Nápoles pela visão de Ciro Pipoli
Nascido e criado em Nápoles, no sul da Itália, Ciro encontrou na fotografia sua paixão para a vida toda e a maneira mais autêntica de traduzir o que via em sua cidade. Seu trabalho nunca foi motivado por ambições de carreira ou objetivos profissionais, mas por um profundo impulso de retratar Nápoles em contraste com a percepção generalizada que a reduzia a uma cidade puramente negativa.
Antes de se tornar fotógrafo, havia alguém da cidade que sentia a necessidade de contar sua história a partir de dentro, oferecendo uma perspectiva mais verdadeira e pessoal.
Conversamos com o fotógrafo sobre sua construção visual, as influências de sua cidade e os sinais e detalhes únicos de um lugar que o transforma todos os dias. Confira a entrevista completa abaixo:
NOTTHESAMO: Primeiro de tudo, quem é Ciro Pipoli?
Ciro Pipoli: Vou começar dizendo que nunca é fácil falar sobre si mesmo, mas se tivesse que resumir, diria que sou apenas um cara comum que vive sua cidade no dia a dia e que espera, através da fotografia, ajudar as pessoas a redescobrirem e valorizarem o outro. Eu realmente acredito que não há nada mais bonito no mundo do que as emoções humanas, especialmente aquelas que consigo capturar na minha cidade.

NTS: Antes dos seus registros seguirem o caminho que conhecemos hoje, como a fotografia entrou na sua vida?
C: A fotografia entrou na minha vida da forma mais simples possível. Tudo começou quando eu tinha 16 anos, quando baixei o Instagram. Na época, a plataforma era usada principalmente por pessoas compartilhando suas próprias fotografias. O impacto em mim foi imediato: achei que seria uma boa ideia “fincar a bandeira de Nápoles” naquele espaço, e desde então comecei a contar a história da minha cidade.
NTS: O que existia em Nápoles, durante a sua adolescência, que te levou a olhar para a arte como caminho?
CP: No começo, eu nunca enxerguei a fotografia como algo que poderia seguir profissionalmente. Para mim, era apenas uma forma simples e direta de mostrar minha cidade, porque eu acreditava — e ainda acredito — que Nápoles merecia ser defendida dos muitos preconceitos que enfrentava. Para o garoto que eu era naquele momento, virou uma maneira de falar sem usar palavras. Hoje, fico feliz em dizer que esse mesmo compromisso e dedicação ainda fazem parte da minha vida, e que a fotografia também se tornou meu trabalho.

NTS: Ao observar a cidade, é impossível não notar um forte senso de identidade, orgulho e apego às raízes. De onde você acha que vem esse sentimento napolitano? Existe alguma relação com a forma como outras regiões da Itália enxergam Napoli?
CP: Essa é uma pergunta muito particular, e acho que a resposta é bastante subjetiva. Cada pessoa poderia dar uma perspectiva diferente. No meu caso, acredito que esse forte sentimento de pertencimento vem de algo profundo. Começa na infância, porque você cresce em uma cidade que te ensina muito sobre a vida. Também acho que esse vínculo é ainda mais forte porque a Itália sempre foi dividida entre Norte e Sul, e isso traz muitos preconceitos. Quem cresce aqui sente isso e, como consequência, se conecta ainda mais com sua cidade.
NTS: E onde o futebol entra nessa construção? Ele é parte natural da vida na cidade?
CP: Na Itália, futebol é cultura — quase política. Dá para perceber isso claramente no senso de pertencimento e no apoio que as pessoas dão ao time local. Para nós, é também uma forma de redenção social e geográfica, e carrega o nome e a identidade de toda a cidade.

NTS: O que Diego Armando Maradona representa para Napoli para além do esporte?
CP: Quando se trata de Diego Armando Maradona, prefiro responder a partir de uma perspectiva pessoal. Tenho 29 anos, então nunca tive a chance de vê-lo jogar ao vivo, mas ao longo dos anos formei uma ideia sobre quem ele foi. Para mim, Maradona representa o que significa ser humano. Na vida, todos caem e se levantam, fazem coisas boas e ruins, mas o que realmente importa é permanecer fiel a si mesmo. Ele sempre foi fiel a quem era e aos seus ideais. Isso, para mim, vai além do esporte. Quando penso em Maradona, vejo exatamente o que uma pessoa deve ser: humana.

