BaianaSystem e a grandiosidade do carnaval baiano

17 de fev. de 2026


Falar de BaianaSystem exige recuar para antes da banda, olhar para Salvador como laboratório urbano onde música, política, tecnologia e ocupação de rua se cruzam há décadas. A cultura dos blocos baianos nasce dentro de uma cidade profundamente marcada por desigualdade racial e territorial. O Carnaval de Salvador é estrutura, indústria, mas também é território simbólico onde se confrontam modelos distintos de festa e de poder.

Nos anos 1970, o surgimento dos blocos afro como Ilê Aiyê e depois Olodum reorganiza o Carnaval ao afirmar identidade negra de forma explícita, politizada e estética. Não se trata apenas de percussão forte ou fantasia temática. É um projeto de reeducação histórica, valorização da herança africana e construção de autoestima coletiva. Nos anos seguintes, o trio elétrico se consolida como máquina sonora móvel, capaz de deslocar multidões. Dodô e Osmar já haviam transformado a guitarra elétrica em instrumento de rua desde os anos 1950, mas é na década de 1980 que o trio se torna estrutura central do Carnaval, com blocos empresariais, cordas separando foliões pagantes.

Salvador sempre teve uma disputa entre quem pode circular e quem fica de fora da corda. A invenção do abadá como ingresso e uniforme consolidou um modelo econômico potente, mas também excludente. Paralelamente, os blocos afro, afoxés e iniciativas independentes mantiveram viva uma dimensão comunitária do Carnaval, com ensaios nos bairros, oficinas de percussão, formação política e articulação cultural ao longo do ano inteiro.

O BaianaSystem surge em 2009 dentro desse caldo histórico. O projeto nasce da pesquisa de Roberto Barreto sobre a guitarra baiana, instrumento criado por Dodô e Osmar e base do som elétrico que moldou o Carnaval. A ideia inicial não era montar uma banda convencional, mas tensionar tradição e contemporaneidade. A guitarra baiana, pequena e aguda, ganha nova camada quando encontra graves mais pesados, bases eletrônicas e a voz de Russo Passapusso, que traz um vocal falado, próximo do rap e do reggae, articulando questões urbanas, políticas e raciais.

Desde o primeiro disco, o BaianaSystem se posiciona como projeto que dialoga com sound system jamaicano, samba-reggae, dub, pagodão baiano e cultura digital. Ao longo dos anos 2010, o grupo cresceu nacionalmente, mas mantém Salvador como eixo simbólico

O bloco Navio Pirata, criado pelo BaianaSystem, é a síntese dessa leitura. Um trio sem segregação, multidão sem barreira física entre artista e público, com impacto direto na ocupação do espaço urbano. Em um Carnaval cada vez mais estruturado por patrocínios e circuitos oficiais, o Navio Pirata se afirma como bloco que arrasta milhares de pessoas sem depender do modelo tradicional de venda de abadás.

Musicalmente, o BaianaSystem expande a ideia de bloco ao incorporar repertório que não se limita ao refrão fácil de trio elétrico. Músicas como “Playsom”, “Lucro” e “Sulamericano” dialogam com crítica social, colonialidade, violência policial e desigualdade estrutural. A banda transforma o Carnaval em plataforma de discurso, algo que historicamente já existia nos blocos afro, mas que ganha nova linguagem ao ser atravessado por estética urbana contemporânea. O grave alto, as projeções visuais e a comunicação direta com o público criam uma atmosfera que mistura celebração e enfrentamento.

A cultura dos blocos baianos sempre foi mais do que desfile, entra em âmbitos bairristas, a confecção de fantasia, é economia informal, geração de renda para costureiras, percussionistas, técnicos de som e vendedores ambulantes. O Carnaval de Salvador movimenta bilhões, mas sua base é formada por trabalhadores que atuam muito antes da quarta-feira de cinzas. O BaianaSystem, ao estruturar o Navio Pirata e manter atividades ao longo do ano, se insere nessa cadeia produtiva de forma consciente, reforçando que bloco não é evento isolado, mas processo contínuo.

Há ainda a dimensão simbólica. Salvador é uma cidade negra, mas profundamente desigual e o Carnaval evidencia essas camadas. Enquanto camarotes de luxo concentram artistas pop e público de alto poder aquisitivo, blocos de rua reúnem uma multidão diversa que reivindica pertencimento. O sucesso do Navio Pirata indica que há demanda por experiências menos filtradas pelo consumo direto.

Ao longo dos últimos anos, o BaianaSystem consolidou-se como um dos principais nomes do Carnaval contemporâneo, sem abrir mão de discurso crítico, dialogando com públicos variados e, ao mesmo tempo, mantendo Salvador como centro narrativo.

O Carnaval de Salvador segue sendo um dos maiores eventos de rua do mundo, mas sua força real está na capacidade de produzir identidade, conflito e pertencimento ao mesmo tempo. O BaianaSystem atua nesse campo com consciência histórica, conectando a invenção elétrica do passado com as urgências do presente.