Neguinho do Kaxeta e o tempo como construção dentro do funk
Neguinho do Kaxeta construiu sua trajetória ao longo de mais de duas décadas dentro do funk, atravessando diferentes fases do gênero e acompanhando transformações que vão da produção musical à forma como os artistas se posicionam dentro do mercado. Sua permanência não está ligada apenas à continuidade, mas à capacidade de adaptação em um cenário que muda rapidamente, tanto em estética quanto em estrutura de trabalho.
Ao longo desse percurso, sua atuação se desloca do papel tradicional de MC para uma posição mais ampla, onde a gestão da própria carreira passa a ser central. Esse movimento acompanha uma mudança mais ampla dentro do funk, em que artistas começam a assumir controle direto sobre suas produções, imagem e distribuição, reorganizando a relação com gravadoras, equipes e plataformas. No caso de Neguinho, isso aparece como uma decisão prática, ligada à experiência acumulada ao longo dos anos.

Na entrevista, esse processo aparece de forma direta, com reflexões sobre crescimento, reposicionamento e a necessidade de ir além dos rótulos que historicamente marcaram o gênero. Ao falar sobre o momento atual, ele aponta para uma fase em que a trajetória construída começa a ser reorganizada sob novos critérios, mantendo a base no funk, mas ampliando o entendimento sobre o que significa permanecer ativo dentro dele. Confira a entrevista completa abaixo:
NOTTHESAMO: Muita gente conhece o personagem “Neguinho do Kaxeta”. Mas quem é a pessoa que existe fora do palco e do estúdio?
Neguinho do Kaxeta: Completando 26 anos de caminhada, com 40 anos, eu sempre fui bem reservado e hoje mais ainda. Tô priorizando mais meu sono, meu treino... voltei a fazer capoeira (que é um esporte que pratiquei há 25 anos), natação. Sou esse cara mais tranquilo, que gosto de ir na feira, no mercado fazer compras. Gosto de moda, de roupa, mas não tenho marca preferida; vi que o pano é bom, tô portando. Tô inteirado em geopolítica, história... aprender essas coisas que não foram ensinadas na escola. Sou um rapaz comum, procuro ser o mais natural possível e andar sem segurança.
NTS: Depois de quase 20 anos de carreira, o que de principal mudou de lá para cá?
NK: Não ganhei só dinheiro, aprendi muito. Me vejo mais maduro, mudei muitos hábitos que há 20 anos a gente achava normal. A nossa forma de se expressar mudou bastante. Minha voz melhorou muito, minha postura de palco... melhorei como pessoa e continuo evoluindo, querendo aprender mais.

NTS: Ser artista já exige muito. Ser artista e gestor ao mesmo tempo exige outro tipo de mentalidade. O que mudou na sua forma de pensar quando você passou a enxergar o Neguinho do Kaxeta também como uma empresa?
NK: Isso mudou quando surgiu a parada de royalties, Spotify, plataforma digital. Você entra num estúdio pra fazer um trampo e tem que saber sua porcentagem. Aí já entra o empresário, porque não posso estar cedendo um direito meu se amanhã eu quero galgar a minha empresa. Eu que vou gerir minha carreira. Não é só roupa de marca, você precisa ter coisas que valorizem seu nome: royalties, YouTube, contratos, publicidades. Todo mundo fala 'tem que lançar a marca NK', mas NK é meu nome artístico, eu quero fazer algo que me identifique com a minha luta, com a minha caminhada e com o meu povo do Kaxeta."
NTS: Qual a maior dificuldade em passar a administrar e ser o CEO da sua própria carreira no mundo do Funk? O quanto coisas que você viu acontecer lá atrás ainda ressoam e acontecem hoje em dia?
NK: Falta de investimento, principalmente. Eu geria minha carreira até 2016. Em 2012, 2013, eu fiz meu primeiro clipe ('As Novinha Tão a Mil') e foi investimento meu. No segundo, 'A Firma Tá a Mil', em 2014, peguei equipe, 16 quartos lá na Ilha da Magia em Floripa... investi mais de 100 mil num clipe só. O cara falou 'precisa fazer um rasante, alugar um helicóptero', eu perguntei quanto era, ele falou '4 e meio', já saquei do bolso. Nunca tive medo de investir. Hoje o funk remunera muito bem e eu tô disposto a investir muito mais, vem um DVD pesado por aí.

NTS: Quando você olha para trás, para o começo na Baixada, você já imaginava que um dia estaria construindo algo que vai além da música?
NK: Eu não entrei no funk igual a molecada entra hoje, pensando 'vou ganhar dinheiro'. Eu só queria que alguém conhecesse o Kaxeta (São Vicente). Chegava no baile, às vezes não pegava nem o dinheiro do cachê, só gostava de cantar. Fui comprar minha primeira moto em 2008, uma Bizinha, e a galera falava: 'você tem mó fama e não tem nada'. Depois que fui adquirindo experiência, vi que o dinheiro supriria necessidades e que a gente mudou vidas. A gente quer deixar não só a história de que fez dinheiro com funk, mas que mudou vidas desde quem tá ouvindo até a molecada que tá vindo cantar.
Ficha técnica
Produção Executiva: @dstudios.br
Fotografia e Direção Criativa: @jefdelgado
Stylist: @realgabf_
Barbeiro: @abimasz
Gaffer: @ricafera
Assist. de Produção: @tassio_yuri