NTS: Em que momento a fotografia deixa de ser apenas expressão e passa a se tornar também trabalho — seja nas colaborações com marcas como Dolce & Gabbana ou nos seus projetos autorais?
CP: Acho que o momento em que a fotografia deixou de ser um hobby e virou trabalho foi quando colaborei com a Dolce & Gabbana. Antes disso, eu nunca tinha trabalhado em algo tão importante, então ainda não enxergava a fotografia como um caminho profissional real. Tudo aconteceu de forma muito natural e espontânea, até porque não existe uma grande diferença entre a fotografia que faço por paixão e a que faço por trabalho. Foi um momento-chave, que me deu visibilidade e abriu novas oportunidades profissionais.
NTS: Em “Io lo faccio per passione”, fica claro que, mesmo dentro de um contexto de marca, existe uma continuidade do seu olhar sobre o povo italiano. De onde nasce essa necessidade de manter sua visão autoral? E quais são os desafios de sustentar isso dentro do mercado?
CP: Quando se trata de trabalho, não é fácil manter sua visão cem por cento intacta. Sempre existem demandas do mercado que você precisa atender, muitas vezes influenciadas pelo que está acontecendo no mundo naquele momento. Então é preciso encontrar compromissos. Mas, felizmente, ainda consigo — ou pelo menos tento — manter um senso de autenticidade no meu trabalho. Acho que isso é, de certa forma, minha assinatura, e muitas vezes é exatamente isso que os clientes procuram.

NTS: Hoje, para onde o seu olhar se direciona com mais frequência? Pessoas, momentos, cores… o que mais te move?
CP: Eu sempre prefiro deixar minha atenção fluir naturalmente, sem forçar nada. O melhor para mim é sair para a rua com a câmera e deixar as emoções me guiarem. Às vezes volto para casa sem fazer uma única foto, mas isso faz parte do processo. Não forçar uma imagem é, para mim, uma maneira de permanecer autêntico. Quero que a imagem venha até mim espontaneamente.
NTS: Se você tivesse que escolher uma única fotografia para contar uma história, qual seria? E que história ela carregaria?
CP: É difícil escolher uma única fotografia para contar uma história, porque ao longo dos anos conheci tantas pessoas e ouvi tantas histórias incríveis. Mas posso falar de uma das minhas imagens favoritas — uma que sei que nunca vou conseguir recriar. É uma fotografia de um rapaz mergulhando de costas. Capturei exatamente um instante em que ele está com os braços abertos, o peito projetado e a cabeça escondida. Ele quase parece uma figura crucificada. É uma imagem única, impossível de repetir.

NTS: Existe algo no Brasil que te chama atenção e ainda não apareceu no seu trabalho?
CP: Nápoles, na minha opinião, tem uma conexão forte com o Brasil, especialmente em termos de “vibe”. Sempre senti que Nápoles poderia facilmente estar na América do Sul por causa do nosso estilo de vida e da nossa energia. Toda vez que estive na América do Sul, senti uma familiaridade, quase como estar em casa. Acho que até nas minhas fotos uma pessoa brasileira talvez reconheça algo do próprio país. Talvez venha dessas semelhanças, mas também de uma atração profunda, quase inexplicável, que sinto pelo Brasil. Digo inexplicável porque nunca estive aí, e mesmo assim sinto essa conexão há muito tempo. Espero muito poder visitar um dia.
NTS: E por fim, se você pudesse deixar um conselho para quem está começando, qual seria?
CP: O conselho que daria para quem está começando é não se deixar influenciar por tendências ou pelo trabalho dos outros. Acredito que o mais importante é seguir suas próprias ideias e emoções. Se você se deixa guiar demais pelo que os outros estão fazendo, corre o risco de perder sua identidade e não se destacar. A chave é permanecer fiel à sua própria visão.





