A vida e pesquisas Massimo Osti

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Os grandes nomes da moda do século XX ficaram conhecidos pela construção de silhuetas, pela alta-costura, pelo desenvolvimento de novas linguagens visuais ou pela capacidade de traduzir o espírito de determinada época em coleções. Massimo Osti seguiu um caminho completamente diferente, que antes de pensar na aparência de uma peça, ele queria entender como ela era construída, por que determinado tecido havia sido desenvolvido, como um uniforme militar suportava condições extremas ou por que uma jaqueta de trabalho permanecia intacta depois de anos de uso. 

Hoje, seu nome claramente aparecerá ligado à Stone Island e CP Company, mas limitar sua trajetória a essas marcas significa ignorar um dos designers mais influentes da história do vestuário contemporâneo. Osti transformou a maneira como roupas são desenvolvidas, tingidas e produzidas, aproximando design industrial, engenharia têxtil e cultura visual em um momento em que essas áreas raramente conversavam entre si. 

Massimo Osti nasceu em 1944, em Bolonha, poucos meses antes do fim da Segunda Guerra Mundial. A Itália passava um dos períodos mais delicados de sua história, em que o país saía devastado pelo conflito, enfrentava dificuldades econômicas e iniciava um longo processo de reconstrução que transformaria completamente sua indústria nas décadas seguintes. Ao contrário de cidades como Milão e Florença, tradicionalmente associadas à moda italiana, Bolonha desenvolveu uma forte cultura ligada ao design industrial, à produção gráfica e à engenharia mecânica. 

Curiosamente, sua formação nunca esteve ligada ao universo da moda, quando ainda jovem, estudou design gráfico e começou a trabalhar produzindo identidades visuais, embalagens e materiais publicitários. Durante os anos 1960, tornou-se conhecido pelo desenvolvimento de estampas e impressos para diferentes empresas italianas. 

Naquele período, o país deixava de ser apenas um polo de alfaiataria tradicional para se consolidar como referência mundial na produção industrial de roupas. Novos tecidos sintéticos começaram a chegar ao mercado, técnicas de costura evoluíam rapidamente e as marcas buscavam maneiras de dialogar com uma juventude que já não se identificava com a formalidade das décadas anteriores.

Foi observando esse cenário que Osti percebeu uma oportunidade pouco explorada, para em 1971 fundar a Chester Perry, empresa que inicialmente produzia peças estampadas inspiradas na linguagem da publicidade, dos quadrinhos e da cultura pop. Poucos anos depois, por questões relacionadas ao nome da marca, ela seria rebatizada como C.P. Company.

Embora ainda fosse uma empresa relativamente pequena, a C.P. Company rapidamente começou a se distanciar do tradicionalismo da moda italiana, muito sobre estar interessado em compreender como uma roupa era construída e não só fazê-las.

Foi justamente dessa pergunta que nasceu uma das maiores revoluções da indústria do vestuário, que até então, praticamente todas as roupas eram confeccionadas a partir de tecidos previamente tingidos: primeiro a fábrica coloria o tecido; depois ele era cortado, costurado e transformado em roupa, até chegar Osti e inverter essa lógica. Em vez de tingir o tecido antes da confecção, passou a produzir toda a peça utilizando tecido cru ou branco e somente depois de pronta, já com bolsos, zíperes, botões e costuras finalizadas, a roupa inteira era mergulhada em grandes tanques de tingimento. Nascia ali o garment dyeing, ou tingimento em peça pronta.

Ao longo da segunda metade da década de 1970, a C.P. Company consolidou-se como um laboratório permanente de experimentação. Osti combinava tecidos industriais, reinterpretava uniformes históricos e desenvolvia processos que poucas empresas sequer cogitavam testar. Seu estúdio parecia funcionar mais como um centro de pesquisa do que como um escritório de criação de moda.

Mas havia um projeto específico que ocupava sua atenção naquele momento. Em uma de suas pesquisas sobre equipamentos militares, Osti encontrou um tecido extremamente resistente utilizado na fabricação de lonas para caminhões do exército. 

