20 anos de Alexandre Pavão

-


A marca Alexandre Pavão completa duas décadas em 2026 olhando para revisão de processo, olhando para seu processo de criação. Criada a partir de uma lógica doméstica, a marca se desenvolveu fora dos centros tradicionais de validação da moda brasileira e construiu uma trajetória baseada em experimentação material e autonomia criativa. Ao longo desses 20 anos, o que começa como customização artesanal atravessa diferentes fases do mercado, absorveu mudanças de escala, distribuição e linguagem, mas mantendo um eixo consistente, a recusa ao óbvio na construção de produto.

Esse percurso também acompanha uma transformação mais ampla no entendimento da moda nacional. Se antes marcas autorais brasileiras eram constantemente comparadas a referências internacionais como parâmetro de valor, hoje existe um outro entendimento na percepção de público, mídia e mercado. A trajetória de Pavão funciona como um recorte específico de uma geração que construiu relevância sem seguir uma cartilha pré definida.

Em conversa, buscamos entender esse momento que comemora 20 anos para entender o que mudou, o que permaneceu e, principalmente, o que foi recuperado. Entre crescimento, ajustes ao mercado e um retorno consciente ao manual, Alexandre Pavão revisitou sua própria história para falar de processo, identidade e permanência, tratando a marca não como algo finalizado, mas como um trabalho contínuo, em construção.

Confira a entrevista completa abaixo:

NOTTHESAMO: Quando você criou a Alexandre Pavão, qual era a inquietação que te movia naquele momento?

Alexandre Pavão: A marca nasceu da vontade de experimentar e de ter uma peça que eu não encontrava. Tudo começou com uma camiseta básica bordada com fuxicos feitos pela minha tia, na qual escrevi BRASIL, já que era ano de Copa. Na época, minha mãe já trabalhava com moda no comércio, e as clientes sempre pediam coisas diferentes. Naquele momento, vimos uma oportunidade: criar produtos que não encontrávamos. Talvez a maior inquietação daquele momento tenha sido o desejo de ter produtos diferentes, autênticos e autorais.

NTS: 20 anos após a criação da marca, o que você mais repara ter mudado e o que permaneceu?

AP: No início da marca, os produtos eram 100% voltados para o público que a minha mãe atendia na boutique montada na sala da nossa casa. As peças eram todas customizadas com diferentes materiais: strass, correntes, pérolas, couro e metal.

Logo após a finalização dos meus cursos em Franca, que é um grande polo industrial de moda, e acompanhado de uma maior vivência dentro da área de produto, comecei a me aventurar mais e a pesquisar diversos materiais. Foi então que comecei a usar cordas e mosquetões, após uma visita a uma loja de material de construção.

Após chegar a São Paulo, a minha visão como marca mudou completamente. Deixamos para trás aquela estética mais ‘perua’ e as peças começaram a ser mais cosmopolitas; acredito que aí veio a grande mudança. Mas o que permaneceu na marca desde o início foi a vontade de sempre misturar materiais nada óbvios e fazer com que eles conversem entre si, para criar produtos únicos e com uma identidade forte.

NTS: Quais foram as principais mudanças no jeito em que a moda brasileira é entendida, desde a mídia, os produtores até o público consumidor?

AP: Estamos vendo a cada ano, um aumento na valorização da moda nacional. Até pouco tempo atrás, produtos de marcas autorais, com grande qualidade e preços mais elevados, eram sempre comparados às etiquetas estrangeiras, com o público incrédulo de que peças produzidas no Brasil pudessem ter tanto ou mais valor que produtos europeus e estadunidenses. Isso mudou. Hoje, o cool é apoiar as marcas independentes, consumindo peças que dialogam com o nosso cotidiano, história e cultura. Com isso, vemos mais criações nacionais em editoriais, sendo vestidas por celebridades nos principais palcos, e as marcas brasileiras se tornando ícones de estilo e desejo.

NTS: Qual seria a frase que resumiria essa trajetória?

AP: A minha trajetória se resume em: TRABALHO EM CONSTRUÇÃO. A gente constrói a marca todos os dias. De pouco em pouco. Conforme a minha pessoa muda, a marca muda comigo. Talvez por ela ter o meu nome, já seja um reflexo direto de quem eu sou.

NTS: Se você pudesse voltar ao primeiro ano da marca, o que diria para o Alexandre de 20 anos atrás?

AP: Diria para nunca duvidar do seu próprio talento e potencial, e para acreditar que o diferente é mais legal e mais interessante. Diria também que muitas pessoas vão duvidar daquilo em que você acredita, mas é preciso seguir em frente até que todos acreditem em você.

NTS: Depois de tanto tempo, principalmente colaborações com o grande mercado, o que te fez voltar para o manual, para a forma como tudo começou?

AP: A marca sempre foi manual. Sempre teve seus processos, prazos próprios e inquietações. Mas, depois do boom que tivemos na pandemia, muitas coisas foram se perdendo. Talvez para tentar nos encaixar no mercado, ou agradar o cliente, etc. Então, neste ano, demos um passo para trás para repensar tudo e voltar às nossas origens, mesmo que aos poucos.

As colaborações são essenciais para alavancar a imagem da marca junto ao público. Levar o design único das nossas peças artesanais para mais pessoas é muito especial para nós, mas existe uma grande beleza no slow fashion. Poder fazer cada produto com o maior carinho e atenção aos detalhes é uma parte do DNA da marca que nunca deixarei de lado.

NTS: Se tivesse uma dica para dar a alguém, o que diria?

AP: Nunca dê ouvidos a opiniões ou palpites de outras pessoas, por mais próximas que elas sejam de você. Ouça a sua intuição, acredite nela e siga em frente.