um negócio divertido pra caramba.
NTS: Você vem ampliando sua presença nacional, do Alerta Experimente ao destaque em produções da Netflix. O que Estreito representa dentro desse novo momento da sua carreira e da projeção do rap nortista no Brasil?
VX: Para mim, ele representa a maturidade e a maturidade de todas essas possibilidades juntas, só que trazendo um Victor muito mais preparado. Para as oportunidades que irão surgir após isso. Todo dia a gente dá um passo de cada vez e sempre escrevendo e criando. É essa competição interna mesmo, de sempre propor alguma coisa nova. Acho que estou nos melhores momentos, relacionados a essa parte de carreira. E eu quero aproveitar isso e principalmente, me divertir também.
NTS: Você já vinha construindo uma identidade ligada ao minimalismo e aos samples orgânicos. O que mudou no seu processo criativo ao produzir um álbum tão conectado à ideia de território e ancestralidade amazônica?
WillsBife: Quando eu comecei a fazer beat eu só fazia a Boombap. E aí veio essa onda de trap muito forte e no começo eu tive uma resistência sim, mas eu acabei me encontrando nessa sonoridade também. Então, esse álbum é como se fosse uma reconexão à minha origem, de produzir do que me fez gostar de produzir. Essa parte de conectar território, ancestralidade, é uma parada bem legal. Eu já tentei trazer isso no meu primeiro disco, que se chama ‘Febre Amarela’, mas agora junto com o Victor, a gente está conseguindo trazer um novo significado, uma nova forma de juntar esses dois mundos.

NTS: Como foi traduzir musicalmente o encontro entre Coreia do Sul e Amazônia sem cair em algo caricato ou puramente estético?
WB: Essa junção de Coreia e Amazônia, musicalmente, trouxemos ela de uma forma mais natural. Não foi nada muito forçado e eu acho que um grande exemplo disso é a música ‘Eu quis Voar’, junto com Cravinhos. A gente conseguiu misturar um sample manauara com um sample coreano, e foi algo que só confirmou tudo que estávamos fazendo.
NTS: O conceito de “Rap de Luxo” aparece muito associado ao refinamento sonoro. Para você, o que define esse acabamento sofisticado dentro do rap contemporâneo?
WB: Eu acho que são músicas boas, músicas refinadas, músicas bem trabalhadas e que a gente realmente dá o nosso melhor. Assim, para a música poder representar a gente, não sonoramente, mas até na questão do visual, em tudo que engloba esse nosso trabalho. Então, acho que o rap de hoje seria algo bem pensado, bem planejado, bem estruturado.

NTS: Além da música, vocês também criaram o “Entre Pratos”, conectando cultura e gastronomia. O quanto essas trocas culturais fora do estúdio influenciaram diretamente a sonoridade do álbum?
WB: ‘Entre Pratos’ é uma série gastronômica que eu e o Victor estamos fazendo e foi uma experiência muito daora, trocando culturas e culinárias. Acho que quando você experimenta a culinária, é uma das formas mais profundas de você conhecer uma outra cultura. E isso também influencia no nosso álbum, porque mostra nossos mundos de uma forma diferente.