Todas eram produzidas a partir de um mesmo tecido, batizado de Tela Stella. A origem desse material resume bem a forma como Osti trabalhava. Durante suas pesquisas sobre equipamentos militares, ele encontrou lonas utilizadas para cobrir caminhões do exército italiano. Eram tecidos extremamente pesados, resistentes à água e projetados para suportar anos de exposição ao sol, chuva e atrito constante. Em vez de simplesmente reproduzir aquela lona, Osti passou meses estudando sua composição até conseguir adaptá-la ao vestuário.

O resultado era um tecido de algodão robusto, impregnado com pigmentos especiais em ambos os lados e submetido ao garment dyeing depois da confecção da peça. O acabamento fazia com que cada jaqueta apresentasse pequenas diferenças de tonalidade, áreas de desgaste e uma textura que lembrava equipamentos militares envelhecidos naturalmente e nenhuma peça saía exatamente igual à outra.

É aí que surge o patch com a bússola costurado na manga esquerda. Com a Stone Island, Osti buscava uma identidade visual que dialogasse com o universo da navegação, da exploração e dos equipamentos militares, assim como foi com a rosa dos ventos que sintetizava exatamente essa ideia de orientação, deslocamento e pesquisa constante. 

Ao longo dos anos seguintes, a Stone Island tornou-se um espaço permanente de pesquisa têxtil. Se outras marcas apresentavam novas modelagens a cada temporada, Osti parecia interessado em algo diferente para a Stone, em que a coleção começava sempre pelo material a ser carregado.

Uma das primeiras grandes experiências envolveu tecidos revestidos por poliuretano, criando superfícies impermeáveis que preservavam a respirabilidade do algodão. Em seguida vieram pesquisas com nylon monofilamento, tecidos metalizados, fibras de aço inoxidável misturadas ao algodão, membranas de borracha e tratamentos químicos.

Entre todas essas experiências, poucas se tornaram tão emblemáticas quanto a Ice Jacket, lançada no fim da década de 1980. A ideia nasceu da utilização de pigmentos termocrômicos, substâncias capazes de alterar sua coloração conforme a temperatura ambiente. A mesma curiosidade levou Osti ao desenvolvimento das famosas peças refletivas. Inspirado em tecnologias utilizadas em sinalização rodoviária, ele incorporou milhões de microesferas de vidro à superfície do tecido, criando peças que permaneciam discretas durante o dia, mas refletiam intensamente qualquer fonte de luz à noite. 

Enquanto essas pesquisas aconteciam, no Reino Unido, especialmente entre o fim dos anos 1980 e o início da década seguinte, torcedores ligados à cultura casual passaram a incorporar Stone Island ao seu vestuário cotidiano. 

Muitos desses torcedores viajavam pela Europa acompanhando partidas e aproveitavam essas viagens para comprar - ou tomar - peças italianas indisponíveis nas lojas britânicas. Stone Island, C.P. Company e outras marcas produzidas por Osti rapidamente passaram a circular entre as arquibancadas inglesas.

Na verdade, Osti raramente comentava qualquer relação entre suas roupas e determinados grupos culturais. Sua preocupação permanecia concentrada nos tecidos. Ainda assim, aquela apropriação acabaria transformando definitivamente a percepção da marca.

Pela primeira vez, uma empresa cuja comunicação era baseada quase exclusivamente em pesquisa industrial tornou-se um símbolo importante da cultura urbana europeia.

Durante boa parte da vida, Massimo Osti permaneceu relativamente distante do circuito tradicional da moda. Não era conhecido por grandes desfiles, entrevistas frequentes ou campanhas construídas em torno de sua imagem, seu protagonismo sempre esteve concentrado nas peças. Vivemos um momento em que a moda volta a discutir durabilidade, funcionalidade, pesquisa de materiais e inovação produtiva. Ao mesmo tempo em que novas tecnologias surgem em ritmo acelerado, cresce também o interesse por compreender como as roupas são feitas e quais histórias carregam em sua construção.  

É difícil apontar outro designer que tenha influenciado tantas áreas diferentes ao mesmo tempo. Sua pesquisa criou uma linguagem que continua sendo reinterpretada por novas gerações, não porque suas roupas pertençam ao passado, mas porque seu método continua parecendo extraordinariamente moderno.

Hoje seus filhos dão continuidade ao seu legado cuidando do "Massimo Osti Archive", realizando a manutenção do que foi criado por alguém que dedicou a vida inteira a reinventar a própria ideia do que uma roupa poderia ser.