O “quadrado mágico” de 2006: a trajetória para a conturbada Copa de 2006.

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A seleção brasileira que chega à Copa do Mundo de 2006, tinha como grande alicerce os nomes já consagrados no país, porém, que já demonstravam algumas baixas. Ela é construída ao longo de um ciclo que começa logo após o título de 2002, e que começou com derrota. Durante o amistoso contra o Paraguai, Felipão se despedia e o Brasil começava o ciclo perdendo por 1 a 0.

Felipão, o então treinador, saiu pela porta dos fundos, deixando escorrer críticas a Pelé, Ronaldo e a seleção como um todo. Entretanto lugar entra Carlos Alberto Parreira, campeão em 1994, com uma proposta diferente em quase tudo. Sai um ambiente fechado, de controle total, entra uma comissão mais aberta, mais acessível, mais próxima da imprensa e do entorno comercial que cresce ao redor da seleção.

Os primeiros amistosos já distanciaram aquela visão da seleção campeã, e apresentava estreantes, jovens jogadores que substituiriam as estrelas mais a frente. As eliminatórias começaram em 2003 e o primeiro movimento já mostra que o caminho não seria tão linear quanto a memória coletiva costuma sugerir. Apesar de ter tido os melhores números, era um time que oscilava, empatava jogos e já não encantava ou aparentava ter um grupo fechado para a próxima copa.

Ao mesmo tempo, o continente vive um momento competitivo forte. A Seleção Argentina de Futebol se renovava, o Paraguai mantém sua consistência em casa e o Equador transforma Quito em um dos ambientes mais difíceis do mundo. O Brasil teve por exemplo uma sequência de empates durante a terceira, quarta e quinta rodada, e crescendo mais no returno, quando conseguiu vitórias que recolocaram a percepção sobre a equipe.

Nesse meio do caminho acontece um ponto que ajuda a inflar a expectativa de forma decisiva. A conquista da Copa América de 2004, com um time alternativo, vencendo a Argentina na final e reforça a ideia de que o Brasil pode ganhar em qualquer configuração. Esse título tem um efeito simbólico forte porque desloca o debate do coletivo para o talento individual. A leitura que se consolida é simples: se até um time sem seus principais nomes vence, o que pode fazer a equipe completa. É nesse ambiente que começa a se formar o imaginário que depois seria chamado de “quadrado mágico”.

Uma pesquisa da CNT/Sensus na época apontava que cerca de 80% dos brasileiros acreditavam no título, o que ajuda a dimensionar o tamanho da expectativa que se forma antes mesmo da bola rolar. O país ainda carregava o impacto positivo do título de 2002, a geração é extremamente midiática, os jogadores estão nos maiores clubes do mundo e a seleção vira produto central de campanhas publicitárias.

Ronaldo, Ronaldinho, Adriano e Kaká formavam a base ofensiva mais reconhecida do futebol mundial naquele momento. Só que existe um descompasso importante entre nome e momento. Ronaldinho era o melhor jogador do mundo, mas vinha de duas temporadas extremamente intensas no Barcelona e chegava fisicamente desgastado. Ronaldo ainda era uma referência, mas carregava um histórico recente de lesões e irregularidade no Real Madrid, além de questionamentos públicos sobre sua forma física. Adriano vinha de um auge recente na Inter de Milão, mas havia perdido seu pai, algo que incontestavelmente alterou sua carreira dentro e fora de campo.

Enquanto isso, outras peças importantes da base campeã começam a dar sinais de desgaste que também passam batidos na época. Cafu e Roberto Carlos ainda são titulares, mas já não apresentam a mesma intensidade física de anos anteriores. Dida vive um momento mais instável no Milan, com falhas que começam a gerar questionamento. Emerson chega como capitão, mas se machuca às vésperas da Copa e sequer disputa o torneio. Esse ponto, a Revista Placar já apontava ainda antes da Copa, com a capa “Eles não Podem Jogar Juntos”, e explicava os problemas daquele quarteto, e do ritmo dos veteranos.

Indo para a Copa, durante a preparação em Weggis, na Suíça, o que deveria ser um tempo de estudo e análise, se transformava em um evento público. Treinos abertos, presença constante de imprensa, patrocinadores, convidados, uma circulação que se aproxima mais de um espetáculo do que de um período de concentração. O lateral Gilberto relatou anos depois que nunca tinha visto algo nesse nível, com câmeras acompanhando praticamente todo o treino e pouca margem para um trabalho mais fechado.

Esse ambiente conversa diretamente com a construção simbólica do time naquele momento. O chamado “quadrado mágico” tinha a ideia de reunir quatro dos principais jogadores ofensivos do mundo em um mesmo sistema que alimentava uma confiança de que o talento resolveria o jogo por si só.

Quando a Copa começa, esse cenário começa a funcionar de fato. A estreia contra a Croácia termina em vitória, mas o desempenho já levanta dúvidas. O Brasil tem dificuldade de circulação, encontra um adversário mais organizado fisicamente e depende de um lance individual do Kaká para resolver. Contra a Austrália e o Japão, o time melhorou em números, mas segue irregular em construção coletiva. A fase de grupos é concluída com três vitórias, mas sem consolidar uma identidade clara de jogo.

Nas oitavas, contra Gana, o Brasil venceu por 3 a 0, mas o placar não traduz exatamente o que acontece em campo. A equipe africana criava, encontra espaços e chega com frequência, enquanto o Brasil aproveita melhor as oportunidades. Esse jogo reforça uma leitura que já vinha se formando desde a estreia, a de um time eficiente em momentos específicos, mas vulnerável estruturalmente. Mesmo assim, o resultado mantém o Brasil dentro do roteiro esperado e sustenta a ideia de favoritismo.

A França chega desacreditada, com um time mais velho e um Zinedine Zidane que vinha de temporada irregular no Real Madrid. O que acontece em campo, porém, inverte completamente essa expectativa. Zidane domina o ritmo da partida, encontra espaços e após o gol de Thierry Henry,o  Brasil não foi capaz de reagir.

Depois da eliminação, várias leituras aparecem, inclusive de dentro do próprio grupo. A crítica ao ambiente leve demais ganha força. Jogadores como Zé Roberto e Juninho Pernambucano apontam, anos depois, a falta de concentração e cobrança interna como fatores que pesaram. Thierry Henry chegou a comentar que o Brasil parecia relaxado antes do jogo.

Uma seleção que chegou com expectativa máxima, sustentada por nomes e resultados recentes, mas que não conseguiu transformar isso em consistência dentro de campo.

A eliminação não pode ser resumida a um lance ou a um jogo específico, ela é resultado de um conjunto de fatores que começam antes da Copa, passam pela preparação, pelo ambiente, pelo momento individual dos jogadores e pela dificuldade de ajustar o time durante a competição.

Com o tempo, aquela seleção passa a ser lembrada menos pelo que produziu e mais pelo que representava, com o famoso “Joga Bonito”, apenas um recorte de um momento em que o Brasil confiou no talento como solução suficiente.