Ian Andria, “Echoes of Rend” e o poder de traduzir a alma em música
Existe um momento específico em que tudo se encaixa e, para Ian Andria, ele veio ao som de “Take Five”. Foi ali, observando o primo tocar piano, que a música deixou de ser apenas escuta. Se tornou uma linguagem capaz de equilibrar liberdade e estrutura, emoção e forma. Exatamente como o jazz que hoje guia sua criação.
Nascido em Madagascar e moldado por uma escuta diversa que atravessa gospel, música clássica, jazz e sonoridades caribenhas, Ian constrói uma identidade musical profundamente sensível e intuitiva. Multi-instrumentista, ele trata cada instrumento como um canal de expressão, uma forma de acessar estados internos e traduzir sentimentos em som. No centro disso tudo, o piano surge quase como um refúgio: um instrumento de cura, que atravessa suas fases mais intensas e se torna peça-chave no seu processo criativo.

Em seu novo EP, Echoes of Rend, essa busca ganha contornos ainda mais íntimos. Composto em um fluxo quase imediato, o projeto mergulha em atmosferas espirituais e minimalistas, ecoando influências que vão do jazz mais contemplativo à ideia de música como transformação. Entre referências como Cleo Sol, Jaco Pastorius e até a leveza da bossa nova brasileira, Ian Andria segue desenhando um caminho próprio.
Conversamos um pouco com Ian sobre seu novo EP, suas referências e como o jazz molda sua vida. Confira abaixo:
NOTTHESAMO: Quando você percebeu que o jazz carregava aquilo que você queria expressar através da música?
Ian Andria: O momento em que ouvi aquela música “Take Five”. Meu primo costumava tocar muito essa música no piano, e eu fiquei tipo: “é isso”. Existe um senso de liberdade com estrutura.
NTS: A partir das suas raízes em Madagascar, o que você aprendeu sobre música? Que tipo de música você e as pessoas ao seu redor ouviam por lá?
IA: A gente ouve muitos gêneros musicais. Em casa, dava pra ouvir bastante gospel ou música clássica. Mas também muito jazz e música caribenha. Então isso já molda a forma como eu escuto e faço música.

NTS: Como saber tocar diferentes instrumentos, e tentar extrair o lado mais excêntrico de cada um, afeta seu processo criativo? Cada projeto nasce de novas descobertas e da busca por novos timbres e instrumentos?
IA: Tocar vários instrumentos me dá uma perspectiva completamente nova toda vez que eu crio. Porque cada um deles traz uma nova luz para a música. Os instrumentos são realmente um veículo para qualquer emoção que você tenha, e você sente isso quando toca, quando encosta neles. Literalmente, sim — pra mim é muito sobre encontrar sons que traduzam sua alma da forma mais autêntica possível. E tocar todos esses instrumentos me ajuda a fazer isso.
NTS: Entre todos esses instrumentos, qual mais te atrai e está mais presente no seu trabalho?
IA: Agora, é o piano, seja elétrico ou não. Eu tenho uma relação com esse instrumento que não consigo nem descrever direito, porque ele é realmente um instrumento de cura pra mim. Muitas das minhas fases mais depressivas foram curadas tocando piano.

NTS: Sobre sua relação com o Brasil: existe algo musical que te influencia e faz parte do que você escuta?
IA: Bossa Nova. 100%. Foi isso que me fez me esforçar ainda mais para tocar violão. Existe uma sensação de paz e de alegria silenciosa nesse gênero que me faz me sentir muito, muito bem. Traduz muito a minha forma de enxergar a paz — ela simplesmente flui e faz você sentir que tudo vai ficar bem e se resolver.
NTS: Quais artistas, na música e além, você tem consumido mais ultimamente?
IA: Oooh! Ultimamente tenho escutado muito Cleo Sol e Jaco Pastorius.

NTS: Fale sobre seu novo EP “Echoes of Rend”. Como ele surgiu e o que você busca transmitir com ele?
IA: “Echoes of Rend”… nossa, haha. Esse EP foi literalmente composto em duas noites. Tenho me aproximado cada vez mais de sons ambientes e de paz ultimamente, como o Pharoah Sanders faz, por exemplo. É muito sobre esse som espiritual que consegue transformar sua alma e sua mente. Eu sinto que quero tocar a vida das pessoas através da minha música e espalhar algo honesto e significativo. Espero que qualquer pessoa que escute termine se sentindo calma e em paz. Esse projeto é muito sobre transformação — uma transformação interna, pelo menos pra mim — mas cada um pode ter sua própria interpretação depois de ouvir.
NTS: Se você tivesse que dar um conselho para alguém, qual seria?
IA: Nosso tempo aqui é tão limitado, o amanhã realmente não é garantido — então SEJA VOCÊ! Faça você, seja você, o máximo que puder. Não temos tempo pra agradar todo mundo. Não desperdice seu tempo tentando ser ou fazer como outra pessoa. Apenas seja você.

ENGLISH VERSION:
NOTTHESAMO: When did you realize that jazz held what you wanted to express through music?
Ian Andria: The moment I heard that song “Take five“. My cousin used to play that song a lot on the piano, I was like ‘yeah this is it‘. There’s a sense a freedom with structure.
NTS: From your roots in Madagascar, what did you learn about music? What kind of music did you and those around you listen to from that region?
IA: We listen to many genres of music. At home you can hear a lot of gospel, or classical music. But also, lots of jazz, and Caribbean music actually. So that shapes already the way I’m hearing and making music.
NTS: How does knowing how to play different instruments, and trying to extract the most eccentric side of each one, affect your creative process? Does each project come from new discoveries and a search for new tones and instruments?
IA: Playing many instruments is giving me a whole new perspective each time I create. Cause each one of them brings a new light to a song. Instruments are really a vessel of any emotions you have, and you just feel it when you play and touch it. Literally yes, I mean to me it’s really about finding sounds that translates your soul in its most authentic way. And playing all those instruments helps me do that.
NTS: Out of all these instruments, which one appeals to you the most and is most present in your work?
IA: Right now, it’s the piano either electric or not. I have a relationship with that instrument that I couldn’t really describe cause it’s really a healing instrument to me. Most of my depressed phases been healed through playing on that instrument.
NTS: About your relationship with Brazil, is there anything musically that influences you and is part of what you listen to?
IA: Bossa Nova. 100%. That’s what made me push myself even more to play guitar, you know. There’s a sense of peace and quiet joy in that genre that just makes me feel so so good. It translates my way of seeing peace actually, it just floats and makes you feel like everything is going to be ok and sorted out.
NTS: Which artists, in music and beyond, have you been consuming the most lately?
IA: Ouuh! Lately, I’ve been so much into Cleo sol and Jaco Pastorius.
NTS: Tell us about your new EP “Echoes of Rend”. How did it come about and what are you aiming to convey with it?
IA: Echoes of Rend.. Damn ahah. That EP, it was literally composed over two nights. I tend more and more into ambient and peace sounds lately, sounds like Pharoah Sanders does for example. It’s really about that spiritual sound that can shift your soul and mind. You know I do have this feeling that I just wanna touch people’s lives through my music and spread something honest and meaningful. I do hope that anybody that listens to it feels calm and in peace at the end. That project is really about transformation, inner transformation to me at least, but anybody can have his own interpretation after listening to it.
NTS: If you had to give one piece of advice to someone, what would it be?
IA: Well, our time here is so limited, tomorrow is really not promised so DO YOU, BE YOU! As much as you can. We don’t have time for people pleasing, don’t waste your time trying to be or do like somebody else. Just do you and be you.




